Sob o Sol de Satã de Georges Bernanos



Personagens Principais Padre Donissan – padre atormentado pela dúvida de sua capacidade de exercer o ministério Satã – presença constante e inescapável Padre Menou-Segrais – superior e guia espiritual de Donissan Mouchette – jovem perdida da cidade de Champagne

Personagens Secundárias Malhorty – pai de Mouchette (Germanine Malhorty) M. Marquês de Cadignan – nobre degenerado e amante de Mouchette Deputado Gallet – médico local e também amante de Mouchette Padre Sabiroux – padre cartesiano, cientificamente curioso de observar um possível milagre Dr. Gambillet – médico descrente Antoine Saint-Marin – intelectual desprovido de espiritualidade


Interpretação Bernanos nos apresenta um mundo onde não há mais lugar para a vida interior e a busca espiritual. É uma história tenebrosa e angustiante, repleta de cenas horrendas: uma menina assassina, o desejo do aborto, suicídio e a morte de uma criança. O Mal domina este mundo e a Igreja, desfigurada pelo cientificismo e o racionalismo, é incapaz de fazer-lhe frente. Satã sai das sombras e reina em plena luz diante da palidez da fé na Verdade, da perda do conhecimento. Sua luz é apenas de aparências, ilusão de conhecimento. “Lucifer, ou la fausse Aurore...”


A narrativa divide-se em três partes: a história de Mouchette, a tentação do desespero, e o santo de Lumbres.


Na primeira parte vemos uma sociedade em queda nas figuras de Mouchette, seu pai e dos notáveis da cidade, o marquês e o médico-deputado. Todos rejeitam a transcendência e buscam prazeres materiais, caindo em pequenos e grandes pecados. A pouca idade de Mouchette poderia coloca-la como uma vítima revoltada daquela sociedade. Mas sua negação a educação religiosa, seu comportamento libidinoso, seu ódio explosivo, seu orgulho exacerbado e ausência de culpa são de uma pessoa possuída pelo demônio.


A segunda parte ocorre concomitantemente com a primeira e apresenta o padre Donissan. Num diálogo inicial entre o abade Demange e Menou-Segrais observa-se a questão do desvio da igreja para os problemas políticos e terrenos, alheios a dedicação puramente espiritual. A desintegração da Igreja no espírito do mundo será evidenciada ao longo do romance.

Menou-Segrais profetiza a santidade de Donissan que renasce espiritualmente numa noite de Natal. Mas Donissan segue atormentado por Satã que lhe fomenta a incapacidade de ser puro aos olhos de Deus e pelo estado irremediável das almas em seu entorno. Donissan rejeita a alegria da presença divina no coração humano – vitória de Satã. Nova vitória das trevas se observará no embate pela vida de Mouchette que acaba suicidando-se, apesar desta, agonizando, buscar redenção. A Igreja alia-se ao mundo e pune Donissan, o reconhecimento de santidade é temido como uma demonstração de ignorância, uma vergonha diante do mundo.


Na última parte já estamos no pós-guerra (1920s) e presenciamos os últimos dias de vida de Donissan. O reencontramos sem esperança, sentindo-se fracassado em sua missão e presenciando uma nova aurora na qual o homem seguirá se afastando da graça de Deus. Donissan cedeu à tentação e deseja morrer – vitória de Satã. Seria Donissan um santo? Seu último ato é desafiante a Deus e ele apresenta uma desesperança que conflita com a atitude do pároco da aldeia (outro livro de Bernanos) que morre em paz: “Qu’est-ce que cela fait? Tout est grâce.”


A presença de Satã é palpável e não há esperança para o mundo, mas apenas para as almas que não se deixem iludir pela falsa luz.



Notas

  • Georges Bernanos (1888 – 1948) nasceu em Paris, França.

  • Publicado em 1926, Sob o Sol de Satã é o primeiro romance do autor e já um sucesso de público e crítica.

  • A história se desenrola em localidades fictícias no extremo norte da França, começando ao redor do ano 1880. O nome da cidade de Lumbres lembra “ombre” (somba) e “humble” (humildade - obscuridade), podendo indicar o embate com as trevas.

  • A personagem de Donissan seria inspirada no Santo Jean-Marie Vianney, o padre de Ars. Outras influências seriam o mundo privado de Deus de Léon Bloy, a união do fantástico com o real de Barbey d’Aurevilly e o clima do pós-guerra (IGG).

  • O nome Donissan pode remeter a “dom” e “doação” – Donissan se doara totalmente na aplicação do seu dom.