No Caminho de Swann de Marcel Proust


The boredom of living is replaced by the suffering of being.” – Samuel Beckett sobre a consequência da quebra dos hábitos, Proust (1930)

Personagens Principais Marcel – narrador, deseja ser escritor Charles Swann – amigo da família de Marcel, financista Odette de Crécy – esposa de Swann, de reputação questionável Forcheville – conde, amante de Odette e rival de Swann Mãe – mãe de Marcel, preocupado com a natureza de Marcel Pai – figura distante, ocasionalmente generoso com Marcel Oriane de Guermantes – duquesa, grande proprietária em Combray Baron de Charlus – aristocrata amigo de Swann, família Guermantes Personagens Secundárias Adolphe – tio de Marcel, recorre a mulheres de baixa reputação M. Biche – pintora, membro do clã no salão Verdurin Albert Bloch – judeu, velho amigo de Marcel M. Bichot – professor na Sorbonne, do clã em Verdurin Marquesa de Cambremer – mulher pouco sofisticada, nobre por casamento Dr. Cottard – jovem médico, clã em Verdurin Eulalie – empregada aposentada de Combray, amiga de Léonie Françoise Larivière – emprega da família de Swann, mãe de Marguerite (casada com Julien) Mme. De Gallardon, anti-semita, amiga de Oriane Duque de Guermantes – marido de Oriane (antes Príncipe des Laumes) Gilberte – filha de Swann e Odette, desejo amoroso de Marcel (Mme. de Saint-Loup) Amédée – avô materno de Marcel, saúde debilitada Bathilde – avó de Marcel, apegada ao neto Cozinheira – nova todos os anos, Marcel nunca menciona seus nomes Legrandin – engenheiro, amigo da família de Marcel, esnobe hipócrita Léonie Octave – tia de Marcel, constantemente acamada, hipocondríaca Rémi – cocheiro de Marcel Marquesa de Saint-Euverte – amiga de um conhecido de Swann M. Saniette – rico, interessado em paleografia, clã de Verdurin M. & Mme. Verdurin – classe-média que inveja a alta sociedade Mme. Villeparisis – amiga da avó de Marcel M. & Mme. Vinteuil – casal excêntrico de Combray Théodore – balconista em Combray, mestre do coro da Igreja Berma – atriz de teatro Interpretação A obra de Proust é um convite à prática da anamnese como forma do homem entender-se profundamente, pois a memória é antídoto para a natural deterioração de todas as coisas ao longo do tempo – tempus fugit. Neste processo o autor valoriza as memórias involuntárias, ou seja, não a voluntária recordação dos eventos passados (o que fiz ontem), mas o reviver dos sentimentos experimentados – explorar a si mesmo.


Ao descrever situações e personagens em seus altos e baixos, liricamente ou mundanamente, o narrador gradativamente descortina o que estaria sob a superfície das mesmas. As personagens são expostas com toda complexidade inerente ao ser humano, incluindo como elas mentem para transformar a realidade em algo pessoal e reconfortante. Um embate entre o eu social projetado e o verdadeiro eu, que pode perder-se no caminho, sendo a recuperação da memória profunda uma bússola pessoal neste percurso.


Aquelas mentiras impõem barreiras entre os homens, e Proust sugere o Amor para vencer tais obstáculos num episódio no qual a personagem Marcel comunica-se com sua amada avó por batidas através de uma parede num hotel em Balbec (episódio descrito em outro volume da Em Busca do Tempo Perdido).


Alerta para o risco de domesticarmos em demasia nosso entorno, transformando tudo em hábitos que a qualquer hora podem ser atropelados pelas vicissitudes da vida. O homem deve compreender sua condição trágica, entender que nada está seguro e garantido nesta vida – sempre valorizar o bom, agradecendo a Deus, estar pronto para o lidar com inesperado, e trabalhar incessantemente contra o mal sempre a espreita, dentro e fora de si.


O romance começa e termina referindo-se ao tempo. Mais que uma inútil batalha individual contra o tempo, a personagem Marcel parece buscar seu verdadeiro eu e, principalmente, o absoluto que se opõe ao tempo. O eu real, consciente, capaz captar a realidade no seu entorno e reconhecer seu lugar neste mundo tem no tempo um aliado retroalimentado sua razão através das memórias. Mas aquele que recorda apenas para lamentar-se ou refugiar-se no passado (no jardim de Epicuro), que vive temeroso da inevitável noite, terá no tempo um implacável algoz – tempo, “este monstro de duas cabeças, salvação e danação” (Samuel Beckett).


O convite de Proust em muito se assemelha a confissão católica, basta fazer a anamnese tendo Deus como ouvinte.

Notas

  • Marcel Proust (1871-1922) nasceu em Auteuil, cerca de Paris, França.

  • Sua principal obra consiste-se nos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido publicados entre 1913 e 1927 (os últimos três volumes, em avançado mas não final estágio de revisão, foram publicados postumamente). No Caminho de Swann (1913) é o primeiro volume da série, e foi editada à custa do autor. É dedicado principalmente à narração de sua infância e adolescência.

  • Outros livros: coleção de contos Les plaisirs el les jours (1896) e o romance inacabado Jean Santeuil (publicado postumamente em 1952).

  • Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época. A obra descreve filosófica e alegoricamente a vida do autor. A maioria das personagens forma inspiradas em conhecidos de Proust.

  • O foco na abordagem da vida interior na obra de Proust contrasta com realismo então em voga, valendo-lhe a designação de um dos introdutores do romance moderno.

  • As cidades de Combray e Balbec são fictícias.