O Rinoceronte de Eugène Ionesco


Personagens Principais Berenger – protagonista, preguiçoso e alienado Jean – culto, racional, antípoda de Berenger Daisy – desejada por Berenger

Personagens Secundárias Dudard – colega de trabalho de Berenger, rival por Daisy, pensamento científico Sra. Boeuf – mantêm-se devota ao marido mesmo depois deste transformado Mr. Papillon – patrão de Berenger


Interpretação O próprio Ionesco contou como foi o ponto de partida de O Rinoceronte: o escritor francês Denis de Rougemont encontrava-se certa vez em Nüremberg quando teve a oportunidade de assistir a uma daquelas impressionantes manifestações nazistas. Uma multidão imensa postava-se à espera do Führer, que tardava a chegar. Quando a comitiva de Hitler apareceu, o povo foi tomando de uma histeria tão contagiosa, que o próprio Rougemont se sentiu atingido. Já estava prestes a sucumbir à estranha e terrível magia, quando, afastando-se da turba, parou para pensar: que espécie de demônio o estava possuindo, para ficar quase seduzido pela ideia de se entregar, como os outros, ao delírio insano?

O Rinoceronte é uma crítica a todo pensamento totalitário que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer oposição. Ionesco critica também o conformismo, que, criando condições de submissão a uma ordem absurda, transforma os homens em verdadeiros títeres. Por comodismo, por inércia, por interesse, os conformados seguem passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando àquilo que neles e mais essencial e elevado: sua própria humanidade. Assim os rinocerontes da peça gradativamente passam da sensação de espanto para a banalização, a legitimação, a assimilação, até a adoração.

Berenger é a figura central. Ele se sente deslocado, um exilado da vida, como se não fizesse parte deste mundo. Ao final ele será o único a não abrir mão da sua humanidade, negando a transformação em rinoceronte. Mas o que representa Berenger?

Seria ele um anjo caído com nostalgia do Paraíso perdido? Que com sua atitude compassiva para com o mundo teria a potência civilizatória? Ou seria Berenger o protótipo do existencialista que supõem entender a absurdidade em que a humanidade vive?

Seguramente ele difere da personagem Thomas Stockmann do Inimigo do Povo de Ibsen, este sim um verdadeiro messiânico. Como existencialista Berenger estaria aberto a eventuais ideologias messiânicas, mas não externa um pensamento messiânico na peça. Assim Berenger seria um existencialista na linha de Albert Camus, para quem a melhor saída dentro da absurdidade do mundo é aceita-la e heroicamente produzir ações concretas – tal qual a personagem Bernard Rieux em A Peste de Camus. Porém o próprio Camus irá denunciar os tipos iguais a Rieux em O Homem Revoltado.



Notas

  • Eugene Ionesco (1909-1994) nasceu em Slatina, Romênia. Mas é considerado um autor francês, pois escrevia neste idioma.

  • Ionesco era ortodoxo praticante rigoroso, porém participou da Patafísica. Seu pai era um autoritário que acreditava ter o Poder sempre razão.

  • Era inimigo de Bertold Brecht por usar o teatro para proselitismo de ideologias políticas. Também não simpatizava com Sartre.

  • Preferia ler as peças a vê-las encenadas.

  • O Rinoceronte, encenada pela primeira vez em 1960, é sua obra mais conhecida. Mas A Cantora Careca (1949) é a peça fundadora do Teatro do Absurdo.

  • Teatro do Absurdo é o mais importante movimento da dramaturgia do século XX, onde se apresentava o inesperado e buscava-se surpreender o espectador. Com todo movimento artístico moderno banalizou-se e perdeu-se.

  • Ionesco e Samuel Beckett foram os expoentes do Teatro do Absurdo.