O Mercador de Veneza de William Shakespeare


Personagens Principais Bassânio – homem caído que busca reencontrar o céu (Pórcia) Pórcia – rica herdeira Antônio – duplo de Antônio, homem caído mas sem esperança Shylock – judeu rico

Personagens Secundárias Jessica – filha de Shylock Nerissa – dama de companhia Graciano – amigo de Bassânio e Antônio Lourenço – apaixonado por Jessica Lanceloto – criado de Shylock

Interpretação “...só pelos ditames da justiça nenhum de nós a salvação consegue, para obter graça nós rezamos...” – Pórcia (Ato IV – Cena I)


Há dois polos em oposição. No polo alto temos Pórcia (Belmonte – belo monte – no julgamento o Céu desce do monte para conversar com a terra) e no polo baixo Shylock (matéria – quer a carne), ambos representam a ambiguidade humana entre Espírito (somos feitos à imagem e semelhança de Deus) e Matéria (do pó viemos e ao pó voltaremos). Bassânio e Antônio representam o homem caído depois do pecado original, mas se o primeiro busca o polo superior (casar com Pórcia), o segundo é desesperançado (Antônio apresenta uma dor existencial desde o princípio da narrativa) – temos a possibilidade de alcançar o Céu.


A questão central da peça é a escolha de Shylock entre a lei cósmica (Céu) e a lei humana (terra). Caso seguisse a lei cósmica (aceitar a oferta de seis mil ducados) todos ganhariam, mas prefere a vingança (a libra de carne – cruel e maligna) e sofre as consequências. Por mais que tenha sido humilhado, Shylock não pode justificar uma injustiça com outra anterior – seria a lei de talião ou de Têmis na mitologia grega (ver a trilogia Oréstia de Ésquilo). Ao final é perdoado da pena de morte, pois somente o Céu perdoa – há uma diferença entre justiça divina e a dos homens.


O anel simboliza a aliança do homem da terra com o Céu. Esta ligação é rompida quando o anel é entregue as leis da terra. E a nova aliança acontece no final da peça, numa clara alusão a primeira e segunda alianças no Antigo e Novo Testamento. Isto fica ainda mais claro quando Pórcia entrega a aliança a Antônio que a dá a Bassânio – é a passagem pela carne, como Cristo.


Shakespeare reconta simbolicamente o mito cristão: Bassânio é o homem caído que busca reencontrar o Céu, representado por Pórcia – como Cristo que apenas deseja que reconheçamos o que Ele fez por nós, Pórcia diz: “Suplico-vos, apenas reconhecer-me quando nos revirmos.”



Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • O Mercador de Veneza é possivelmente inspirada em Il Pecorone, publicada em 1558 e atribuída ao escritor Ser Giovanni Fiorentino, que a deve ter escrito no final do século XIV.

  • Shakespeare escreveu O Mercador de Veneza em 1596-97. A ação passa-se em Veneza e em Belmonte, no continente próximo.

  • Embora a trama tenha pouca verossimilhança, O Mercador de Veneza é sucesso permanente, como se a arte de Shakespeare sobrevivesse a todas as interpretações. Esclarece T. S. Elliot: "About any one so great as Shakespeare it is probable that we can never be right, it is better that we should from time to time change our way of being wrong."

  • Shylock é a mais famosa personagem judaica da literatura. A má vontade com os judeus explicitada na peça era comum na época.

  • Os judeus podiam praticar a usura, mas viviam em guetos e eram obrigados a usar roupas que os identificasse com tal (chapéu vermelho).

  • Pórcia pode dizer o segredo das urnas a Bassânio, mas é ele que tem que decidir sua conduta no desafio – passagem que remete ao livre arbítrio.

  • Nas peças de Shakespeare, a noite quase sempre representa os momentos difíceis, os momentos de crise, os momentos terríveis. Antes da queda, havia sol o tempo todo, isto é, não havia necessidade de religião porque o homem estava associado à divindade naturalmente. Após a queda, cria-se a noite permanente, quando a bondade é mais importante. No Kali Yuga, na época das sombras, apenas a bondade e caridade viabilizarão o próximo ciclo.

  • A melhor tradução de Elizabeth é Isabel, e de James é Tiago.

  • Para fins devocionais há três línguas sagradas: hebraico (leitura do Torá), árabe (leitura do Corão) e sânscrito (leitura dos textos hindus). Não é o caso da Bíblia.

  • O Iluminismo propõe a substituição de Deus por outra divindade que era a razão humana. Era um ato religioso, mas voltado para o Deus errado – um ato de paganismo. A genética do Renascimento é neo-pagã.

  • Santo Agostinho que era adepto da predestinação: “Alegrai-vos, um dos ladrões se salvou. Não vos entusiasmeis, porque o outro não.” Pressupõe que o homem caído após o pecado original não tem mais capacidade ou energia para produzir a própria salvação, e só se salvará se houver um ato de generosidade divino.

  • Quase todo o teatro grego aborda o tema das leis divinas e leis humanas, ensinando aos políticos como serem estadistas escolhendo a lei dos Céus.

  • As antigas tradições e, dentre elas as religiões, têm sempre dois componentes: um componente de natureza imaginativa que é a história que ela conta, e um componente doutrinal. No âmbito do componente imaginativo você tem sempre as mesmas histórias, e.g. Noé e Deucalião – o nascimento de um novo ciclo é sempre feito com elementos do ciclo velho, por isso, quem repovoará a terra são os filhos de Sem, Jafé e Cam (no caso de Noé) e são Deucalião e Pirra, personagens da mitologia grega. Mas não encontrará a mesma coincidência no âmbito das doutrinas – que serão diferentes conforme as religiões.