O Vermelho e o Negro de Stendhal


Personagens Principais Julien Sorel – jovem ambicioso, filho de carpinteiro Louise de Rênal – esposa do prefeito, apaixona-se por Julien Mathilde de la Mole – filha do ministro do rei, amante de Julien Fouqué – pequeno empresário, amigo de Julien

Personagens Secundárias Senhor de Rênal – prefeito, rico, primeiro empregador de Julien Senhor Valenod – vice-prefeito, jovem, interessado em Louise de Rênal Marquês de la Mole – ministro do rei, emprega Julien Elisa – criada dos Rênal, apaixonada por Julien Abade Pirard – diretor do seminário Besançon, pai espiritual de Julien Abade Castanède – assistente de direção no seminário, antagoniza Julien Padre Chélan – primeiro protetor de Julien Senhora de Fervaques – puritana, usada por Julien para enciumar Mathilde

Interpretação O autor capta neste romance um importante aspecto de transformação social. A possibilidade de mover-se socialmente expandia-se então cada vez mais, e.g. Napoleão ascende do nada para a posição de Imperador. A aspiração de ascensão social era demasiadamente limitada no sistema europeu fechado entre nobres e plebeus, assim como era impossível numa tribo indígena, e era extremamente raro no regime de castas adotado na Índia. Mas a Europa estava mudando e neste contexto nasceu um novo tipo social: o homem de origem humilde que ambiciona o sucesso pessoal (fama, poder) e/ou econômico.


O herói de O Vermelho e o Negro, Julien Sorel, encarna este novo gênero de experiência humana que emerge nesta época. Os romancistas são os primeiros a captarem estas novas realidades. Outras personagens parecidas com Julien Sorel na grande literatura são Ródia Raskólnikov de Crime e Castigo de Fiódor Dostoiévski e, principalmente, Lucien de Rubempré de Ilusões Perdidas de Balzac.


Porém esta abertura é algo ilusória. No mundo moderno ficou mais difícil de definir os limites sociais do homem, tendo estes sido ampliados tanto para melhor quanto para pior. Os números de postos importantes e a riqueza são alcançados por poucos, pois assim é a natureza humana. A ampliação dos caminhos de ascensão social trás a insatisfação do homem com sua condição social, e a ambição além da sua capacidade de satisfazer seus desejos gera o ressentimento social.


Julien Sorel quer a ascensão social independentemente de quem ele é: serve-lhe uma posição eclesiástica, a carreira militar ou ser amante de uma mulher rica. Ele é bem apessoado, tem habilidade e muita sorte, porém não possui a sabedoria de entender o que o mundo lhe proporciona realmente e como inserir-se nele. Com isso lida com as dádivas que recebe de forma ressentida, e levado pela emoção provoca toda sorte de desastres. Somente na perspectiva da morte a personagem compreende a falta de propósito para seu ressentimento e os erros cometidos. E com isso entrega-se a morte sem resistir.


Este tipo humano vulgarizou-se com o tempo, o ressentimento social é um grande mal no nosso tempo, fruto da incapacidade de entender o mundo e seu papel nele. Sempre se acreditando merecedores de mais do que possuem e, cada vez mais, incapazes de fazer o esforço necessário para realizar seus desejos, o homem volta-se contra os demais, culpando-lhes pela sorte que lhe cabe. Cria-se assim fértil campo para proliferação de ideologias prometeicas que tudo prometem e acabam por tudo destruir.



Notas

  • Stendhal (1783-1842) é pseudônimo do francês Marie-Henri Beyle.

  • Suas obras de destaque são O Vermelho e o Negro (1830 – em julho de 1830, quando dos “três dias gloriosos”, as provas estavam sendo corrigidas) e A Cartuxa de Parma (1839).

  • Stendhal deprecia os jesuítas em função da má experiência que teve com um preceptor desta ordem.

  • O romance teria sido inspirado num caso real: Antoine Berthet, seminarista originário da pequena cidade de Brangues, teria sido guilhotinado em 1828, por tentativa de assassinato de uma certa Sra. Michoud.

  • Para o crítico literário Erich Auerbach, O Vermelho e o Negro é o primeiro romance a misturar ficção com fatos históricos contemporâneos.

  • O vermelho remete à farda do exército napoleônico (corpo – sangue) e o negro à batina dos padres (espírito).

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