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O Julgamento das Nações de

há 2 horas
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“Os problemas do poder não podem ser resolvidos apenas pelo poder, nem se podem solucionar por meio da ciência, pois que a ciência se tornou serva do poder.” – Christopher Dawson



O autor interpreta a crise da civilização ocidental na primeira metade do século XX –sobretudo a ascensão dos totalitarismos e a Segunda Guerra Mundial – não apenas como uma crise política, militar ou econômica, mas como manifestação exterior de uma crise espiritual muito mais profunda. O livro divide-se significativamente em duas partes: a) a desintegração da civilização ocidental e b) a restauração de uma ordem cristã. A primeira diagnostica as causas da crise; a segunda procura mostrar quais seriam as condições espirituais e culturais necessárias para superá-la.


Dawson começa observando o contraste extraordinário entre o progresso material do Ocidente e sua regressão moral. Em pouco mais de um século, a ciência, a técnica, a industrialização, os transportes e as comunicações multiplicaram enormemente o poder humano. O homem moderno conquistou o espaço e o tempo e submeteu a natureza numa escala que seus antepassados jamais poderiam imaginar. Entretanto, a natureza humana não se transformou na mesma velocidade. O resultado é uma desproporção entre poder material e maturidade espiritual: homens moralmente semelhantes aos de épocas anteriores passaram a dispor de instrumentos de poder incomparavelmente maiores. Esta seria a combinação que tornou possível o Estado totalitário.


A crise moderna contém um paradoxo fundamental: as forças que deveriam libertar o homem – ciência, racionalidade, organização, tecnologia e domínio da natureza – podem converter-se em instrumentos de escravização. A ciência não resolve por si mesma o problema porque pode se tornar serva do poder. A liberdade política tampouco consegue sobreviver se não estiver sustentada por uma concepção moral da pessoa. Quanto maior o poder técnico de uma sociedade desprovida de limites transcendentes, maior sua capacidade de destruição – o problema do poder não pode ser resolvido apenas por mais poder.


O totalitarismo, nessa interpretação, não constitui um acidente inexplicável surgido subitamente com Hitler, Stalin ou determinados partidos revolucionários. Ele é a manifestação extrema de tendências que vinham amadurecendo dentro da própria civilização moderna. À medida que a sociedade deixou de reconhecer uma ordem moral superior ao Estado, à economia e à vontade coletiva, tornou-se possível conceber o poder político como soberano em sentido absoluto. O Estado passa então a pretender não apenas governar exteriormente os indivíduos, mas organizar suas consciências, crenças, emoções e percepções. Propaganda, psicologia das massas, polícia política, mobilização ideológica e tecnologia convergem para produzir uma modalidade de dominação muito mais profunda do que os antigos despotismos.


Essa transformação significa para Dawson uma verdadeira inversão da ordem moral. Quando a moral perde seu fundamento religioso e metafísico e passa a ser subordinada aos objetivos políticos, atos anteriormente considerados maus podem tornar-se moralmente obrigatórios se forem julgados necessários à causa revolucionária, nacional ou estatal. É assim que o terror pode deixar de ser praticado apenas por criminosos movidos pelo interesse pessoal e passar a ser exercido metodicamente por homens convencidos de estar servindo a uma causa superior. É a despersonalização do mal: a violência transforma-se em dever administrativo ou revolucionário, praticado friamente em nome de um princípio.


Por essa razão, a guerra contra o totalitarismo contém um perigo adicional. Uma sociedade livre pode derrotar militarmente o totalitarismo e, ao mesmo tempo, assimilar seus métodos. A necessidade de mobilização total, propaganda, centralização administrativa e concentração do poder pode levar as democracias a reproduzirem parcialmente aquilo contra o qual combatem. Representa uma guerra em duas frentes: é preciso combater exteriormente a agressão totalitária e interiormente impedir que a própria sociedade seja contaminada pela lógica do poder ilimitado. Uma vitória militar acompanhada de derrota moral seria, nesse sentido, uma vitória apenas aparente.


A democracia não se identifica apenas com sufrágio, parlamento ou governo da maioria. Essas instituições constituem manifestações históricas de uma tradição cultural muito mais profunda. A liberdade ocidental nasceu da civilização cristã e particularmente da concepção cristã segundo a qual cada alma humana possui um valor absoluto que nenhum Estado, governante ou coletividade pode absorver completamente. A liberdade política seria, portanto, historicamente dependente de uma concepção da pessoa que antecede e transcende a própria política.


As instituições liberais modernas conservaram durante muito tempo um capital moral que não haviam criado. Humanismo, direitos individuais, liberdade de consciência, democracia e ideal de dignidade humana continuaram funcionando mesmo quando a sociedade europeia começou a abandonar explicitamente o Cristianismo, porque esses valores permaneciam impregnados de pressupostos cristãos. A crença no valor incomparável da pessoa humana, por exemplo, não teria surgido simplesmente das instituições políticas modernas, possuindo raízes muito anteriores, na inversão cristã dos valores que atribuiu dignidade ao pobre, ao fraco e ao sofredor.


A modernidade não é simplesmente como uma oposição entre Cristianismo e secularismo. Iluminismo, liberalismo, democracia, humanitarismo e socialismo representaram, em diferentes graus, uma espécie de secularização de impulsos originalmente cristãos. A fé no progresso e na emancipação humana chegou a adquirir características quase religiosas. Durante muito tempo, portanto, o conflito moderno pareceu ocorrer entre duas “religiões”: o Cristianismo histórico e uma religião secular do progresso. Mas o século XX teria revelado um terceiro elemento, muito mais radical: um niilismo que rejeita simultaneamente a religião cristã e o humanismo secular que dela herdara determinados valores.


Embora diferentes entre si, nazismo e comunismo soviético são manifestações históricas específicas de uma crise mais ampla da cultura europeia. O fenômeno decisivo não é simplesmente determinada doutrina econômica ou determinado nacionalismo, mas o surgimento de sistemas políticos capazes de subordinar integralmente moral, cultura, educação e indivíduo aos objetivos do poder coletivo. Daí a derrota de Hitler e quada do muro de Berlim não representarem o fim do totalitarismo, pois enquanto permanecer a concepção de que os fins políticos justificam a manipulação ilimitada do homem, permanece a possibilidade totalitária.


No plano internacional, é legítimo ter como objetivo construir uma ordem de paz entre os povos, mas falhará se tentar produzir juridicamente aquilo que já não existe espiritualmente. A Europa medieval, apesar de suas guerras e conflitos, possuía a consciência de pertencer a uma civilização comum, havia acima dos Estados uma referência moral compartilhada. A Europa moderna perdeu progressivamente essa unidade espiritual, enquanto nacionalismo e internacionalismo tentaram substituí-la por mecanismos políticos. A Liga das Nações tentou construir uma comunidade internacional mediante tratados e instituições sem possuir uma verdadeira comunidade moral subjacente.


O fracasso da Liga adquire, portanto, significado simbólico: não basta criar instituições internacionais se não existe uma concepção comum de justiça capaz de obrigar moralmente os Estados. Sem uma lei superior ao interesse nacional, o direito internacional transforma-se numa convenção dependente das relações de força. Estados, assim como indivíduos, devem reconhecer uma ordem moral que não criaram e que não podem legitimamente modificar segundo sua conveniência – Direito Natural. Caso contrário, o Estado forte simplesmente impõe sua vontade ao fraco. A reconstrução internacional exige, assim, mais que tratados; requer a recuperação de fundamentos morais objetivos.


A cultura não significa apenas literatura, arte ou educação intelectual, mas o conjunto de instituições, costumes, crenças, práticas econômicas e formas de vida transmitidas socialmente. Por isso, nenhuma sociedade pode permanecer culturalmente neutra. Toda civilização pressupõe alguma visão do homem, do bem e do sentido da existência. O problema do Ocidente é que sua cultura nasceu historicamente do Cristianismo, mas passou progressivamente a organizar-se como se pudesse conservar indefinidamente seus valores morais depois de abandonar as crenças e instituições que lhes deram origem.


Dawson não propõe simplesmente uma restauração política do passado nem a recriação institucional da Cristandade medieval. A ordem cristã que deseja restaurar é antes de tudo uma ordem cultural e espiritual. Isso significa recuperar o reconhecimento de que a sociedade, o Estado e a economia estão subordinados a uma lei moral superior e que a pessoa humana possui uma finalidade que transcende todas essas estruturas.


As sociedades industriais modernas exigem níveis de coordenação inexistentes no passado. O perigo surge quando a planificação deixa de ser um instrumento e se converte numa concepção total da sociedade. Uma ordem inteiramente planejada corre o risco de transformar o homem em material administrativo. A questão fundamental deixa então de ser simplesmente “quem planeja?” e passa a ser segundo que concepção do homem se planeja? Sem uma antropologia que reconheça liberdade, responsabilidade moral e transcendência, a eficiência administrativa pode tornar-se mecanismo de servidão.


A sociedade não deve ser concebida nem como mera soma de indivíduos concorrentes, como em certas formas de individualismo liberal, nem como organismo coletivo que absorve completamente seus membros, como no totalitarismo. Entre indivíduo e Estado existe uma complexa realidade social composta por famílias, comunidades, associações, igrejas, instituições educacionais, profissões e corpos intermediários. A verdadeira ordem social deve respeitar a autonomia dessas comunidades e impedir que todo poder seja concentrado num único centro político.


A recuperação da ordem não pode ser obtida exclusivamente por reformas institucionais. É necessária uma transformação cultural. A luta decisiva não se trava apenas entre exércitos ou sistemas econômicos, mas entre concepções rivais da realidade e do homem. Educação, religião, filosofia e cultura tornam-se decisivas porque determinam o tipo humano produzido por uma civilização. Uma sociedade incapaz de transmitir seus princípios fundamentais às novas gerações pode conservar por algum tempo suas instituições, mas acabará perdendo a substância que lhes dava vida.


A fragmentação religiosa da Europa foi uma das causas profundas de sua posterior secularização. As divisões entre católicos e protestantes contribuíram para separar religião e cultura e enfraqueceram a antiga consciência da Cristandade como comunidade espiritual.

A recuperação da civilização europeia exige, portanto, alguma forma de cooperação cristã. Não significa ignorar divergências teológicas, mas reconhecer que, diante de uma civilização crescentemente secularizada e do totalitarismo, os cristãos compartilham princípios fundamentais relativos à dignidade humana, liberdade moral e transcendência. A volta ao Cristianismo constitui condição indispensável para restaurar uma comunidade espiritual capaz de sustentar novamente a civilização.


A reconstrução da ordem cristã também depende da compreensão adequada da liberdade e da vocação. Liberdade não significa ausência absoluta de vínculos. O homem verdadeiramente livre é aquele capaz de orientar sua existência para um bem que transcende seus desejos imediatos. A concepção puramente negativa da liberdade – liberdade entendida apenas como ausência de restrições – é insuficiente porque não responde à questão acerca da finalidade da liberdade. O Cristianismo oferece uma concepção positiva: o homem é livre para realizar sua vocação moral e espiritual. A liberdade torna-se assim inseparável de responsabilidade.


A Europa já não pode reconstruir sozinha a antiga ordem internacional. O crescimento dos Estados Unidos, da União Soviética, do Império Britânico e das grandes potências asiáticas havia transformado definitivamente o sistema mundial. O antigo equilíbrio europeu de Estados nacionais tornara-se insuficiente. A futura ordem deveria ser efetivamente mundial, integrando os grandes centros de poder e criando mecanismos universais de segurança. Porém, nenhuma arquitetura internacional sobreviverá se repousar exclusivamente sobre relações de força ou procedimentos jurídicos.


As nações estão sendo julgadas não apenas pelos acontecimentos da guerra, mas por sua relação com uma ordem moral que as transcende. Nenhum Estado é absoluto, nenhuma raça, classe, partido ou nação possui o direito de converter-se em finalidade suprema da existência humana. Quando uma comunidade política reivindica essa posição, transforma-se em idolatria política. O totalitarismo é justamente a manifestação extrema dessa idolatria: o poder temporal exige do homem aquilo que somente o transcendente poderia legitimamente exigir.


O Julgamento das Nações é menos um livro sobre a Segunda Guerra Mundial do que uma filosofia cristã da crise da modernidade. A guerra fornece a ocasião histórica, mas o objeto real é o destino da civilização ocidental. O Ocidente tentou conservar os frutos culturais do Cristianismo depois de progressivamente se separar de suas raízes espirituais, e durante algum tempo, isso pareceu possível. A crise totalitária revelaria, porém, a fragilidade dessa solução. Justiça, dignidade humana, liberdade e direitos não conseguem sobreviver indefinidamente como simples convenções se nenhuma realidade superior ao poder lhes conferir fundamento.


A civilização industrial, tecnológica e mundial é irreversível. Mas qual princípio espiritual governará esse enorme poder recém-adquirido. Se o poder se tornar seu próprio fim, produzirá dominação e destruição, mas se permanecer subordinado a uma ordem moral transcendente poderá servir à pessoa e à comunidade. É por isso que o problema político acaba se revelando religioso: a crise do Ocidente é, em última instância, uma crise daquilo que o homem reconhece como realidade suprema.





Notas


  • Christopher Dawson (1889-1970) nasceu em Hay-on-Wye, País de Gales.

  • Historiador e filósofo da cultura inglês, considerado um dos mais importantes intérpretes católicos da história no século XX.

  • Sua obra desenvolveu-se em torno de uma tese fundamental: a religião constitui uma das principais forças formadoras das civilizações, e uma cultura não pode ser plenamente compreendida separando-se suas instituições de suas raízes espirituais.

  • A lista de outros livros relevantes do autor incluí: Progress and Religion: An Historical Inquiry (1929), The Making of Europe: An Introduction to the History of European Unity (1932) e Religion and the Rise of Western Culture (1950).

  • The Judgment of the Nations foi publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.

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