A Consolação da Filosofia de Boécio



Personagens Principais Boécio – preso e torturado lamenta sua situação mas também busca entender Filosofia – vem em auxílio a Boécio e ajuda-o a entender sua situação


Personagens Secundárias Musas – ajudam Boécio apenas a lamentar-se

Interpretação Preso, torturado e condenado a morte Boécio lamenta sua situação, não entendendo como após sua conquista de riqueza e honra encontra-se agora nesta condição. Lembra Jó que ao princípio não entendia como as desgraças abateram sobre ele e, por não fazer sentido àquilo, rebelava-se. Boécio está fazendo o mesmo que Jó, rebela-se contra a injustiça que sofre sem merecer.


A Filosofia vem em seu auxílio e, após expulsar as Musas que lamentavam com Boécio, propõe aplicar-lhe uma terapia.


A ideia infantil de que tudo tem uma explicação, de que tudo pode ser compreendido é uma bobagem – quem é adulto já viu tantos mistérios insolúveis que não pode pensar assim – tenhamos humildade frente aos mistérios, pois há coisas completamente inexplicáveis na nossa vida. A ideia de que as coisas acontecem com você são apenas resultados de suas próprias ações é uma ideia profundamente exótica e estranha ao mundo. No caso de Jesus Cristo e de Sócrates, o que estes dois fizeram para merecer o fim que tiveram? Há forças maiores que a nossa pessoa. Além disto, não podemos ser autores de nós mesmos porque não nos inventamos – portanto estamos sujeitos a regras que não criamos. Desde quando temos autoridade total sobre a nossa vida? Não somos criadores ou deuses para ter esta autoridade.


A abordagem humanista de compreensão do mundo partido da ideia de que o ser humano é que é a medida de todas as coisas esquece que fundamentalmente somos apenas pobres pecadores e seres insignificantes diante do universo de Deus.


Quando inventamos que o critério de merecimento é humano e que dirigimos nosso destino, nos auto divinizamos, transformando-nos num sociedade de gente delirantemente onipotente – gente que acha que é o centro do mundo, que acha que o mundo tem que estar em torno de si, que acha que têm direitos e que merecimentos a receber.


Há um delírio de onipotência – porque nós nos colocamos no lugar de divinização que antes pertencia a Deus – esse processo faz com que nos julguemos com o poder de controlar todos os fatos da nossa vida


A Filosofia diz exatamente o contrario a Boécio – você nem foi merecedor de todo o sucesso que você teve e nem é merecedor da desgraça que você tem hoje. É possível que coisas boas aconteçam para pessoas más e coisas más sucedam para boas pessoas. E a nossa influência em tudo isso é limitadíssima, pois há forças muito maiores que nós. A situação humana é de espanto frente a tais acontecimentos e nós não temos a capacidade de entender a razão. Existem sentidos ocultos que serão revelados apenas no Juízo Final – não adianta querer desvendá-los nesta vida terrena.


Providência e Destino são a mesma coisa, o primeiro é do ponto de vista divino e o segundo do ponto de visto humano. O homem vê apenas o fenômeno, a aparência e não pode antever todas as ligações dos fenômenos passados, presentes e futuros.


Não há explicação em vida para o que nos acontece – a explicação só virá após a morte. Este conhecimento não está ao nosso alcance. Portanto não busque entender porque às vezes os maus se dão bem e os bons se dão mal. Não temos a capacidade de entender o que parece ser um mal que nos abate – assim como uma criança não entende o comando de um pai amoroso que o proibi de fazer determinada coisa que a agrada.


Portanto, riqueza e fama não devem ser levados a sério. A vida voltada apenas ao aspecto material é uma vida animal e a fama neste mundo é transitória.


A Roda da Fortuna, por ser como é, podendo produzir revezes e situações opostas ao conforto e ao prazer pessoal, podendo nos revelar a realidade das coisas que estão escondidas por trás das conveniências.


E já que não devemos montar nossa vida em função da Fortuna, pois ela é fútil, volúvel, não confiável, temos que montar nossa vida em função de alguma outra coisa: em função da procura do Bem (ver Ética a Nicômaco de Aristóteles). Quanto mais entendemos o sentido da nossa vida e nos aproximamos dele, menos estaremos sujeitos as estripulias do destino. Quanto mais nos focamos em fazer o Bem, menos sofreremos.


Boécio argumenta sobre como poderíamos perseguir Bem. Se há algo que o ser humano possa fazer de fato sobre a sua própria vida que dependa só dele? Aí nasce o problema do Livre Arbítrio – que é questão profundamente contraditória – pois se Deus é onisciente então não poderia haver livre arbítrio. Se está tudo pré-determinado seríamos apenas seres autômatos? O livre arbítrio me dá poder de decisão, posso fazer o bem ou o mal – tenho esta alternativa e tento escolher a melhor – mas é possível escolher se Deus é onisciente?


São três os elementos fundamentais do mundo material: espaço, tempo e quantidade. São as circunstancias nas quais vivemos. A dúvida moral pode demorar anos para ser entendida, ela acontece no tempo – as consequências no desdobramento do tempo são desconhecidas. Mas o mundo de Deus não é assim. Para Ele espaço, tempo e quantidade não existem. É como se ele tivesse velocidade infinita. Para Deus tudo acontece ao mesmo tempo.


Vivemos num mundo em que tudo se modifica, tudo nasce, vive e morre. Tudo é cíclico. Pressupõe a existência de tempo. Não há ciclo sem tempo. Mas só posso entender isso com a sua contraposição – um mundo onde isso não acontece, um mundo onde o tempo não existe, o mundo de Deus. Um mundo imutável (metafísica, além da física). Deus existe fora do tempo. Portanto, a discussão sobre um possível conflito entre Livre Arbítrio e Predestinação é infundada.


Boécio está à beira da morte, em uma situação crítica, mas entende o que está acontecendo e escreve sinceramente sobre isto apresentando todas as suas fraquezas sem vaidade. Deixo-nos um tesouro.



Notas

  • Anicius Manlius Severius Boetius nasce em Roma em circa 480, morre executado em 525 em Pavia. Dante refere-se a ele na Divina Comédia colocando-o no Paraíso. É canonizado em 1883.

  • É o livro de filosofia mais literário já escrito. Deveria ser o primeiro livro a ser lido por quem tenha interesse em filosofia.

  • Boécio viveu na transição entre a morte do mundo velho (Romano) e o nascimento do mundo novo (Idade Média). Daí ser inexistente na consciência coletiva de assuntos filosóficos. As gerações vividas em momentos de ruptura apresentam este problema (ver a geração dos nossos pais).

  • Boécio é considerado o pai da escolástica. Segundo São Tomáz de Aquino a obra De Trinitate de Boécio antecipa em sete séculos a forma de pensar escolástica.

  • O cristianismo tornou-se culto livre no Império Romano em 313 pelo edito de Milão.

  • O nome Vulgata, a Bíblia escrita por São Jerônimo, vem de vulgar, divulgar, tornar acessível. Foi a única Bíblia existente até as reformas protestantes.

  • Pi ( Π ) é o símbolo de práxis e Theta ( Θ ) o símbolo de teoria – a aparição da Filosofia, na forma de uma mulher, tinha ambas marcadas no corpo.

  • Quando dizemos “mundo acadêmico” fazemos uma homenagem a Platão cuja Academia durou nove séculos – a instituição de ensino mais duradoura.

  • O centauro é a figura mitológica que melhor representa o homem em sua ambiguidade. Latão dizia que o homem é um ser intermediário entre os animais e os anjos- ele tem um componente imanente e um componente transcendente.

  • O nome estoico remete a “portão”, pois os estoicos encontravam-se sob um portão. Cícero, o maior filósofo romano, era estoico, Sêneca também. O estoicismo abraça a ideia de sofrer calado.

  • Ethos = a característica distintiva, o sentimento, a natureza moral e os princípios fundamentais de uma pessoa ou sociedade.

  • Os romanos foram um povo muito sério (adotaram o estoicismo como filosofia) e profundamente moralista (condenavam qualquer excesso sexual). Só uma sociedade assim poderia sobreviver mil anos – o ethos romano era a obrigação de morrer pela pátria. A bandalheira acontece no momento de decadência e apenas nos círculos governamentais.

  • As outras filosofias que crescem após Aristóteles: epicurismo, cinismo e ceticismo. Ceticismo é uma filosofia de negação e, portanto, sem valor algum. Segundo Mário Ferreira dos Santos as filosofias se dividem em dois grandes grupos: as de afirmação e as de negação – a diferença é que as de afirmação estabelecem alguma explicação sobre o mundo e as de negação parte do pressuposto de que nada pode ser explicado e, portanto, elas não contribuem para coisa nenhuma. Atitude cética, que é positiva é diferente de filosofia cética que é destrutiva. Os desconstrucionistas veem do ceticismo.

  • Eric Voegelin que diz que o rei filósofo (de Platão) não funciona porque o que faz um rei ser respeitado é a violência e o rei filósofo só é respeitado pela sua autoridade moral – assim sendo, um sujeito que tem as duas coisas, você não sabe por que está obedecendo ao fulano – você o obedece porque ele pode te dar uma porretada na cabeça ou por que ele tem razão?

  • Ideologia = um conjunto de ideias e de doutrinas que sustentam uma posição de poder – não está vinculada a verdade, mas à defesa de alguma posição de poder.

  • A Roda da Fortuna traz o bem e o mal também. Ortega y Gasset diz que o maior projeto que um sujeito pode ter é o de ser um gentleman – significa lidar com serenidade, bom humor, e generosidade mesmo estando em desgraça – o gentleman vive acima do patamar da Fortuna – ele não se deixa iludir nem hipnotizar pela parte boa (portanto não é exibicionista nem esbanjador quando ganha na loteria) nem se lamenta quando perde o dinheiro, lida com as duas situações com a mesma naturalidade.

  • Na Política, Aristóteles explica que a base da Política é a família e na família existem quatro relações básicas que estabelecem todas as outras: 1) do marido com a mulher, 2) dos pais com os filhos, 3) geração da família com os escravos (que fazem parte da família), e 4) relação econômica entre a família e o mundo – é isso que chamamos de teoria econômica de Aristóteles que está toda dentro da Política. A relação entre a família e a economia é a relação de viabilizar economicamente, ou seja, as famílias consumiam o que produziam, depois, começaram a trocar coisas (escambo) e depois inventaram o dinheiro para facilitar a troca.

  • Aristóteles condenava a crematística – ciência de acumulação de dinheiro – excluía-a da Economia.

  • As três virtudes teologais (1) Fé – acreditar na promessa de Deus, (2) Esperança – acreditar que o que te acontece tem um sentido que você ainda não alcança entender, e (3) Caridade – fazer o bem ao próximo para fazer o bem a si próprio. Esses são os três instrumentos de conversa com Deus.

  • A existência de Deus não é um ato de fé e sim de lógica (ver as Cinco Vias de São Tomás de Aquino)

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