Líside de Platão


“… cheguemos a um princípio de amizade (…), àquele primeiro objeto (“PrimeiroAmor”), por amor do qual dissemos que são amadas todas as outras coisas...” – Sócrates (219d)

Personagens Sócrates – filósofo Ctesipo e Hipótales – jovens aristocratas Menéxeno e Líside – meninos favoritos de Ctesipo e Hipótales respectivamente

A reflexão filosófica sobre a amizade teve início com Sócrates, mas estabelecer seu pensamento é difícil dado o grande desnível entre as referências de Xenofonte e o que Platão coloca na boca de Sócrates. O mínimo que pode-se extrair é que Sócrates contribuiu notavelmente para depurar o conceito de amizade, ligando-o ao valor moral.

O amigo verdadeiro seria o homem virtuoso, aquele que é capaz de bastar-se a si mesmo, que têm domínio de si e que possui as qualidades daí decorrentes. Assim, a condição primeira para conquistarmos amigos bons é sermos bons nós mesmos – a amizade é remetida à dimensão da psyché (alma) e fundada sobre a areté (virtude).

No Líside, Platão quer superar duas doutrinas opostas sustentadas por seus antecessores e contemporâneos: uns argumentando que o fundamento da amizade é a semelhança (busca de iguais – linha de pensamento de, por exemplo, Empédocles) e outros considerando que a amizade se funda na atração recíproca dos contrários (tese perceptível, por exemplo, em Heráclito) – ambas aqui refutadas.

A amizade, segundo Platão, nasceria de algo intermediário entre os extremos opostos (bem e mal) – os homens encontram-se a meio caminho entre o bem e o mal, amamos o bem para combater o mal. Amizade não se dá apenas horizontalmente, mas eleva-se verticalmente (i.e. transcendentemente) – o que buscamos nas amizades humanas (horizontal) remete sempre a alguma coisa de ulterior, tendo sentido somente em função do “Primero Amor” (alusão à agraphadogmata – doutrinas não-escritas).

Este “Primeiro Amor” é o Bem primeiro e absoluto (mundo das Ideias) – a amizade que liga os homens entre si é autêntica para Platão somente se se revela um meio para ascender em direção ao Bem (conclusão análoga ao amor apresentada no Banquete).


Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Líside, da amizade, é diálogo legítimo (gênero maiêutico), provavelmente do período socrático, diálogo aporético.

  • Platão estuda a amizade (philia) no Líside e o amor (eros) no Banquete e, em parte, também no Fedro. Estes dois conceito não coincidem: na philia grega prevalece o elemento racional, estando ausente a paixão e a “divina mania”, características peculiares de eros.

  • Sócrates lembra Hipótales que não é com louvores e exaltação que se conquista alguém, pois isso os torna orgulhosos, mas sim destruindo seu exacerbado amor-próprio (húbris).

  • Sócrates faz os meninos verem que amar não é deixar fazerem o que quiserem, mas sim educar – conhecimento como critério para ação.

  • Sócrates lista a amizade, o amor e o desejo como intimamente ligados e imbricados – “se relacionam com o que nos é próprio” (221e).

  • A discussão é aporética, e Sócrates faz, mais de uma vez, uso da erística diante dos meninos ainda inábeis na argumentação.

  • Estágios do método dialético socrático-platônico: