Noite de Reis de William Shakespeare


Personagens Principais Viola – náufraga apaixonada do duque Orsino – duque de Ilíria Olívia – condessa rica Sebastião – náufrago irmão de Viola Malvólio – intendente de Olívia Personagens Secundárias Maria – criada de Olívia Bobo – bobo da casa de Olívia Sir Tobias Belch – tio de Olívia Sir André Aguecheek – amigo de Tobias Belch Antônio – amigo de Sebastião

Interpretação Segundo Northrop Frye a narrativa típica da comédia apresenta uma sociedade cuja ordem e harmonia foi rompida (por esquecimento, orgulho, preconceito ou acontecimentos incompreendidos pelas personagens) e será restabelecida ao final.


O naufrágio na peça reforça este ponto, pois o símbolo comum do mundo inferior ou caótico é o mar, do qual é salvo o elenco ou parte dele. Além de Noite de Reis, o grupo de comédias shakespearianas “do mar” inclui A Tempestade e A Comédia dos Erros. As comédias de Shakespeare sempre apresentam uma aspiração, vontade ou desejo que enfrenta obstáculos para sua satisfação. Estes obstáculos podem ser externos, como no caso de um pai, um rival ou alguma lei. Neste caso a solução será fugir daquele local. Os obstáculos também podem ser internos, questões pessoais – e aqui a solução apresenta-se com uma invasão de pessoas que vêm de fora. Esse é o caso de Noite de Reis, o naufrágio de Viola e Sebastião prenuncia problemas (obstáculos internos) em Ilíria, e eles trarão a solução.


O que está errado em Ilíria? Logo na primeira cena notamos que o amor de Orsino é uma expressão de desejo insatisfeito (“... que o apetite saciado, adoecer possa e a morrer venha.”), pura concupiscência. Ao comparar-se a Acteon, Orsion parece fascinado com seu padecimento amoroso. Vemos também que Olívia está fechada para o amor por sete anos (número infernal), ou seja, numa atitude tão egoísta quanto a do Duque. Cesário (Viola) chamará sua atenção (“... sois a mulher mais cruel se à sepultura tencionais levar todas essas graças, sem deixar cópia viva (i.e. filhos).” e “... o orgulho vos domina;”) para o fato que ninguém tem o direito de desperdiçar seus talentos (remetendo a Parábola dos Talentos do Evangelho de Mateus). Os dotes de Olívia são presente de Deus e ela não tem o direito de desperdiça-los.


Portanto, a redenção da peça é a passagem de uma situação de amor egoísta e ilegítimo para um amor generoso e recíproco (Olívia transborda generosidade – dá amor e oferece bens – tão logo seu erro é revelado por Cesário, e Orsino, ao final, reagirá da mesma forma – entrega-se a Viola e incita paz com Malvólio). Para Shakespeare o amor legítimo é o que leva à corte, ao casamento e à procriação.


Ao final a reencontro de Sebastião e Viola representaria a reunião do Céu com a Terra, o reencontro do Espírito com o Aspecto Amoroso (sem o qual não pode haver verdadeiro amor), recolocando ordem em Ilíria.


No seu monólogo (Ato 4, Cena 3) Sebastião reconhece o bizarro de toda aquela situação, mas assim mesmo entrega-se a Olívia. Ao saudar o sol (“Eis o ar, eis o sol;”) Sebastião está abraçando as coisas boas da vida mesmo diante dos mistérios e estranhezas que ela apresenta, lembrando a ideia de G. K. Chesterton de que o catolicismo nos permite viver confortavelmente num mundo de mistérios insondáveis (Ortodoxia).


No exato momento que Sebastião vislumbra o sol Malvólio encontram-se fechando num quarto escuro, portanto, nas trevas. Malvólio também representa uma forma egoísta e ilegítima de amor: a egolatria. Ele vê somente a si mesmo (Maria nos diz que Malvólio “... tem opinião muita elevada de si próprio,” e “... esteve mais de meia hora ali embaixo, ao sol, praticando cortesia com a própria sombra.”), e seus sonhos de casamento com Olívia visam apenas obter poder sobre os demais. O quarto escuro, a falta de visão, reflete a incapacidade de enxergar além de si mesmo, espiritualmente trancado na escuridão do seu próprio ego.


Outro aspecto da obra:

A peça ironiza a forma como se fazia a corte no século XVI: baladas, declamações laudatórias inspirados nos mitos descritos por Ovídio ou sonetos inspirados em Petrarca. Cesário (Viola) somente conquista Olívia ao ler a sua alma.


Em todas as épocas a corte teve seu estilo próprio, um rito com comportamentos bem estabelecidos. Qual o rito do cortejo atualmente? Ele se perdeu com a dessacralização do sexo?



Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • A peça Noite de Reis deve ter sido composta no ano 1600-1.

  • Twelfth Night ou Noite de Reis refere-se ao feriado cristão de seis de janeiro (12 dias de festividades após o Natal) comemorando o dia da epifania, da revelação do filho de Deus. Isto explica o clima de comemoração empreendido por Sir Tobias. Pode também representar a chegada do amor legítimo, elevado.

  • Também é dito que o título corresponde ao dia de sua primeira encenação (6 de janeiro) e o subtítulo What You Will a “como você queira – tanto faz”. Ou significaria o subtítulo a “como você deve querer/desejar”?

  • O nome Belch significa arroto, Achecheek algo como bochecha tremelicante, e Malvólio uma mistura de malvagia (ruim em italiano) e diabolo (diabólico).

  • A fala de Orsino sobre transformação “em cerdo” é retirada do mito de Acteon (ele viu Diana nua e transformado em cerdo foi devorado por seus próprios cães – isso acontece na expedição dos argonautas). Representa o tormento pelos desejos que não podem ser satisfeitos.

  • Malvólio e Sir Tobias manifesta o antagonismo entre repressão e alegria festiva.

  • Malvólio é um falso puritano. Desprovido de real devoção ou religiosidade, apresenta uma virtude negativa (apenas para os outros).

  • A não reconciliação de Malvólio ao final é uma negatividade em meio ao clima geral de felicidade visaria dar um toque de realidade à peça.

  • A credibilidade das aspirações de Malvólio e do casamento de Maria com Sir Tobias é respaldada por eles serem provavelmente de boa linhagem, mas sem recursos financeiros.

  • Parábola dos Talentos: “Pois é assim como um homem que, partindo para outro país, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens: a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade; e seguiu viagem. O que recebera cinco talentos, foi imediatamente negociar com eles e ganhou outros cinco; do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois. Mas o que tinha recebido um só, foi-se e fez uma cova no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles. Chegando o que recebera cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito; entra no gozo do teu senhor. Chegou também o que recebera dois talentos, e disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito, entra no gozo do teu senhor. Chegou por fim o que havia recebido um só talento, dizendo: Senhor, eu soube que és um homem severo, ceifas onde não semeaste e recolhes onde não joeiraste; e, atemorizado, fui esconder o teu talento na terra; aqui tens o que é teu. Porém o seu senhor respondeu: Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e que recolho onde não joeirei? Devias, então, ter entregado o meu dinheiro aos banqueiros e, vindo eu, teria recebido o que é meu com juros. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem os dez talentos; porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem, ser-lhe-á tirado. Ao servo inútil, porém, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.” (Mateus 25:14-30)

  • Críticas de Noite de Reis ao longo do tempo dão ênfase a diferentes temas: baixa credibilidade, foco nas personagens, defesa de moderação na indulgência ao prazer, crítica ao puritanismo, vitória do amor natural sobre a melancolia, crise na classe aristocrática, crise de identidade, metalinguagem, e questão de gênero.