Macbeth de William Shakespeare


Personagens Principais Duncan – rei da Escócia Malcom – filho de Duncan Macbeth – general do exército escocês Lady Macbeth – esposa de Macbeth Macduff – nobre escocês

Personagens Secundárias Donalbain – filho de Duncan, irmão de Malcom Bancuo – general escocês Fleance – filho de Bancuo Lennox, Ross, Menteith, Angus e Caithness – nobres escoceses Siward – conde de Nothemberland, general inglês Jovem Siward – filho do conde Edward, o Confessor – rei da Inglaterra (apenas citado) Três bruxas

InterpretaçãoViva, viva Macbeth! Que há de ser Rei mais tarde!” – Terceira Bruxa (é a mesma promessa da serpente a Adão e Eva)


A narrativa de Macbeth simboliza a tensão entre o céu (Espírito) e a terra (matéria). No meio dessa tensão encontra-se o homem com os seus desejos que podem ser de duas naturezas: legítimos ou ilegítimos. Há também um estado de tensão entre ter e não ter consciência moral.


Macbeth, antes de assassinar o rei Duncan, passa por um terrível drama de consciência moral, entretanto, o mesmo não acontece com Lady Macbeth que não tem nenhum dilema moral, visto que ela que simboliza o desejo humano ilegítimo, ou seja, a matéria. Portanto, esta é uma história que mostra a tentativa de usurpação do céu pela terra ou em outras palavras, a tentativa de corrupção do espírito pela matéria.


As três bruxas são alçadas ao plano humano pelo mal presente na alma de Macbeth, e que crescerá com a inveja luciferiana que sentirá de Malcom.


As referências à noite e ao clima de estranheza após o assassinato de Duncan remetem ao desejo satânico de inverter a ordem, são sintomas da perda da ordem. E as batidas na porta soam como batidas na porta do Inferno, explicando o estado diabólico no qual Macbeth entabula e decretando sua danação. A morte de Duncan trás o caos, a perda da ordem.


O desvairo de Macbeth e a loucura de Lady Macbeth após o assassinato retratam o desespero de reconhecer que não há vida viável fora do reinado do Espírito. Será preciso matar a fonte da rebeldia – Macbeth – para restaurar a ordem. E a salvação virá de outros representantes do Céu – Malcom (que na vida real seria esposo de Santa Margarida) apela para a Inglaterra do rei Edward, o Confessor. O rei Macbeth transforma em dor tudo o que toca, já o rei Edward salva com o toque de suas mãos. Um ilegítimo, outro legítimo.


O ser humano tem uma natureza dual: somos espírito e matéria. Por isso, vivemos em estado de tensão permanente, pois constantemente somos tentados a usurpar o espírito pelo desejo material ilegítimo. Somos homens caídos após a cisão com a divindade, e o diabo trabalha, através dos desejos ilegítimos, para evitar nossa reunião com Deus. A nossa salvação passa pelo controle do desejo ilegítimo.


Shakespeare nos mostra, também, que a vida humana é um processo de queda e redenção (ciclos cósmicos) e quando acontece a morte do espírito, a ordem de todas as coisas se inverte. É preciso, portanto, recuperar a ordem original, e isso somente é possível no plano espiritual.


Quatro personagens destacam-se pelo seu sentido simbólico, dando sentido à peça:

Duncan, rei da Escócia: representa o Espírito – a santidade que vai ser destruída pelo casal Macbeth (Gaia e Cronos destroem Urano). O rei sempre tem o sentido simbólico de “espírito divino”; ele representa, também, a figura do pai. Portanto, matar o rei ou matar o pai, simbolicamente significa matar o espírito, ou seja, matar Deus. Foi isso que fizeram os revolucionários franceses em 1789. É preciso entender que a figura do rei, embora não seja divina propriamente dita, simboliza o divino, a santidade.

Lady Macbeth: simboliza a matéria que é sempre corruptível. Como Eva do paraíso, representa o desejo humano ilegítimo – a matéria corrompe o homem para matar o Espírito. É Lady Macbeth que corrompe o marido para matar o rei Duncan. Ela não representa uma mulher, mas sim o polo tenebroso dentro do próprio Macbeth, dentro de todo ser humano.

Macbeth: representa o homem que foi corrompido pelo desejo ilegítimo. Assassina o rei Duncan quando este o visita em seu castelo. A visita de Duncan a Macbeth simboliza o Céu visitando a Terra, ou em outras palavras, o Espírito visita a Matéria, pois o hospedeiro é sempre o inferior.

Macduff: simboliza o Anjo Vingador (os anjos não são paridos de mulher). É ele quem mata o usurpador do trono. Interrompe a queda às trevas e restaura a ordem.

Esta é a peça de Shakespeare onde está mais claramente vemos a contraposição do céu e da terra. Mostra-nos o modelo de vida humana de queda e redenção – perda e recuperação da ordem. Também dá a oportunidade ao espectador ou leitor de experimentar a sensação de culpa – somos todos pecadores – e entender melhor sua natureza, preparando-o para combater os desejos ilegítimos.


Matar o rei é matar o espírito, é o homem querer ser Deus. O mundo moderno é povoado por Macbeths. Homens, enfeitiçados pela própria hübrys, que não se veem mais como caídos, esqueceram serem imagem de Deus e que as coisas terrenas são apenas sombras das realidades espirituais. Vivemos no caos. Quando e como virá a restauração da ordem?


Notas

  • William Shakespeare (1564-1616) em Stratford-upon-Avon, Inglaterra. Era católico num mundo protestante.

  • Shakespeare escrevia, dirigia, produzia e atuava em suas peças. Deixou-nos a maior obra teatral do mundo moderno.

  • A ação de Macbeth desenvolve-se na Escócia. É baseada em personagens e fatos históricos do século XIX.

  • As três bruxas também podem ser interpretadas como as Parcas da mitologia grega, ou seja, as enviadas do Destino.

  • O maior problema brasileiro é a cultura da inveja – uma doença espiritual. É preciso um processo alquímico para dissolver esta inveja e re-coagulá-la em ambição. Uma doença espiritual só poderá ser curada por um processo espiritual.

  • Out, out, brief candle! Life's but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage and is heard no more. It is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing.” – Macbeth ao saber da morte da esposa