A República de Platão


...tem que haver tantas espécies de caracteres humanos quantas formas de governo; ou acreditas que as constituições nascem dos carvalhos e das pedras e não dos costumes dos cidadãos que tudo arrastam para o lado a que se inclinam?” – Platão dizendo que as formas de governo derivam dos humanos que lá habitam (544d-e)

Personagens Principais Sócrates – filósofo


Personagens Secundárias Glauco e Adimanto – irmãos de Platão Céfalo – rico aposentado, representa a velha geração Polemarco – filho de Céfalo, discípulo do retórico Lísias, geração intermediária Trasímaco – sofista, nova geração

Na busca da resposta sobre o que é a Justiça, a personagem Sócrates faz uma investigação sobre a realidade da ordem na alma e na sociedade (não sobre ideais), ao longo da qual três grandes temas destacam-se na República: (1) queda e ressurreição do homem e sociedade, (2) conceito de justiça, e (3) formas de governo:


(1) Queda e Ressurreição

A primeira palavra do diálogo, kateben (eu desci), marca o grande tema do diálogo que percorre até o final. A descida de Sócrates ao Pireu é análoga à queda dramática esquiliana, que traz a decisão para Dike, e também a de Homero que faz Odisseu descer ao Hades antes de cumprir seu destino (viagem iniciática). É também a descida da Atenas desde Maratona até o desastre do poderio marinho. Pireu é o Hades, é a Atenas decaída.


Céfalo fala de sua descida iminente ao Hades, onde os homens devem pagar pelos males feitos no devir. Ele representa a geração mais velha (num tempo de crise), que ainda impressiona por seu caráter e conduta moldados numa época melhor – não são corretos pelo amor à sabedoria, mas pela força do hábito, tendo pouco a oferecer à geração mais nova corrompida (negligenciaram a formação das gerações seguintes). Para Polemarco, da geração seguinte, o conceito de justiça restringe-se a honestidade nos negócios. E Trasímico, da geração atual, já defende a injustiça com uma paixão luciferina. (vertiginosa queda de valores)


Sócrates estava retido (pelos amigos) nas profundezas (Pireu), e vai usar da persuasão para levar seus amigos à pólis da Ideia. Das profundezas do Pireu avançaram, não para o passado da Atenas de Maratona, mas para frente e para cima, para a pólis construída por Sócrates com seus amigos e suas almas.


A descida de Er (filho de Armênio, o panfílio) para o mundo inferior encera o diálogo. Assim como a festa em honra de Bêndis é caracterizada pela igualdade entre os participantes (ao comentar a igualdade das procissões, Sócrates insinua um nível comum de humanidade alcançado pela sociedade), no Hades, com a morte, uma vez mais todos os homens são iguais diante do seu juiz. A escolha da próxima vida é livre, mas não pode ser mais sábia ou melhor do que o caráter de quem a faz.


No paralelo entre Pireu e Hades, na igualdade das almas solitária e liberdade sem substância, Sócrates emerge como aquele que pode identificar os paradigmas de vida certos e errados, permitindo aos demais adquirir sabedoria. Sócrates funde-se com Er, e ambos fundem-se com o filósofo que precisa retornar da visão de Agathon para ajudar seus colegas prisioneiros na caverna. Na profundeza, a alma experimenta a sua morte; da profundeza, ela subirá novamente para a vida, com a ajuda de Deus e seu mensageiro.


Homem – Daimon (Consciência) – Paradigma de Vida Pólis – Governante – Politeia (Forma de Governo)


A filosofia não é uma doutrina da ordem reta, mas a luz da sabedoria que incide sobre a luta; e ajuda ao homem não com uma informação sobre a verdade, mas com esforço árduo para localizar as forças do mal e identificar a sua natureza (o sofista é o inimigo e o filósofo surge em oposição) – a ordem reta da pólis não é apresentada como um “estado ideal”, mas os elementos da ordem reta são desenvolvidos em oposição concreta aos elementos de desordem na sociedade circundante.


A filosofia nasce como um ato de resistência à corrupção social tão profunda que afetou a existência sob Deus (a desordem da sociedade é reflexo da doença na psique de seus membros) – origem na resistência da alma contra a destruição pela sociedade.


A restauração deve começar atacando a “ignorância da alma”, corrigindo-se a relação entre homem e Deus. Este é o problema que domina a República, o ataque à sociedade é direcionado contra uma doença anímica. É preciso sair da ignorância para a verdade de Deus, da opinião incerta para o conhecimento do ser, e que cada um assuma sua atividade apropriada.


A filosofia platônica é a forma simbólica em que uma alma dionisíaca expressa a sua ascensão para Deus. A salvação individual, que permite levar a salvação para outros e, finalmente, a da sociedade – queda e ressurreição.

(2) Conceito de Justiça

A sequência de Céfalo, Polemarco e Trasímaco dramatiza as causas do declínio até o ponto em que a crise se articula no sofista clamando sua enfermidade como a medida da ordem humana e social. A noção de justiça para Trasímaco resume-se na preposição de que “o justo é o interesse do mais forte” – ilustrado pelo governo que faz as leis de acordo com o interesse dos grupos politicamente mais fortes.


Na busca da essência da Justiça, Glauco e Adimanto discorrem opiniões (doxas) sobre o tema, refletindo a corrupção social: (1) a justiça seria uma forma de contrato, um meio termo entre o desejo de cometer uma injustiça sem punição e o medo se sofrer uma injustiça sem o poder de retaliação. (2) os homens seriam injustos se fossem livres para fazê-lo, apenas o autointeresse esclarecido o induz a seguir as leis – sem o medo do castigo o justo agiria como o injusto (mito do anel de Giges - invisibilidade). (3) o homem injusto é mais feliz que o homem justo – o injusto esperto não só escapará da punição como ainda parecerá como justo. Estas três visões de justiça demonstram a decadência de uma sociedade na qual a verdade desloca-se da conformidade de um homem consigo mesmo, pois cedeu a pressão social (erro de pais, poetas, adivinhos e sofistas – desmoralização da juventude) na adoção da doxa.


A formação da pólis eudaimônica segue quatro ordens:


(1) Pólis saudável: apoia-se no provimento mútuo das necessidades pela divisão do trabalho, pois os homens são naturalmente dotados de diferentes talentos. Nenhum homem é “autárquico”, ninguém basta a si mesmo. (2) Pólis luxuriosa-febril: agregam-se acessórios civilizacionais, ampliada e potencialmente mais conflituosa (demanda formação do exército). O homem demanda mais que a mera sobrevivência, a riqueza produz ócio, luxo e amor de novidade. (3) Pólis purificada-reta: redução dos extremos de pobreza e riqueza, educação apropriada da classe governante (guardiões – governo e exército) (4) Pólis dos filósofos-bela: governantes educados como filósofos.


Esta pólis teria três estratos sociais: (a) trabalhadores, (b) guardiões-guardas, e (c) guardiões-governantes (com treinamento de filósofo) – remetendo às quatro castas se abrangemos vaixás e sudras entre os trabalhadores (o “conto fenício” ainda relaciona os ciclos cósmicos com os estratos sociais/castas – inefabilidade da igualdade entre os homens –, o perigo da húbris, e o desvio da casta/natureza).


Os estratos sociais correspondem a distintas forças anímicas, caráteres e virtudes (poderes ordenadores):


(1) Governantes (Racional / Conhecimento / Sabedoria-Temperança-Justiça) (2) Guardião (Impetuoso / Arrebatamento / Coragem-Temperança-Justiça ) (3) Trabalhadores (Apetitivo / Cupidez / Temperança-Justiça)


Sabedoria (Sapiência): ter bom conselho, e isso é uma ciência. A pólis é sábia pela classe de seus governantes. Coragem (Fortaleza): conservar constância a opinião reta em matéria de coisas perigosas ou não, sem deixar-se vencer pelos prazeres ou pelas dores, pelos medos ou pelas paixões. A pólis é forte pela classe de seus guerreiros (guardiões). Temperança: domínio dos prazeres e dos desejos – capacidade de submeter a parte pior à parte melhor (qualidade principal dos trabalhadores, mas não exclusiva a eles). No Estado temperante os mais fracos estão de acordo com os mais fortes, e os inferiores em plena harmonia com os superiores. Justiça: princípio segundo o qual cada um deve fazer apenas aquilo que por natureza, e, portanto, por lei, é chamado a fazer – quando cada cidadão (classe / casta) atende às próprias funções do melhor modo, então a vida no Estado se desenrola perfeitamente, e temos a pólis justa. A Justiça está na nossa natureza e propícia a saúde, a beleza e o estado de bem-estar da alma, ao passo que a Injustiça traz feiura e a doença da alma.


As três classes sociais da pólis correspondem às três formas ou faculdades da alma: (a) pensamos, (b) nos inflamos e nos enchemos de ira, e (c) desejamos os prazeres da geração e nutrição. Tal correspondência reflete-se também entre as virtudes da pólis e as virtudes do cidadão.


A Justiça (Dikaiosyne) permite que a Sabedoria predomine sobre as paixões - Platão está lidando com a constituição transcendental da ordem na alma. Justiça consiste-se na perfeição com que cada classe dentro da pólis abraça a sua virtude específica e cumpre a missão especial que lhe cabe.


“Grande é a luta” pela ordenação da alma duradora e imortal, discernida como algo semelhante ao divino (611e). “A alma deve fazer o que é justo, possua ou não o anel de Giges” (612d), fazendo de si próprio tão semelhante a Deus quanto o possível, para por Ele (e pelos homens) ser amado. O homem mau pode ter um bom início, mas no final será descoberto e sofrerá as consequências (aqui ou augures – as recompensas em vida não são nada em comparação com as recebidas após a morte, mito de Panfílio).

(3) Formas de Governo

É um engano entender a criação de leis como ferramenta para melhorar a sociedade. A educação (e ensino) deve ser voltada para a saúde anímica, pois é o conjunto de psiques individuais que ordenará o grupo social – o governante imprimirá o padrão de sua alma nas instituições (o estabelecimento da “politeia dentro de si mesmo” é o objetivo da educação em geral). Platão testemunhou a corrosão do ethos de Atenas e de seus governantes, criando um círculo vicioso, pois a má pólis prejudica o desenvolvimento da alma individual – a pólis estará em seu estado eudaimônico apenas se sua ordem for traçada por aqueles que estiverem em associação à ordem divina, eles mesmos ordenados e divinos na medida possível ao homem (anteriormente a ordem era expressa na forma simbólica do mito – toda civilização principia na transcendência).


Os governantes devem passar pelos “maiores estudos” (mathemata megista) para adquirir a verdadeira medida da ordem reta – conhecer e fixar em sua alma a ideia do Bem a ser usada como paradigma para ordenação da pólis. Análogo a visão de Agathon (“Sol” que permite conhecer tudo que é passível de conhecimento) na formação da alma por meio da experiência de transcendência, a educação de um homem é incompleta se não experimentou a virada da alma (peragoge) – homem que saiu da caverna e retorna para o auxílio de seus semelhantes.


Ascensão e decadência da pólis é vista como processo inevitável pois está além do poder dos homens observar em todos os tempos os ritmos do cosmos (geração e corrupção).


A boa pólis passará por quatro estágios ao longo do seu declínio, ordenados pelo valor que lhes é dado pelo consenso popular:


(1) Timocracia: governantes tornam-se arrogantes e ambiciosos, apegados aos privilégios e poderes do cargo. Nociva influência daqueles que circundam o governante e também beneficiam-se do seu cargo. Se na boa pólis o logistikon (amor a verdade) predominava na alma do governante, aqui este cede espaço ao amor pela honra (philonikon). Desvio do difícil caminho do espírito para cair no abismo do orgulho. A racionalidade cede à parte irascível da alma (desejo de honra).


(2) Oligarquia: A racionalidade desce ainda mais, passando a predominar a concupiscência (epithymetikon) e ganância (philochrematon), induzindo a uma vida restritiva e mesquinha – desejo de lucro e de prazeres (mesmo os supérfluos).


(3) Democracia: aqui as paixões e desejos ilegítimos, que levam a insolência, anarquia, desperdício e impudência, são deixados à solta. Entendida no sentido pejorativo de demagogia. A vida dos jovens torna-se sem ordem e sem lei, dedicada inteiramente aos prazeres, a razão é banida, o respeito é qualificado como tolice, a temperança é expulsa com insultos, a moderação é considerada avareza, a justiça se faz tolerante e mansa, e clama-se por uma impossível igualdade entre os homens.


(4) Tirania: do caos da Democracia emerge o déspota de natureza criminosa, capaz de tudo para realizar seus desejos – o demagogo que promete tirar dos ricos para distribuir aos pobres, (guardando para si a parte mais conspícua) e intolerante com os falam e pensam diferente dele. Do anterior estágio de democracia deriva-se diretamente a tirania, o excesso de liberdade descambou em licenciosidade e resultou em servidão (562a-564a). A tirania não é restrita ao chefe da pólis, mas comum a seus cidadãos que impõem seus desejos sobre os demais. Assim a servidão não se restringe dos súditos ao tirano, mas aplica-se também no interior do homem quando este sucumbe aos seus instintos mais baixos.


As civilizações em geral começam com uma monarquia e uma aristocracia heroica (início com base religiosa – ordem inicial da alma), depois passa para o Terceiro Estado com os problemas oligárquicos, seguida da entrada das massas na política, até descambar na tirania.


O processo de decadência social é o mesmo da corrosão da alma (integrada e bem-ordenada) pelas paixões sem um princípio ordenador superior – desejos legítimos dão lugar aos desejos ilegítimos. O problema dos ciclos políticos não é explicado pelos fenômenos institucionais, mas demandam para sua solução o entendimento do mito ordenador da sociedade. E somente pela educação (i.e. pela formação do homem) se pode atingir o fim visado pelo governante; e, quando aquela é verdadeiramente eficaz, dispensam-se as leis – as leis só têm valor quando no povo existe uma substância moral que as alimenta e conserva. Toda a estrutura do pólis baseia-se na verdadeira educação, única via para realizar a verdadeira justiça.


Platão está profundamente convencido de que toda forma de política autêntica deve ter em vista o bem do homem, e o verdadeiro bem do homem é o seu bem espiritual. Uma política que abdique das dimensões do espírito e estruture-se unicamente na dimensão material não subsiste por longo tempo, sinalizando um fim de ciclo.


O tema da República é a ‘Justiça’ ou o ‘Estado Ideal’? Do ponto de vista de Platão não há distinção – as leis devem ser as mesmas para classes, cidades e os indivíduos; as leis são, antes de tudo, leis de moral pessoal. A política é fundada sobre a ética, e não o contrário. O tema fundamental da República é como o homem torna-se digno ou indigno da salvação eterna (o homem é a sua alma, já dissera Sócrates – o Estado é uma alma ampliada) – as instituições sociais e educação justa são aquelas que colocam o homem em condição de conquistá-la, todas as demais são injustas. Platão quer conhecer a forma de Estado perfeito para conhecer e formar o homem perfeito – a verdadeira Pólis é a “cidade interior”, que não está fora, mas dentro do homem.


Colocar o filósofo como construtor e regente da pólis significa colocar o Divino e o Absoluto como medida suprema e, portanto, instituir como fundamento da pólis a suprema Ideia do Bem que regula a vida do filósofo e da cidade – Platão quer recuperar a identidade da pólis com o Cosmos. O verdadeiro estatuto da cidade ideal platônica é (o domínio dos filósofos) construído sobre a capacidade da inteligência indagadora do homem de alcançar o conhecimento do Bem divino.


O Estado Ideal e o homem régio que lhe corresponde são caracterizados pelo domínio inconteste da racionalidade, com a qual coincidem a virtude (fundamentalmente a razão) e liberdade (razão livre dos instintos, sobre os quais predomina). A razão também predomina sobre os guardiões, regulando sua alma irascível (produzindo a coragem), e sobre os demais cidadãos na medida que regula suas almas concupiscíveis produzindo nelas a temperança.


A vida filosófica na pólis ideal é a vitória do elemento divino sobre o elemento animal que há no homem – sendo o prêmio da virtude nesta vida apenas relativo, pois a verdadeira recompensa da virtude está no além. A verdadeira política é aquela que não nos salva apenas no tempo, mas no eterno e para o eterno. A República platônica exprime um ideal realizável no interior do homem, vale dizer na sua alma. O Estado Ideal não existe fora de nós, mas podemos construí-lo em nós mesmos, seguindo a política verdadeira em nosso íntimo.


Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subnomes dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • República, sobre a justiça é diálogo legítimo (gênero político), provavelmente escrito no período mediano, fase de ascensão, do autor.

  • O diálogo se desenvolve em Pireu, cidade portuária a 8 km de Atenas, durante as festividades em honra de Bêndis (que cuida das almas em seu caminho ao mundo inferior), deusa estrangeira (Trácia).

  • O mito panfiliano fala das almas mortas que recebem recompensa ou punição de acordo com sua conduta em vida.

  • O “um” jônico, o “ser” parmenidiano e o “deus” xenofânico fundem-se no ser das ideias platônico.

  • Os primeiros filósofos vieram antes dos sofistas, mas estes destruíram sua obra por meio da imanentização dos símbolos da transcendência.

  • Par de Conceitos 1: Justiça e injustiça são na alma o que saúde (ordem entre as partes do corpo) e doença (perturbação da ordem natural de domínio e subordinação entre as partes) são no corpo – arete é saúde, beleza e bem-estar da alma; o vício (kakia), sua doença, feiura e fragilidade. A alma entra em desordem quando apetites e desejos a governam no lugar da sabedoria. Na pólis a desordem se dá quando o incapaz a governa, pois um homem não pode praticar com sucesso muitas artes (cada um tem determinados talentos).

  • Par de Conceitos 2: Filósofo e filódoxo, o primeiro ama olhar com admiração para a verdade, de vê-la em si mesma (Uno – conhecimento – episteme), ao passo que este último somente enxerga as coisas em sua multiplicidade (opinião (entre o conhecimento e a ignorância) – doxaplaneton, vagando entre o ser e o não-ser). Hoje erroneamente denominamos filódoxos como filósofos.

  • Par de Conceitos 3: aletheia (verdade) e pseudo (falsidade ou mentira) referindo-se aos deuses. A humanidade verdadeira requer uma teologia verdadeira (deus Uno – invisível e supremo, igual para todos os homens que encontram sua igualdade na experiência transcendental – Deus é responsável por todas as coisas, mas autor apenas das coisas boas e os deuses não enganam os homens com palavras ou atos): o homem com uma teologia falsa é um homem não verdadeiro – ignorância da alma.

  • Ao estabelecer os padrões de ordem e desordem sociais, Platão funda a ciência política.

  • A batalha mítica pela alma humana reflete-se na sociedade, pois esta é um conjunto de almas individuais.

  • O mito perde sua força civilizacional quando passa a ser entendido apenas como histórias sórdidas entre deuses e homens. O combate de Platão aos poetas dá-se contra esta leitura obtusa.

  • Os estranhos conceitos de família e eugênia prescritos para os guardiões visavam superar a fragmentação familiar (as pólis nasceram de tribos familiares) através da comunidade espiritual unida pelo Agathon. Revela ainda a profunda união de Corpo e Psique. A solução é de eficácia duvidosa, mas revela a busca de uma unidade somática dos povos helenos.

  • Platão, assim com Aristóteles, revela preocupação com o tamanho da pólis (deve ser nem pequena nem grande demais) – Forma experimentada como Medida de objetos visíveis e finitos. Seria a possibilidade de democracia direta limitada pela dimensão da sociedade?

  • Os sonhos também podem ser povoados por desejos ilegítimos, daí a necessidade do homem, antes de dormir, alimentar a alma com pensamentos nobres (aplacar a concupiscência e ira) em meditação recolhida – predecessor da oração cristã antes de dormir.

  • O desejo que volta a alma para o Bem e o que faz a alma sucumbir para o Mal estão estreitamente relacionados – princípio alquímico, feitos da mesma matéria.

  • A ordem da boa alma deve ser estabelecida e continuamente preservada por meio da Paideia (Educação) certa – importância da educação (não confundir com Ensino).

  • Platão não despreza a poesia como arte, mas critica seu mau uso na formação da alma. O poeta não estando familiarizado com a Ideia pode apresentá-la como uma cópia da cópia (terceiro grau de afastamento). A arte deveria ser voltada para a defesa da pólis (quando em guerra), a administração da justiça na paz, e a educação (paideia) dos homens. Sócrates declara que a poesia deveria honrar os deuses e louvar os homens nobres – lembra Bach e sua música voltada ao louvor de Deus e recreação da alma.

  • As obras (então poesia) inculcam na alma da criança, portanto toda obra, pequena ou grande, deve apresentar os melhores exemplos de homem, aludindo ao divino e à essência da arete humana.

  • A Era do Mito já havia sido encerrada, e com Sócrates a alma do homem encontra a si mesma (Sócrates expressou o que era inefável). Depois de Sócrates, nenhum mito é possível.

  • O espírito trágico da poesia grega, onde reina a moira, é abandonado com a arete platônica que funda-se na determinação do próprio eu sobre a base do conhecimento do bem. Platão funda o Mundo das Ideais para sustentar sua paideia. E a ideia de paideia pressupõe a liberdade de opção, enquanto a ação do daimon pertence à esfera das Moiras.

  • O coletivismo platônico não tem nada que ver com o moderno, seja do ponto de vista histórico ou teórico. O coletivismo, restrito aos guardiões, tem motivações espirituais e ascéticas – mais relacionado a uma ordem monástica medieval ou ao celibato dos padres que uma burocracia coletivista. Platão visava unificar a pólis como uma grande família (no tocante aos guardiões), cortando pela raiz tudo que fomenta os egoísmos humanos. Porém sua solução é inadequada e decepcionante ao considerar a raça mais importante que o individuo e a coletividade mais que o sujeito singular. Tal proposta vai de encontro ao ensinamento de Sócrates de que a individualidade singular e não repetível é o supremo valor do homem.

  • O caminho para o longo conhecimento máximo é árduo e inicia-se nos estudos do Trivium e Quadrivium. O homem deve partir do sensível para o suprassensível, do corruptível ao incorruptível, do devir ao ser – este é o caminho da “segunda navegação” de Giovanni Reale.

  • Conhecer é um processo gradual que desenvolve-se ao longo de toda a vida, e que faz a alma parecer-se cada vez mais com a essência dos valores que aspira conhecer. O conhecimento do Bem só se desenvolve no homem à medida que vai se tornando realidade e ganhando forma no próprio homem.

  • A paideia dos governares não termina antes dos cinquenta anos.

  • A inclusão das mulheres entre os guardiões é a revalorização mais radical e audaz da mulher feita na Antiguidade.

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