Eutífrone de Platão


Devemos analisar essa proposição, Eutífrone, para sabermos se está bem formulada, ou a aceitaremos sem análise (…), e termos como verdadeiro um fato, com base na simples afirmação de terceiros? Ou, pelo contrário, devemos examinar o que nos dizem?" – Sócrates (9-e) explica a necessidade da contraposição dialética das ideias


Personagens Sócrates – filósofo Eutífrone – jovem, convencido, vidente não levado muito a sério



O diálogo trata da questão da piedade (ser pio ou ímpio), não no sentido pessoal, mas na conduta pública e com relação aos deuses. Sócrates busca a essência, a forma, do que é piedade ou de ser pio.

O tema abordado não pode deixar de referir-se a acusação de impiedade sofrida por Sócrates, com o jovem Eutífrone substituindo o acusador Meleto, já que seria impossível uma discussão filosófica entre este e o acusado.

Na busca do conceito de piedade o diálogo aborda três diferentes definições conduzindo na tradicional maiêutica socrática:


(1) Em sua primeira resposta Eutífrone alega que ser pio é fazer o que ele estava fazendo naquele momento (acusação contra o pai pela morte de um de seus trabalhadores), e que Zeus também havia punido seu próprio pai (Cronos). Em vez de sujeitar suas ações a um conceito universal, o vidente define suas próprias ações como a norma. Além da arrogância tipicamente sofística, Eutífrone também erra na visão blasfematória dos mitos.


Sócrates busca a forma (eidos) de piedade, uma régua, um modelo para comparar com os atos humanos e poder julgar sua piedade ou impiedade.

Vale notar que esta primeira resposta de Eutífrome vai ao encontro da conduta relativista moderna, mais recentemente incitada por conceitos desvirtuados da Física Quântica. Algo não pode ser e não-ser ao mesmo tempo, o relativismo abandona o conceito de ser e não-ser e regride a filosofia em mais de dois milênios.

(2) A segunda definição de Eutífrone (“O que aos deuses agrada, é pio; o que desagrada, ímpio.”) apresenta uma melhora, pois piedade coincidira com o que é bom ou perfeito. Porém, a definição é vazia por basear-se no conceito de que os deuses discordam entre si sobre o que é justo, bom e belo, e que eles acreditam que sua ação (de Eutífrone) é pia. Apesar de sair de um caso particular e expressar-se em termos gerais, Eutífrone não mudou de fato de sua opinião anterior.


Mesmo a adição argumentativa da necessidade da concordância de todos os deuses não elimina o equivocado conceito sobre os deuses, ou a incerteza em como determinar a concordância entre eles, ou ainda a possibilidade de concordâncias diferentes em casos similares.

Além de ainda não definir a essência da piedade, esta definição também apresenta falha lógica ao cair em petição de princípios (i.e. é amado pelos deuses por seu pio ou é pio por ser amado). A discussão ao menos avançou na convicção de que justiça e injustiça são coisas reais, e que os erros devem ser punidos.

(3) Diante do silêncio do seu interlocutor, Sócrates propõe uma terceira definição humanizada. Partindo de que o “ato justo é pio”, Sócrates põe em discussão se piedade seria “a parte da justiça que serve aos deuses”.



Ao longo de todo o diálogo Eutífrone argumento circunstâncias (acidentes) em torno de piedade. Em vão Sócrates tentar explicar que para ser piedoso (ato) têm que haver a potência de ser piedoso – ter algo de piedoso independentemente do julgamento dos outros. Só há ato se houver a potência para tal – o exemplo (ato) ou o resultado (ser amado pleos deuses) não explicam o que é ser piedoso (essência de ser pio).

Eutífrone compara Sócrates a Dédalo dizendo que a definição que busca (logos) está sempre em movimento e não pode ser alcançada. Por mais que a tarefa de Sócrates fosse árdua, e talvez não tivesse fim pois o engano é humano, esta contínua busca não era um fim em si mesma, ao contrário, Sócrates queria recuperar o nexo entre a palavra (logos) e a coisa em si, e combatia os sofistas que fomentavam a desunião entre ambas.



Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Eutífrone, da piedade é diálogo legítimo (gênero probatório), provavelmente escrito na juventude (27 anos), fase socrática do autor.

  • O diálogo desenvolve-se nas escadarias de mármore no pórtico do tribunal do rei-arconte (um dos três reis da aristocracia que substituem a monarquia – cuidava dos assuntos religiosos), onde Sócrates foi inteirar-se da acusação de impiedoso que o levou a julgamento, condenação e morte (ver Apologia de Sócrates e Platão).

  • Justiça ateniense – uma denúncia (e sugestão de pena) vai adiante apenas se o rei-arconte acatá-la como tal, os jurados são convocados, por sorteio, entre os cidadãos. O denunciante sofrerá a pena solicitada caso o réu seja inocentado.

  • No diálogo temos clara demonstração do método socrático – perguntar para o outro o que ele pensa e porque pensa desta forma, e, quando em erro, gradativamente desmontar o pensamento alheio (maiêutica, de maieutike, ou arte de partejar). Abordagem dialética.

  • Liceu: não confundir com a escola de Aristóteles, trata-se da praça Apolo Lykeios onde Sócrates dava aulas grátis de retórica para os jovens buscarem a “verdade”– ao passo que os sofistas cobravam para ensinar retórica para os jovens que ambicionavam a vida pública (política). A metodologia de ambos, sofistas e filósofos (Sócrates), podem ser muito parecidas. Mas o filósofo busca a verdade e o sofista busca estabelecer sua posição como sendo a verdade.

  • Palas Atena: padroeira de Atenas. Parthenon (virgem – Palas Atena era virgem) construída em sua homenagem no topo da Acrópole.

  • Héstia: deusa protetora das casas, remete à família.

  • Demônio (Familiar): Sócrates por vezes ficava paralisado, catatônico, sem se mover. Hipnotizado pelas ideias trazidas por este daemon (que não tem a conotação dos dias de hoje) – seria a consciência moral.

  • Exegeta: neste caso conselheiro religioso / interpreta os textos sagrados.

  • Sócrates trata Eutífrone com muita ironia ao longo de todo o diálogo.

  • Impiedoso: ímpio (oposto de pio) – quem não respeita os deuses, acusação gravíssima naquela época.

  • Sócrates estava mais preocupado com o jogo dialético de com a decisão final / conclusão (daí os textos serem aporéticos – inconclusivos (aporias). Aporia é em si um problema insolúvel. O diálogo não dá a resposta, teoricamente a resposta não está neste mundo (sensível), mas apenas no mundo inteligível. A discussão demonstra claramente o método socrático.

  • A prepotência de Eutífrone em conhecer a natureza e o pensamento dos deuses revela o estado de decadência religiosa em Atenas.

  • Dédalo – arquiteto construtor do labirinto de Creta (Minotauro), pai de Ícaro. Fazia estátuas que se moviam de lugar, fazendo aqui alusão a discussão que se move, mas no caso Eutífrone sempre volta para o mesmo lugar. Sócrates era escultor, daí a alusão ao parentesco.

  • A visão de Eutífrone representa a justiça de Têmis, justiça bruta e genérica – a vingança como justiça (Lei de Talião). Sócrates argumenta a justiça de Diké, justiça humana que pondera os possíveis atenuantes. A justiça não pode ser genéria, mas sim aplicável a cada caso. (ver Oréstia de Ésquilo)