Against Deconstruction de John M. Ellis



Desconstrucionismo é um movimento dentro da crítica literária que se diz inovador e provocativo, desafiando o status quo com ideias radicalmente provocadoras. Também se diz uma teoria altamente sofisticada e a mais importante no seu campo de atuação.


Mas do que se trata? O desconstrucionismo parte da natural dificuldade da palavra representar totalmente o objeto ou fato. Todos já experimentamos a dificuldade de transmitir uma imagem, acontecimento ou ideia para alguém. Os adeptos do desconstrucionismo argumentam que isso é impossível, ou seja, a palavra (significante) nunca vai refletir o objeto (significado). E levam isso ao extremo. Classificam todo aquele que acredita nesta possibilidade como um inocente tolo, pois atribuem a ele a crença na transmissão absoluta da realidade. Só veem estes dois polos opostos e extremos. Para eles não há meio termo, o que já representa um erro grosseiro desta pseudoteoria. O desconstrucionista não admite a discussão da sua teoria, a qual Jacques Derrida (1930-1997) denominava processo, e não teoria.


O modelo desconstrucionista apresenta afirmações no mínimo estranhas:

  • A escrita precede a fala;

  • Tudo é ironia;

  • Busque relevância no que é marginal;

  • Tudo é ideologia;

  • Não assuma nada pré-definido (o "duvide de todo que você sabe" de Descarte);

  • Reduzia todas as possibilidades aos polos tradicional e seu oposto.


O grande inimigo seria a "tradição". É a visão tradicional que o desconstrucionista primeiro identifica como inimigo e visa destruir. Porém não coloca nenhuma outra no lugar, até porque argumentam que isso não é possível. Dizem que toda interpretação é possível. O critico ou leitor está livre para interpretar a obra como ele quiser. Não há interpretação mais ou menos errada, pois todas estão certas. Isso tira das pessoas a necessidade de investigação, de análise, de busca por um significado mais expressivo e universal. Também desobriga o critico/leitor a argumentar e explicar a sua interpretação, em mais um movimento estupidificante. Identificam o problema mas não dão solução, argumentando que destruir o problema é a solução.


Costumam resumir esta fórmula na frase "all interpetration is misinterpetration". Mas isso é apenas um jogo de palavras para dizer o óbvio da dificuldade de representação do objeto pela palavra (levado ao extremo). Isso é muito comum no desconstrucionismo: palavreado rebuscado e obscuro que no fim das contas apenas reveste diferentes, e antigas, discussões sobre a óbvia dificuldade acima com uma nova terminologia para dar-se ares de novidade, vanguarda. A obscuridade também ajuda a afastar os opositores. Mas esta escrita obscura e de difícil entendimento contraria a necessária busca de clareza que qualquer teoria deveria perseguir. Este tipo de retórica é típica do misticismo religioso.


Acusam a tradição de sofrer de etnocentrismo (ver o mundo, ou ler os textos, através da cultura do agente). Mas isso é um problema antigo. E que demanda atenção e inteligência do agente e não deve ser visto como um fator impugnante de toda e qualquer interpretação.


Também acusam o status quo de logocentrismo (excesso de crença na capacidade da palavra representar o objeto). Alegam que a linguagem é falha e a palavra dúbia. Mas isso é tudo. Como teoria ou método não apresentam nada de novo e nenhuma proposta de melhora, apenas radicalizam. Assim a tradição nunca é abandonada (como seria natural num processo de desenvolvimento da teoria), mas fica sempre presente como inimigo a ser desconstruído.


Também no caso do logocentrismo os desconstrucionistas empregam um termo obscuro: “metafísica da presença”. Para eles a linguagem limita a estrutura do mundo. Será? Mais parece que a linguagem não abarca a estrutura do mundo. Ferdinand de Sausurre (1857-1913) via nisto uma arbitrariedade: a redução de um mundo infinito num sistema de conceitos que tenta, na medida do possível e sem conseguir, abarcá-lo. Daí Saussure dizer que os termos não tem seu significado correspondente diretamente na realidade, mas sim dentro do sistema de conceitos da língua, e particularmente na sua função de diferenciar as diferentes categorias de coisas (e.g. água quente - o que é água quente senão uma definição arbitrária dentro de um sistema de linguagem). Sausurre reporta a necessidade destes sistemas para o significado dos termos (da diferença dentro do sistema), mas não nega a relação com o mundo real. O termo funciona simultaneamente no mundo real e dentro do sistema linguístico. Derrida parte de Suassure para romper totalmente com a relação do termo com o objeto.


Desconstrucionistas por vezes se defendem como um modelo de leitura em diferentes níveis. Mas isso Dante já dizia muito antes: (1) nível literal, e.g. quando Ovídio diz que Orfeu com sua citara amansava as feras e comovia as árvores e pedras; (2) nível alegórico, e.g. Ovídio queria dizer que o homem sábio com o instrumento da sua voz amansa e humilha os corações cruéis e comove a sua vontade aos que não tem visa de ciência e arte; (3) nível moral que o leitor procura para si e seus descendentes, e.g. quando Cristo saiu para o monte a fim de transfigurar-se levou apenas três dos doze apóstolos, e disto pode-se entender moralmente que nas coisas secretíssimas devemos ter pouca companhia; e (4) nível anagógico, ou supra-sentido, o escrito representando as sublimes coisas da glória eterna, e.g. a fuga do povo de Israel do Egito torna a Judéia santa e livre, ou seja, na saída da alma do pecado esta torna-se santa e livre em sua potestade. Este quarto nível corresponderia ao que o Professor Monir classificava como simbólico: com uma forma única e eterna, e não maleável como o nível alegórico. Estas tentativas de se arrogar criações do passado é lugar comum no desconstrucionismo.


Poder-se-ia tentar desculpar Derrida lembrando que na França de sua época a história e biografia da literatura conservadora eram pedantes e ossificadas. Mas isso não justifica o modelo desconstrucionista. Nos EUA, onde o questionamento já era debatido a longa data, o desconstrucionismo ganhou largo terreno. No Brasil parece ser regra nas universidades. Curioso que este modelo poderia ter saído da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt (o período é coincidente) visto que o ataque a tradição parece abrir terreno para todas as interpretações de gênero, raça e classe tão caros ao projeto de desmantelamento da cultura ocidental. Desconstrucionismo e Teoria Crítica são eminentemente marxistas e contaminaram outras artes além da literatura.



Notas

  • John Martin Ellis nasceu em Londres (Inglaterra) em 1936.

  • Ellis é crítico literário e professor emérito de literatura alemã na Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

  • Além de Against Deconstrucion destacam-se em sua obra The Theory of Literary Criticism: A Logical Analysis (1974) e Literature Lost (1997).

  • Against Deconstruction foi publicado em 1989.

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