O Tartufo de Molière



Personagens Principais Tartufo – devoto hipócrita e farsante, santarrão Orgon – burguês, tipo untuoso e nada inteligente, marido de Elvira Elvira – segunda esposa de Orgon (viúvo da primeira), exibida e saliente Cleanto – cunhado de Orgon, bom-senso, contraponto de Tartufo Dorina – camareira de Mariana, respondona e mal-educada (típica personagem de Molière) Personagens Secundárias Senhora Pernelle – mãe de Orgon, única, além do filho, a simpatizar com Tartufo Damis – filho de Orgon (primeiro casamento), um nada Mariana – filha de Orgon (primeiro casamento, uma mosca morta Valério – namorado de Mariana Flipota – criada da Senhora Pernelle Sr. Leal – sargento

Interpretação As comédias de Molière eram muitas vezes baseadas na commedia dell’arte e Tartufo tem muito de uma personagem desta modalidade teatral (personagem caricatural). Tartufo ficou marcado como um conhecido tipo humano: o farsante hipócrita (fingido, santarrão).


Este tipo costuma construir alguma credibilidade outorgando-se autoridade. Nesta peça, Tartufo usa a religião, autoridade espiritual. Outros, por exemplo, usam a cátedra universitária (deformadores da mente juvenil) ou a imprensa (censores da realidade).


Seus instrumentos costumam ser três:

  1. Munir-se de valores que não são seus mas são caros à vítima.

  2. Fingir não levar nenhuma vantagem com sua encenação.

  3. Fazer bom uso da retórica.

O Plano Nacional dos Direitos Humanos (PNDH) é um esquema deste tipo: (1) usa o rótulo dos “direitos humanos”, (2) os políticos e demais envolvidos parecem não ganhar nada com isso (mas visam o totalitarismo) e (3) abusa da retórica do politicamente correto com coisa do tipo “inclusão social” e “sustentabilidade da sociedade”.


Atualmente vemos uma sociedade de Orgons nas mãos de uma classe intelectual de Tartufos.



Notas

  • Jean-Baptista Poquelin ou Molière (1622-1673) nasceu Paris, França.

  • Mudou o nome para Molière (inspirado numa pequena aldeia no sul da França) para não comprometer socialmente seu pai.

  • Molière é um sátiro, o maior deles. É moralista e um indignado genial. Não há simbolismo em sua obra como no metafísico Shakespeare.

  • Aplicava uma linguagem prosaica e crua, ao contrário do francês castiço usado pelos trágicos contemporâneos Corneille (1606-1684) e Racine (1639-1699).

  • Grande criador de personagens memoráveis, muitos incorporados ao vocabulário como denominação a tipos humanos: Tartufo, Misantropo (Alceste), Avarento (Harpagão) e Hipocondríaco (Argan) – personagens imortais.

  • O Tartufo foi encenada pela primeira vez em 1664 (suspenso pela censura) e estreou sua última versão em 1669. É a peça de Molière mais bem estruturada e foi a mais encenada.

  • Outras obras primas do autor: O Misantropo (1666), O Avarento (1669), Don Juan (1665) e Escola de Mulheres (1663).

  • Por sua natureza satírica, as personagens de Molière são algo esquemáticas (sem a complexidade humana natural) – a sátira vive de estereótipo, como na commedia dell’arte.

  • Commedia dell’arte: Forma teatral italiana (pastelão, improvisação), popular na Europa entre os séculos XVI e XVIII. As peças que giravam em torno de encontros e desencontros amorosos, com inesperado final feliz. Havia três categorias de personagens: a dos enamorados, a dos velhos e a dos criados (zannis). Havia o zanni esperto, que movimentava ações e intriga e o zanni rude e simplório, que animava a ação com brincadeiras. Arlequim é o mais popular, o empregado trapalhão, ágil e malandro, capaz de colocar o patrão ou a si em situações confusas e cômicas. Briguela, empregado correto e fiel era cínico e astuto e rival de Arlequim. Pantaleone era um velho fidalgo, avarento e eternamente enganado. O Capitano era um covarde que contava proezas de amor e batalhas, mas era sempre desmentido. Satirizava os soldados espanhóis. Outras personagens típicas que esta arte eternizou: Scaramouche, Isabela, Columbina e Polichinelo (não guarda segredos).

  • Na época de Luís XIV (protetor de Molière) havia um embate entre jansenistas (Cornelius Jansen – agostiniano que acredita na predestinação, a salvação é um ato arbitrário de Deus) e jesuítas (Inácio de Loyola – recuperar o espaço perdido com o protestantismo) os primeiros queriam um cristianismo mais puro, menos envolvido nos temas seculares, ao passo que os últimos não queriam abrir mão dos avanços políticos conquistados.

  • O problema de Molière era com a Compagnie du Saint-Sacrement, sociedade católica da época muito ligada a Ana da Áustria (mãe de Luís XIV), conhecida como parti du dévot (partido dos devotos). Tartufo representava a hipocrisia destes falsos devotos que buscavam vantagens pessoais. A peça voltou a ser encenada com a dissolução da Compagnie.

  • “Livre pensador” era uma expressão negativa na época = ser ateu.

  • Trechos da obra Os verdadeiros devotos são aqueles que não trazem para si a missão de defender o céu, mas o que o próprio céu quer.” – Cleanto (Os verdadeiros devotos não querem impor sua vontade aos outros) “O escândalo do mundo é o que a ofensa produz, e pecado não é o que não vem à luz.” – Tartufo seduzindo Elvira

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