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Hípias Menor de Platão

  • há 21 horas
  • 3 min de leitura

Aquele que erra voluntariamente é melhor que o que erra involuntariamente.” – Sócrates, colocação provocadora



 Personagens Sócrates – filósofo Hípias – famoso sofista de Élis Êudico – organizador da conferência na qual falou Hípias



Como quase todos os diálogos do período socráticos, Hípias Menor é uma discussão dialética, desta vez entre Sócrates e o ilustre sofista Hípias de Élis. Eles debatem sobre quem seria o melhor herói: o verdadeiro e direto Aquiles ou o astuto e o enganador Odisseu.


O exercício dialético revela um paradoxo: o homem bom (o virtuoso, o que possui conhecimento) seria o mais capaz de cometer injustiça voluntariamente, porque domina a arte ou técnica em questão (por exemplo, mentir ou enganar).


A tese chocante de Sócrates é que o homem bom, sábio e competente em uma arte é também o mais capaz de cometer o mal voluntariamente porque tem o domínio completo da ação (pode fazer o oposto quando quer). Isso não é uma apologia à injustiça, mas uma demonstração radical do intelectualismo ético socrático: o erro ou a injustiça voluntária pressupõe conhecimento superior, enquanto o mal involuntário decorre da ignorância (sendo o ignorante inferior ao sábio) – o homem realmente bom seria aquele com controle total, inclusive sobre o erro ou a injustiça, ao passo que quem erra involuntariamente é apenas ignorante, e, portanto, inferior.


Platão apresenta o ápice da ética socrática: ninguém prática uma injustiça voluntariamente mas por ignorância, o injusto acredita que a ação o beneficia por ignorar o mal que fará à sua alma (o mal é sempre ignorância). O verdadeiro conhecimento dá poder total, inclusive sobre o erro – e o sábio, por saber o Bem, não pratica injustiças.

O diálogo também é uma provocação intencional de Platão para expor os limites da sofística representada por Hípias. Sócrates usa as conjuntiras e o raciocínio ambíguo de Hípias para forçá-lo a aceitar uma conclusão absurda – demonstrando as fraquezas na sua compreensão da verdade, do conhecimento e da excelência moral.


O diálogo termina em aporia: Sócrates diz estar “ora de um lado, ora de outro”, e propõe continuar a discussão depois – uma provocação para o leitor refletir além do texto escrito, apontando para as doutrinas não escritas.





Notas


  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “a mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Hípias Menor, da Mentira é diálogo legítimo (gênero refutatório), do período socrático (forma dramática platônica com conteúdo socrático).

  • Sem o testemunho explícito de Aristóteles na Metafísica, poucos críticos aceitariam Hípias Menor como genuinamente platônico devido ao seu caráter provocador e aparentemente escandaloso.

  • “Como os portões do Hades me é odioso aquele homem que esconde uma coisa na mente, mas diz outra.” – Aquiles (Ilíada IX, 312-313). A frase de Aquiles representa a ética tradicional grega (baseada em Homero como educador da Hélade): valoriza a honra direta, a palavra dada, a repulsa à astúcia como covardia ou desonra. Sócrates subverte isso: a verdadeira virtude não é ingenuidade ou honestidade aparente, mas conhecimento pleno, que inclui domínio sobre o oposto (mentira, injustiça). O sábio pode mentir ou errar voluntariamente, mas não quer — porque sabe o que é o Bem.A frase de Aquiles reflete o pior tipo de intelectual: aquele que esconde o que sabe.

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