Física de Aristóteles


Mas, se é certo que na natureza das coisas só a alma ou o intelecto nela tem a capacidade de numerar (determinação do antes e depois no contínuo), é impossível a existência do tempo sem a alma.” – Aristóteles, Física Livro IV 223a 21-26


A Física (“filosofia segunda” para Aristóteles) trata da realidade sensível, intrinsecamente caracterizada pelo movimento. O termo física não refere-se ao sentido moderno (sentido quantitativo de Galileu), mas a um conjunto de princípios gerais, aplicando os conceitos de ato-potência e movimento nos entes do mundo corpóreo – trata-se de um manual de metodologia científica (Aristóteles é o autor do método experimental), considerações rigorosamente filosóficas da natureza. Com a separação entre metafísica e física supera-se definitivamente o horizonte filosófico dos pré-socráticos – o termo física deixa de significar a totalidade do ser e passa a referir-se ao ser sensível.


Assim como no livro A Metafísica encontram-se considerações físicas, na Física há considerações metafísicas, pois ambas ciências estão intrinsecamente interligadas – o suprassensível é causa e razão do sensível, sendo que ambas investigações (metafísica e física) dirigem-se ao suprassensível. A física aristotélica, assim como grande parte da sua cosmologia, é, na realidade, uma metafísica do sensível.


Aristóteles parte do axioma de que Deus e a natureza nada fazem em vão, que esta sempre tende ao melhor, e, na medida do possível, faz aquilo que deve ser o mais belo. A finalidade do universo é provada pela observação, onde os compostos harmoniosos não podem ser explicados pelo acaso.


Movimento Aristóteles resolve a questão da negação do movimento levantada pelos eleatas (Parmênides e Zelão de Eleia alegavam que o nascer e morrer significaria a passagem do não-ser ao ser e vice-versa, o que iria de encontro a impossibilidade do não-ser) com o conceito de ato e potência (ver A Metafísica) – o movimento como passagem do ser potência ao ser em ato, desenvolvendo-se no seio do próprio ser.


Assim como potência e ato referem-se as diferentes categorias (praedicamenta – predicados da substância) e não somente a primeira (substância), também o movimento refere-se as diferentes categorias, sendo que algumas não aceitam movimento: (a) relação, pois não é possível um movimento sem movimento para o segundo termo, (b) ação e paixão, pois são movimentos em si mesmas, e (c) tempo, pois é uma afecção do movimento. Restando as categorias da substância, qualidade, quantidade e lugar (as categorias de situação e hábito aparecem somente na Categorias, estando ausentes na Metafísica e Física).


A mudança segundo a substância é denominada geração e corrupção, a segundo a qualidade é alteração, a mudança segundo a quantidade é chamada de aumento e diminuição, e a de lugar leva o nome de translação – mudança é um nome genérico que abrange as quatro formas, enquanto movimento designa as outras três, em particular a última.


Só os compostos (sínolos) de matéria e forma mudam, pois só a matéria implica potencialidade – a estrutura hilemórfica da realidade sensível é a raiz de todo o movimento. Levando a discussão para a Doutrina das Causas (ver A Metafísica), temos as causas material e formal intrínsecas do devir, a causa eficiente (externa) como motor (já em ato) necessário para provocar a passagem da potência ao ato, e a causa final como o objetivo e a razão do devir.


Aristóteles vê na causa final o sentido positivo de todo o devir – um avançar para a forma e a realização desta (a mudança que conduz à plenitude do ser). A teologia Aristotélica apresenta a aporia do mundo não existir por um desígnio do Absoluto, mas por um anelo quase mecânico e fatal de todas as coisas à perfeição. Neste sentido a doutrina platônica do Demiurgo (ver Timeu) apresenta uma visão mais profunda – ou admite-se um ser que projeta o mundo e lhe proporciona a existência em função do bem e da perfeição, ou não há um finalismo universal.


Espaço O conceito de espaço (e vazio) está ligado à ideia de movimento. Nada pode estar no (inexistente) não-ser, as coisas estão em algum lugar (algum onde), que, logo, é algo que existe. A deslocação recíproca de dois corpos (e.g. o ar ocupa no copo o lugar da água que saiu) demonstra que o lugar é distinto dos corpos e também é parte do espaço.


Todas as coisas tendem há um lugar natural quando não encontram obstáculos, e.g. o fogo e o ar dirigem-se para cima, e a água e a terra para baixo (cima e baixo são realidades objetivas).


Características do lugar: (a) há o lugar comum a muitas coisas e o lugar próprio de cada objeto, o lugar que contém cada objeto estabelece certo limite; (b) lugar é o que contém o objeto sem identificar-se com o mesmo. Destas duas características temos que o lugar é o limite do corpo continente enquanto contíguo ao conteúdo. E mais, o lugar não se confundo com o recipiente, sendo aquele imóvel e este móvel, e.g. o vaso é um lugar transportável, mas o lugar é um vaso que não se pode transportar – daí deriva a fórmula escolástica terminus continentis immobilis primus, ou seja, não é pensável um lugar fora no universo nem um lugar no qual esteja o universo. Tudo o que se move está em algum lugar (e move-se tendendo ao seu lugar natural); o que é imóvel não está no seu lugar. Logo, Deus não precisa estruturalmente de lugar.


O lugar que nada contém (vazio) é uma contradição de termos a partir da definição acima. Derrubando assim a premissa sobre a qual os atomistas (Demócrito) construíram a doutrina dos átomos e a concepção mecanicista do universo.


Tempo O tempo existe? Uma parte de tempo existiu e já não existe (passado), uma parte existirá mais ainda não existe (futuro), sendo que o instante (presente) não é uma parte pois o tempo não parece ser um conjunto de instantes (a parte deve ter uma medida e o todo é composto de partes).


Aristóteles procura captar a natureza do tempo apoiando-se nas noções de movimento e alma. A existência do tempo seria impossível sem a da mudança – quando não observamos nenhuma mudança parece que o tempo não decorreu. Assim o tempo seria como uma propriedade do movimento, pois o movimento é contínuo (como também seria o tempo em proporção ao movimento), distinguindo-se o antes e o depois com correspondência tanto no tempo como no movimento – o tempo realiza o seu percurso quando percebemos o antes e depois no movimento (“o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois”).


E percepção do antes e do depois pressupõe forçosamente a alma, pois só a intuição do noûs (ver Ética a Nicômaco) permite tal percepção. Esta capacidade de intuir a distinção entre o numerado e o número coloca a alma como condition sine qua non do próprio tempo. Aristóteles aqui antecipa em séculos a perspectiva agostiniana e concepções espiritualistas do tempo.


É necessária uma unidade de medida para o tempo, e Aristóteles a busca no movimento circular (o único uniforme e perfeito) das esferas e dos corpos celestes. Deus e as inteligências motrizes, assim como estão fora do espaço, também estão, enquanto imóveis, fora do tempo.

Tudo que existe concretamente no mundo sensível, existe em número (ser – movimento), e ocupa lugar no espaço e no tempo.


Aristóteles nega a existência do infinito em ato – existindo somente em potência, e.g. o número (sempre pode-se adicionar mais um), o espaço (divisível até o infinito) e o tempo (não existe em totalidade mas cresce sem fim). O Estagirita não concebe o imaterial comO podendo ser infinito, pois associa este a categoria da quantidade, só aplicável ao sensível. Adota a ideia pitagórica, e tipicamente grega, de que o finito é perfeito e o infinito é imperfeito (o finito é inteiro, não carece de nada). Assim Aristóteles nega a Deus o atributo da infinitude, e também elimina a intuição dos milésios (Melisso e Anaxágora) que consideravam o Absoluto como infinito (pesamento excêntrico a cultura grega que somente renasceria com a descoberta de ulteriores horizontes metafísicos).


Conforme visto na Metafísica, Aristóteles considerou a realidade sensível como dividida em duas esferas: (a) o mundo sublunar caracterizado por todas as formas de mudança, com predomínio da geração e corrupção, e (b) éter (quintessência), os céus e planetas que movem-se (circularmente – movimento contínuo, perfeito, sempre em ato, não ligado a potência dos contrários), mas são de material incorruptível e não sofrem alteração, nem aumento ou diminuição. A diferença entre estas duas esferas está na diferente matéria de que são formadas.


A matéria corruptível (potência dos contrários) é dada pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que Aristóteles consideram transformável uns nos outros ao explicar o conceito de geração e corrupção (contrapondo-se a Empédocles e os eleateas). Já a matéria incorruptível, passível apenas de movimento é o éter (porque sempre flui – aei thei) ou quintessência (adicional às quatro anteriores).


Esta distinção entre os mundos sublunar e supralunar (éter) subsistiria até a era moderna quando desaparecera conjuntamente com seus pressupostos.


Estrutura Geral da Física (resumo da localização das principais ideias):


Livro I: Objeto e Método da Física Método general da ciência da natureza. Seu objeto: o estudo dos princípios. Seu procedimento: a análise.


Livro II: Número dos Princípios. Negação do Monismo Opiniões dos antigos sobre os princípios da natureza e dos entes. Exclusão de algumas teorias. O postulado fundamental da física: a realidade do movimento. Refutação geral da tese da unidade do Ser: ex ratione entis, ex ratione unius – o uno como contínuo, como indivisível, por definição. Perplexidade dos antigos diante da aporia do uno e o múltiplo.


Livro III: Refutação da Tese “O Ser é Uno” A) Crítica dos argumentos de Melisso sobre a unidade do Ser. – B) Análise dos pressupostos lógicos da tese de Parmênides. A descrição da tese é impossível se supomos a univocidade E a indistinção entre o Ser e o que é. Impossibilidade de falar de tal Ser tomado em si mesmo: não pode ser atributo nem sujeito. O Ser mesmo não pode ter magnitude nem partes conceituais. – Críticas insuficientes do eleatismo por admitir seus supostos.


Livro IV: Crítica aos Físicos Crítica dos físicos. As teses dinamistas; sua relação com Platão. As teses mecanicistas: Empédocles e Anaxágoras. Crítica das teses de Anaxágoras desde seus pressupostos e sua maneira de proceder; crítica de seus conceitos de infinito, de separação e de geração.


Livro V: Os Contrários como Princípios Herança dos antigos: os princípios como primeiros contrários; sua justificação. Razões: qualquer coisa não pode vir de qualquer outra ao acaso; caso da geração de coisas simples e compostas. Conclusão: os opostos ou seus intermediários são termos de geração e corrupção. Críticas aos antigos.


Livro VI: Número dos Primeiros Princípios Seu número não é nem um nem infinito. Necessidade de um terceiro princípio, sujeito de opostos; três razões; apelo aos antigos em favor de um substrato. Os princípios são mais de um, mas não mais de três.


Livro VII: Análise da Geração Análise da linguagem da geração. Necessidade de um sujeito; sua dualidade: um em número, dois enquanto a forma. Mesmo a geração substancial exige um sujeito. Consequências: tudo o que é gerado é composto. Os princípios são três: dois essenciais, um acidental; em que sentido eles podem ser considerados como dois; os três princípios: matéria, forma e privação. Resumo.


Livro VIII: Solução das Aporias dos Antigos Para os antigos, a gênese é impossível, pois o ser não pode vir do ser nem do não-ser. Crítica: a distinção conceitual entre o essencial e o acidental; há uma gênese acidental do que não é e do que é. Outra solução: a gênese do ponto de vista da potência e do ato.


Livro IX: Matéria e Privação, Crítica a Platão Distinção conceitual entre matéria e privação; diferença com a tríade platônica. A causa material e sua tendência. A causa formal.



Notas

  • Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira (daí a alcunha de Estagirita) na Macedônia. Filho de médico, de quem provavelmente herdou o interesse pelas ciências naturais.

  • Ingressou na Academia de Platão aos 18 anos, nela permanecendo até a morte do mestre (348-347). Retira-se da Academia desgostoso com os rumos ditados pelo sucessor de Platão (seu sobrinho Spêusipos) em transformar a filosofia em matemática.

  • Apelidado for Platão como “o ledor”. Pregava a necessidade de conhecer today a discussão anterior antes de avançar sobre uma questão ou problema (status quaestionis).

  • Em 342 é convidado por Felipe da Macedônia para educar seu filho Alexandre (futuramente, o Grande). Seu aluno fará grandes contribuições ao Liceu.

  • Em 335 regressa a Atenas e funda o Liceu.

  • A obra de Aristóteles é a maior contribuição individual na formação cultural do mundo. Apenas suas obras esotéricas nos chegaram, basicamente anotações de aulas feitas por seus alunos. Principais títulos (nomeado por seus comentadores): A Política, Ética a Nicômaco, Física, Metafísica, Da Alma, Poética, e Organom.

  • Platão era fundamentalmente Dedutivo (do geral para o particular), ao passo que Aristóteles era Indutivo (do particular ao geral) – duas naturezas complementares. Aristóteles parte da minuciosa análise dos fatos concretos para alçar pensamentos mais abstratos.

  • Hilemorfismo: doutrina do filósofo judeu Avicebron (1020-1069) que, inspirada em conceitos aristotélicos, afirma a existência de dois princípios básicos e complementares, a matéria e a forma, constituindo todos os seres da realidade, de tal maneira que até mesmo a substância espiritual, a ' alma, possuiria ambos os aspectos. Tal doutrina foi bastante debatida e difundida pela filosofia escolástica.

  • O conceito de ato e potência prova logicamente que um feto, desde a fecundação, é um ser humano. Logo, o aborto provocado é um assassinato doloso.