História da Guerra do Peloponeso de Tucídides


Quem quer que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em consequência do seu conteúdo humano, julgará a minha história útil (...), ela foi feita para ser um patrimônio útil.” – Tucídides, a imutável natureza humana e a finalidade do estudo da história (I-22)

A popularidade de Tucídides não advém em sua habilidade como cronista da guerra, mas de suas observações relacionadas a natureza do homem e suas instituições – Tucídides apresenta suas ideias através dos discursos dos agentes históricos.


A História é dividia em cinco partes: (a) alentada introdução ilustrando a importância da guerra, exposição da metodologia do autor, e especulações sobre as causas da guerra – Livro I; (b) corresponde a conflagração chamada de “Guerra dos Dez Anos” – Livros II, III, IV e V/1-24, (c) período da precária paz entre os adversários – complemento do Livro V; (d) descreve a guerra na Sicília – Livro VI e VII; (e) cobre a “Guerra da Decêleia” e o deslocamento das operações pra a Ásia Menor – Livro VIII.


Livro I (435-432 a.C.) Tucídides começa a escrever seu livro no princípio da guerra, pois considerava que este seria o mais importante evento na história grega. Primordialmente não havia unidade na península, apenas na guerra contra Troia as diferentes cidades-estado agem em conjunto pela primeira vez. A força naval tivera papel destacado na vitória sobre Troia, e depois do conflito as cidades com maior poder marítimo sobressaíram-se sobre aquelas que detinha grandes exércitos.


Os gregos uniram-se uma vez mais para enfrentar a ameaça oriental formando a Liga de Delos, com Atenas impondo contribuição financeira a praticamente todas as demais cidades – começam os conflitos entre Atenas e Esparta, com esta receando o crescente poder daquela.


Após a vitória sobre a Pérsia, o poder de Atenas cresceu dentro da Liga de Delos, os atenienses começam a utilizarem-se da liga para seu próprio engrandecimento e dar sinais de objetivos imperialistas. Insatisfeitos, membros começam a abandonar a liga, voltando-se para Esparta. Os atenienses fortificam sua cidade e aumentam sua frota naval suscitando receio nos espartanos. Por sua vez Esparta ataca Chipre e Bizâncio, assustando outras cidades que apelam pela proteção de Atenas. Em meados do século V a.C. os atritos alcançam séria proporção: (a) Potidéia, colônia da dória Corinto, refuta a interferência ateniense em seus assuntos internos; (b) Atenas intromete-se na disputa entre Corínto e sua colônia Córcira, tomando partido desta; e (c) Atenas impõe sansões econômicas a Mégara (Decreto de Mégara), arruinando-a economicamente. Estes seriam os eventos imediatos, de uma sequência que já vinha acumulando-se há tempos, que deflagaram o conflito.


Corinto convoca a Liga Peloponésia em Esparta para discutir as provocações atenienses, e acusam Esparta de ser demasiadamente conservadora e hesitante. Os atenienses defendem-se alegando ser sua liderança merecida em função de seus atos nas Guerras Médicas. O rei de Esparta, Arquídamos discursa pela paz, mas o éforo espartanos Stenelaídas convence a assembleia pela guerra (I-67 a 87).


Consultado pelos espartanos, o deus através do oráculo de Delfos respondeu-lhes que “se guerreassem com todo o seu poder a vitória seria deles, e lhes disse que ele mesmo (Apolo) os ajudaria, quer o invocassem quer não”.


Esparta convoca uma segunda assembleia para propor a guerra aos seus aliados, na qual Corínto volta a discursar pela guerra contra a provocadora Atenas. Embaixadores são enviados para Atenas visando obter um pretexto para declarar guerra. Depois de fracassarem em colocar os atenienses contra o rei Péricles, os enviados lacedemônios demanda que Atenas desmonte seu império liberando seus aliados. Péricles discursa no sentido de não ceder em nada, confiante que seu poderio naval garantiria uma vitória; e que somente pensaria na demanda feita caso Esparta também libera-se seus aliados. Ao final diz que “a guerra é inevitável, e quanto mais dispostos nos mostrarmos a aceitá-la, menos ansiosos estarão nossos inimigos por atacar-nos. Enfim, são os maiores perigos que proporcionam as maiores honras, seja às cidades, seja aos indivíduos”. O cenário para o conflito estava armado.


Livro II (431-429 a.C.) A guerra é deflagrada na primavera de 431 a.C. quando Tebas, aliada de Esparta, ataca Platéia, ligada a Atenas. Tebas é repelida e os prisioneiros são tratados humanitariamente; Atenas envia reforços e prepara-se para a guerra – ambos lados estão ansiosos em pegar em armas (“todos estavam cheios de entusiasmo pela guerra (...), pois é sempre no começo que se mostra mais ânimo. (…) havia na época, tanto no Peloponeso com em Atenas, uma juventude numerosa que, por inexperiência, só desejava a guerra. O resto da Hélade estava na expectativa”). Ambas atitudes, tratamento humanitário dos prisioneiros e avidez por guerrear, mudariam no decorrer da guerra.


Após o incidente em Platéia, os espartanos organizam seus aliados para uma expedição contra Atenas. Arquídamos discursa sobre táticas e estratégias (II-10) e exemplificando para a história o pensamento militar grego, faz o seguinte encerramento: “Observai antes de tudo a disciplina, sede vigilante, rápido para aprender as ordens. Nada é mais belo e ao mesmo tempo mais seguro que um grande exército movendo-se em perfeita unidade”.


Confiando na impregnabilidade de suas muralhas, Péricles convence os habitantes dos povoados circunvizinhos a abrigarem-se em Atenas, superlotando a cidade. A lentidão de Arquídamos em atacar a cidade de Enoe dá mais tempo aos atenienses para preparar suas defesas, sendo o rei espartano muito criticado por isto. Atenas é sitiada e Péricles não cai nas provocações para um enfrentamento em campo aberto, ao invés envia uma frota de cem naus saquear cidades inimigas, bem como uma força terrestre contra Mégara. Assim, Atenas levava vantagem no primeiro ano da guerra.


Atenas celebra a expensas do tesouro (conforme seu costume) os ritos fúnebres dos primeiros concidadãos vítimas desta guerra: os ossos dos defuntos são expostos num catafalco por três dias enquanto os habitantes trazem suas oferendas; no dia do funeral ataúdes de cipreste são trazidos em carretas, um para cada tribo, para abrigarem os ossos (um ataúde vazio também participa da procissão representando os guerreiros desaparecidos). Os ataúdes são postos no mausoléu oficial situado no subúrbio mais belo da cidade. Péricles proclama as orações fúnebres com grande significado sobre o sentido de democracia e liberdade (II-35 a 46 – talvez a passagem mais famosa do livro). Seguem alguns extratos: (a) “Nela (democracia), enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências privadas, quanto se trata de escolher (se é preciso distinguir) em qualquer setor, não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição. Conduzimo-nos liberalmente em nossa vida pública, e não observamos com uma curiosidade suspicaz a vida privada de nossos concidadãos, pois não nos ressentimos com nosso vizinho se ele age como lhe apraz, nem o olhamos com ares de reprovação que, embora inócuos, lhe causariam desgosto.”; (b) “em nossa vida pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de um temor reverente, pois somos submissos às autoridades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, trazem ao transgressor uma desonra visível a todos.”; (c) “Somos amantes da beleza sem extravagância e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha e não fazer o possível para evitá-la.”; (d) “Instituímos muitos entretenimentos para o alívio da mente fatigada; temos concursos, temos festas religiosas regulares ao longo de todo o ano, e nossas casas são arranjadas com bom gosto e elegância, e o deleite que isto nos traz todos os dias afasta de nós a tristeza.”.


Com a chegada do verão (segundo ano do conflito) os espartanos e seus aliados renovam os ataques. Arquídamos aparentemente desiste de tomar Atenas e volta-se contra as terras adjacentes, arrasando-as. Mas o pior inimigo de Atenas foi a misteriosa peste (nunca identificada apesar da detalhada descrição de Tucídides – a superlotação da cidade teria acelerado a disseminação da doença) que dizimou parte da população (Tucídides comenta a peste ter aniquilado um quarto da expedição marítima enviada contra os calcídios na Trácia). A peste desmoralizou os atenienses, introduzindo pela primeira vez a anarquia na cidade, com todos querendo aproveitar os prazeres da vida enquanto ainda tivessem tempo, ninguém mais queria lutar pelo que antes considerava honroso.


Enquanto isto as forças do Peloponeso seguem devastando os campos e tomam as minas de prata atenienses em Lauríon. Péricles segue evitando sair ao combate em campo aberto, mas envia frotas que seguem dizimando a costa peloponésia. Aflita com as perdas próximas de casa e com a peste, a população ateniense culpa Péricles por tê-los convencido a entrar na guerra, e pede o envio de delegados a Esparta para negociar a paz. Péricles faz novo memorável discurso (II-60 a 64) convencendo seus concidadãos a permanecer em guerra. Seguem fragmentos: (a) “Na minha opinião uma cidade proporciona maiores benefícios aos seus habitantes quando é bem-sucedida como um todo que quando eles prosperam individualmente, mas fracassam como uma comunidade, De fato, mesmo quando um homem é feliz em seus negócios privados, se sua cidade se arruína ele perece com ela; se, todavia, ele se encontra em má situação, mas sua cidade está próspera, é mais provável que ele se saia bem.”; (b) “se (…) é inevitável ceder e ser dominado, ou arriscar-se para obter maiores vantagens, então merece censura quem se esquiva ao risco, e não quem o aceita.” – liberdade traz perigo e responsabilidades, mas vale o esforço. A força de Atenas reside me seu espírito, terras e posses podem ser recuperadas, mas o espírito uma vez quebrado leva certamente a derrota. Péricles contrai a peste e morre poucos meses depois.


Os atenienses desviam-se das políticas prudentes e exitosas de Péricles. Tucídides indica em várias ocasiões que a peste e a morte de Péricles mudaram o destino da guerra, Até a perda do rei, Atenas lutava uma guerra defensiva objetivando manter sua liberdade. Com sua morte, líderes de menor calibre assumem, como se pode ver no assasinato dos emissários peloponésios e na reação a moderada trégua concedida a Potidéia (atenienses acusam de débeis os generais que conquistaram a cidade e concederam a trégua). Com o passar do tempo, o temperamento de Atenas tornou-se mais totalitário e menos democrático.

Os ataques seguiam de ambos os lados, mas sem nada decisivo para o curso da guerra. Quando ambas forças estavam renovando-se para seguir a batalha naval no golfo de Corinto, os comandantes espartano (Brasidas) e ateniense (Fórmion) fazem modelares exortações aos seus comandados: enfatizam suas forças, não subestimam o inimigo, e demonstram habilidade em excitar seus comandos para a batalha (II-83a 92).


Livro III (428-426 a.C.) No verão de 428 a.C. as forças peloponésias novamente atacam Atenas, devastando as terras, e retiram-se quando terminaram os suprimentos. Este ataque levou os cidadãos de Lesbos a revoltarem-se contra Atenas. Os lésbios já queriam abandonar a liga ateniense, mas os espartanos não ofereciam proteção contra a esperada reação de Atenas. A desincorporação de Lesbos preocupava os atenienses, pois além de incitar outros a debandarem, também representava a perda de sua numerosa frota, que caso juntasse-se aos peloponésios significaria a perda da superioridade ateniense no mar.


Atenas resolve atacar Lesbos, e esta prepara suas defesas. A cidade de Mitilene (situada na ilha de Lesbos) tenta negociar a paz, e simultaneamente enviam emissários a Esparta em busca de ajuda – os citadinos haviam unido-se a Atenas para o combate aos persas, mas agora ressentiam-se das atividades expansionistas dos atenienses. Os mitilênios oferecem-se em atacar Atenas numa grande ofensiva, aproveitando a vulnerabilidade ateniense em função da peste e de problemas financeiros. Lesbos passa a compor a liga peloponésia.


Com a demora dos reforços espartanos, Mitilene se rende ao general ateniense Paques, e este permite o envio de emissários a Atenas para negociar a paz. Atenas recebe os emissários matando o espartano entre eles, e após deliberação uma trirreme é enviada a Paques ordenando a morte de todos os mitilênios adultos e escravização das mulheres e crianças. Porém, arrependidos de tal decisão, os atenienses convocam nova assembleia onde são proferidos discursos antagônicos – Clêon (“o mais violento dos cidadãos’) discursou pela manutenção da ordem anterior (III-37 a 40) e Diôdotos por sua revogação (III-41 a 48). Estes discursos mostram uma cidade dividida entre aqueles dispostos a suspender a liberdade ateniense durante a guerra e aqueles que desejavam preservá-la durante tal período.


Clêon faz um discurso incendiário, incitando as massas a rebelião – exemplificando o que acontece quando a democracia decai na oclocracia (a lei da plebe), esquecendo seus valores fundamentais. Ele argumenta que a democracia não é adequada ao império, sendo melhor o despotismo para lidar com as cidades estrangeiras, e que aqueles que reverterem seu voto anterior seriam traidores. Diôdotos acusa Clêon de usar a oratória não para informar e analisar, mas apenas para inflamar as mentes. Ele diz que os “dois obstáculos mais contrários a uma deliberação sensata são a pressa e a paixão: com efeito uma anda geralmente em companhia da leviandade, e a outra da obsessão e estreiteza de espírito.” Observa-se que Diôtomos ataca Clêon não referindo-se a Constituição Ateniense, mas aos interesses mais imediatos da cidade – diferentemente de Péricles, ele não discursa pelos valores eternos. A decisão anterior é revertida por uma pequena margem e a nova trirreme enviada chega por pouco a tempo de evitar a matança dos mitilênios.


No verão seguinte, Platéia rende-se aos espartanos diante da promessa que apenas os líderes plateus seriam julgados, e de forma honrosa. Seguem-se discursos em defesa de Platéia (II-53 a 59) e a réplica de seus inimigos tebanos (II-60 a 67). Mais interessados em assegurar o suporte de Tebas, os espartanos quebram sua palavra e destruíram a cidade, executaram centenas de seus cidadãos, e venderam as mulheres como escravas. O ateniense Tucíldides contrasta assim o tratamento dispensado por Atenas aos militênios com o procedimento espartano em Platéia.


Começando na Córcira, uma série de guerras civis opondo democratas (pró-Atenas) e oligarcas (pró-Esparta) manifestam-se em diferentes cidades – Tucídides crê que os conflitos eram latentes, com ambos lados esperando apenas por um aliado poderoso. Estes conflitos civis fizeram com que os piores instintos humanos aflorassem: “proliferaram na Hélade todas as formas de perversidade em consequência das revoluções, e a simplicidade, que é a característica mais condizente com uma natureza nobre, provocava sorrisos de escárnio e desapareceu, enquanto florescia por toda parte a hipocrisia combinada com a desconfiança. (…) Geralmente os medíocres triunfavam, pois o sentimento de suas limitações intelectuais e o temor da inteligência do adversário (..) os levavam direta e ousadamente à ação, (adversários eram) apanhados de surpresa e exterminados.”


No inverno seguinte (427 a.C.) a peste atacou pela segunda vez os atenienses. Mais de quatro mil e quatrocentos hoplitas, trezentos soldados da cavalaria e um número indeterminado de habitantes morreram. Além disto terremotos causaram grande sofrimentos em Atenas e seus arredores; outro terremoto também obrigou o recuo de uma nova investida peloponésia contra Atenas.


Seguem descrições de várias batalhas, fechando o sexto ano do conflito.


Livro IV (425-423 a.C.) No verão de 425 a.C. Siracusa invade Messene na Sicília. Esta, considerando Atenas incapaz de defender a Sicília, bandeia para o lado dos peloponésios e Atenas perde mais um aliado.


Enquanto os espartanos invadiam Ática para destruir a lavoura antes de sua colheita, os atenienses, a caminho da Sicília, cercam Pilos (cidade a 72 km de Esparta). Na defesa da já coquistada Pilos, Demóstenes, líder dos atenienses, faz forte discurso (IV-10 – “Soldados que vos arriscais aqui comigo!”) expondo sua estratégia e levando seus comandados a vitória contra forças numericamente superiores e fazendo inúmeros prisioneiros. Enviados lacedemônios a Atenas para negociar o resgate dos prisioneiros fazem impactante discurso (IV-17 a 20): “As grandes hostilidades têm uma solução estável não quando uma das duas partes, apegando-se obstinadamente ao desejo de tomar represália e tendo dominado substancialmente o adversário, constrange-o por juramento imposto à força e lhe impinge um acordo iníquo, mas quando, podendo obter o mesmo resultado de modo razoável, triunfa mais uma vez sobre o adversário por sua generosidade e contraria a expectativa mediante um acordo moderado. Neste caso, o adversário é compelido a responder-lhe não com represálias pelas violencias sofridas, mas com outras provas de generosidade, ele se torna mais disposto a respeitar, em nome da honra, os termos do pacto.” Porém, liderados por Clêon (ver Livro III), os atenienses rejeitam a oferta, pois nada aceitariam que não fosse a rendição incondicional. A batalha em Pilos é retomada.


Enfrentando dificuldades em Pilos, os generais atenienses são acusados de incompetentes e covardes por Clêon. Desafiado para fazer melhor, Clêon lidera tropas atenienses e conquista a vitória em Pilos.


Ainda no verão de daquele ano, Atenas e aliados, liderados pelo comandante ateniense Nícias, atacam com sucesso Corinto – 212 coríntios e 50 atenienses morrem no conflito (diferentemente dos demais historiadores gregos, Tucídides não exagera em seus números).

Ainda naquele verão. uma expedição ateniense, a caminho da Sicília, desembarca na Córcira e ajuda os corcireus do partido popular a derrotarem os oligarcas.. Depois da vitória os do partido popular executam os inimigos com grande crueldade, escalando a desumanidade desta guerra.


Ambos lados contendores seguem atacando com variados resultados, e uma trégua de curta duração é celebrada na primavera de 423. a.C. sem que nenhum dos lados a levasse a sério – assim encerrasse o inverno e o nono ano da guerra.


Livro V (422-416 a.C.) As hostilidades recomeçam em 422 a.C., o ateniense Clêon marcha sobre Antípolis mas é derrotado pelo comandante espartano Brasidas que antes faz grande exortação aos seus homens (V-9). Os dois comandantes morrem no confronto.


Ambos lados buscam a paz depois de Antípolis. Atenas começava a perder confiança em suas forças e temia a revolta de seus aliados; e Esparta, reconhecendo que seu plano de arrasar os campos atenienses falhou, também desejava o fim das lutas – nenhum lado previra o tamanho da devastação que a guerra causaria. A morte dos belicosos Clêon e Brasidas facilitava as negociações.


Um armistício é assinado em 422 a.C.– Esparta e Atenas formam uma aliança de cinquenta anos. Porém as diferenças entre as duas cidades não foi resolvida, mas que a paz, elas visavam uma trégua para prepararem-se para uma renovada guerra. A paz era irreal, os aliados de Esparta não a queriam aceitar, e os atenienses não confiavam em seus inimigos. Por sete anos não há invasões de nenhum lado, mas ambos auxiliam seus aliados em invasões dentro do seu território.


Partidos favoráveis a guerra se agitam tanto em Esparta como em Atenas, veem a paz como insatisfatória e pedem o retorno do conflito. O ateniense Alcibíades busca com sucesso uma aliança com os argivos que tentavam formar uma nova liga – ambos tentam construir fortificações em território peloponésio, o que seria um quebra do acordo de paz, mas são impedidos por Corinto. Esta foi a primeira de uma série de provocações de Alcibíades pelo retorno da guerra (Tucídides era inimigo de Alcibíades).


Quando os argivos ameaçavam Tegéia, os espartanos vão em seu auxílio alcançando a vitória naquela que ficou conhecida como a Batalha de Mantinéia (nome do território) – foi a maior batalha da guerra até então, onde morreram 1.100 argivos e seus aliados contra não mais que 300 espartanos (Tucídides discute as exortações e estratégias militares adotadas no combate – V-65 a 74).


Esparta alcança um acordo de paz e aliança com Argos no inverno de 418 a.C., mas um revolta interna quebra a aliança e a cidade volta-se novamente a Atenas. Alcibíades comanda uma frota em direção a Argos para dar cabo da remanescente facção pró-Esparta.


Os atenienses também zarpam para a ilha de Melos (colônia espartana) que até o ataque ateniense era neutra na guerra. Ambos sentam para negociar, e Atenas não aceita a neutralidade dos mélios, arrogantemente exigindo que se subordinassem a ela (V-85 a 113) – era submissão ou morte. A cidade é atacada e se rende: todos os mélios adultos são executados, as mulheres e crianças vendidas como escravos, e colonos atenienses são enviados para ocupar a cidade. Com a detalhada descrição da expedição a Melos, Tucídides demonstra a desintegração de Atenas com a guerra. Com Péricles a cidade defendia a justiça e os ideais de certo e errado, mas agora está obcecada em angariar cada vez mais poder, empregado qualquer meio para obtê-lo – abandonando o espírito de liberdade que a fez grande no passado. Tucídides considera esta a grande perda da guerra e a principal causa da derrota ateniense – uma nação é forte apenas enquanto permanece fiel às suas crenças mais profundas. Atenas traiu sua história no episódio de Melos – um ato de soberba (húbris) que seria fatal.


Contemporâneo dos poeta trágicos Sófocles e Eurípides, Tucídides transparece na narrativa da guerra o ciclo trágico de húbris, seguida de atos impulsivos e da devida punição – Atenas seria em função dos pecados cometidos antes e durante a contenda.


Livro VI (415-414 a.C.) Atenas decide enviar uma grande frota para conquistar a Sicília, mesmo desconhecendo suas dimensões e população – objetivo desta expansão imperialista era ameaçar o Peloponeso e cortar as fontes de apoio a Esparta. Tucídides narra a história dos povos, bárbaros e helenos na ilha (VI-2 a 5).


O objetivo imperialista era disfarçado pelo pretexto de socorrer seus irmãos de raça e aliados que habitavam a ilha. Enviados de Egesta (cidade da Sicília) a Atenas ofereciam dinheiro (pagar pelo custo da guerra) pela ajuda ateniense contra os selinúntios (aliados de Siracusa – inimiga e Atenas) que já haviam expulsado os leontinos de sua cidade – afirmavam que caso os egesteus vencessem, a Sicília cairia nas mãos dos peloponésios. A assembleia ateniense aprova o envio de sessenta naus para a Sicília comandadas por Alcibíades, Nícias e Lâmacos.


Cinco dias depois, em nova assembleia para decidir como equipar as naus, Nícias, que fora eleito no comando tripartite contra sua vontade, faz forte discurso contrário a expedição (VI-9 a 14), denunciado-a como um pretexto para a conquista de toda a Sicília. Questiona de deveriam ser “instigados por estrangeiros” numa guerra que não lhes diz respeito, ainda mais quando ainda existem tantos perigos cerca de Atenas (um acordo tênue de paz com Esparta e a inacabada guerra com os calcídios). Nícias ainda comenta que mesmo uma conquista da Sicília seria uma derrota, dada a dificuldade de manter uma posição territorial desconhecida, extensa e distante. E, finalmente, acusa Alcibíades de visar apenas seus próprios interesses, e não os da cidade, motivado por ambição, egotismo e arrogância.


Alcibíades defende-se (VI-15 a 18), lembra a assembleia de seus feitos passados e do acerto em colocá-lo no comando da expedição, alegando ter sempre agido para engrandecer Atenas. Firma que os povos da Sicília são uma mescla desorganizada que não devem opor muita resistência, passando-se facilmente para o lado dos atenienses. E conclui exortando os ouvintes a não fixar limites a expansão do império, pois fazê-lo seria o começo do fim, já que uma cidade só é forte quando sua visão é ilimitada. Nícias ainda tenta atrasar a expedição demandando maiores preparativos, mas a assembleia está com Alcibíades (“por causa da incontida ansiedade da maioria, os que se opunham permaneceram quietos, receosos de passar por desleais à cidade se votassem contra”).


Na mesma época os bustos de Hermes (blocos quadrados de mármore postado em frente as casas e recintos sagrados) foram todas mutiladas na face numa só noite. Além da grave ofensa, o ato foi visto como mau agouro para a expedição, levantando ainda suspeitas de uma revolução visando abolir a democracia. Alcibíades é denunciado por impiedade através da suspeita por casos passados de mutilações envolvendo jovens embriagados, mas ele discursa em sua defesa, seus inimigos recuam, e as acusações são retiradas. Toda Atenas desceu ao Pireu para ver a partida da expedição para a Córcira, onde as forças restantes dos aliados estavam concentradas.


Notícias da expedição ateniense chegam a Siracusa e uma assembleia é convocada para discutir suas implicações. O primeiro a falar é Hermôcrates (VI-33 a 34) que alerta para o perigo das reais intenções atenienses e sugere enfrentá-los ainda em mar, quando estariam cansados e com poucas provisões restantes. Mas poucos acreditavam num ataque de Atenas e seus apelos caíram em ouvidos moucos. Na sequência fala Atenágoras (VI-35 a 40), refutando o discurso anterior exprimindo os sentimentos da facção popular. Um comandante põe termo ao debate recriminando as acusações pessoais e encarregando os generais de organizarem a defesa da cidade.


Quando a frota ateniense chegava na Sicília, havia clara divergência de opinião entre os três comandantes sobre qual a melhor estratégia a ser adotada – no final decidem pelo plano de Alcibíades de buscar aliança com outras cidades sicilianas para atacar Siracusa – conseguem o suporte de Naxo e Catana. Neste momento chega uma nau de Atenas solicitando o imediato retorno de Alcibíades para ser julgado no caso da mutilação das hermas (o autor indica que seria uma desculpa dos inimigos de Alcibíades para livrarem-se dele). Alcibíades embarca para o retorno, mas desaparece no caminho e oferece seus serviços a Esparta – em Atenas ele é julgado em absência e condenado a morte.


Os atenienses atacaram Siracusa no final do verão. O ataque falha e eles recuam para reagrupar e preparar um novo ataque – Nícias exorta as tropas (VI-68) e começa a batalha. Siracusa luta bem mas é derrotada e a frota ateniense zarpa para Naxo e Catana, onde poderiam passar o inverno. Enquanto isto Siracusa enterra seus mortos e tenta reerguer-se – Hermôcrates levanta os espíritos e assume o comando da cidade. Delegados são enviados a Corinto e Esparta em busca de auxílio.


Atenas tenta conquistar Messene a traição, mas, alertados por Alcibíades (agora trabalhado com os espartanos), os traidores são executados, e os atenienses rechaçados e abatidos regressam a Naxos.


Êufemos, enviado ateniense, tenta aliança com Camarina, enquanto Hermôcrates de Siracusa tenta trazê-los ao seu lado. Ambos discursam diante a assembleia convocada na cidade (VI-76 a 87). Apesar da simpatia por Atenas (viam o crescente poder da vizinha Siracusa como uma ameaça), os camarineus decidem permanecerem neutros.


Enquanto Siracusa prepara-se para a guerra, Atenas tenta angariara mais aliados, forçando alguns a aceitar. Corinto aceita assistir Siracusa, e em Esparta, Alcibíades faz eloquente e malicioso discurso incentivando os espartanos a lutarem contra Atenas. É um dos mais notórios discursos do livro (VI-89 a 92), onde o ateniense convence os espartanos de que sempre foi favorável a eles, e se disse o contrário anteriormente foi para posicionar-se contra seus inimigos em Atenas. Acusa os atenienses que quererem conquistar toda a Sicília, para depois atacar Cartagena, e finalmente destruir Esparta. Afirma amar seu país e esperar vê-lo sob o benevolente poder espartano. Os espartanos aceitam o conselho de Alcibíades em reforçar alguns pontos estratégicos e enviar, sob o comando de Gilipos, tropas para Siracusa. E assim encerrava o décimo sétimo ano do conflito.


No verão de 414 a.C. os atenienses recebem reforços, enquanto Esparta vitoriosamente marcha contra Argos até um terremoto obrigá-los a retrocederem. Sabendo da chegada de reforços do inimigo, Siracusa ataca de surpresa a posição ateniense em Epípolas, mas é derrotada. Em seguida, os atenienses lançam ataque contra Siracusa. Ambos constroem fortificações fora da cidade, Atenas conquistas algumas vitórias mas Lâmacos morre e Nícias é o único comandante remanescente.


A vitória ateniense é eminente, mas Nícias adoece e comete uma série de erros, permitindo Gilipos desembarcar os reforços espartanos. Esparta volta a invadir Argos, destruindo os campos, e Atenas envia tropas para auxiliar os argivos – a trégua com Esparta está quebrada.


Livro VII (414-413 a.C.) Forças espartanas e corintianas, comandadas por Gilipos e Gôngilos respectivamente, chegam a Sicília para auxílio de Siracusa. Ao iterarem-se da aproximação de Gilipos os atenienses preparam-se para a batalha, rechaçando a oferta de trégua dos espartanos. Esparta e seus aliados conquistas vitórias que obrigam Atenas a recuar, mas eles se reagrupam e constroem fortificações – enviados solicitando mais tropas são mandados a Esparta e Atenas.


A carta de Nícias (VII-10 a 15) convence os atenienses a enviarem mais tropas para assisti-lo – uma nova frota, sob o comando de Eurímedon e Demóstenes zarpa de Atenas. Enquanto isto os espartanos decidem guerrear em duas frentes e enviam Ágis para devastar Ática e reforços à Sicília.


Guerreiros trácios se oferecem para ajudar Atenas a soldo, mas esta, financeiramente desgastada com a invasão de Ágis, recusa. Retornado ao seu território, os trácios (povo descrito como semibárbaro) saqueia Micálessos, cruelmente exterminando crianças. Ao saberem da ação trácia, Tebas envia suas tropas e os extermina brutalmente. Ao descrever ambos eventos, Tucídides dramatiza a crescente desumanidade desta guerra.

Receando a nova frota ateniense, algumas cidades sicilianas aliam-se a Siracusa. Batalhas navais se sucedem no golfo de Corinto e no litoral de Siracusa, onde os sicilianos alcançam grande vitória acoplando rostros em suas embarcações – os siracusanos animam-se com a possibilidade de derrotar as forças de Demóstenes.


Os reforços de Atenas e seus aliados chega a Sicília (73 embarcações e, aproximadamente, 5.000 soldados), e reforças peloponenses de igual proporção chegam em socorro de Siracusa – é o maior conjunto de forças reunido em toda a guerra.


Os peloponésios se animam com vitórias iniciais e solicitam suporte das demais cidades sicilianas para aniquilar o exército de Demóstenes. Os atenienses, desgostosos com as derrotas, são afligidos por uma pequena epidemia – Demóstenes propõe a retirada, mas Nícias, antes favorável a isto, diz que a morte é preferível a desonra, no que a acompanhado por Eurímedon e os atenienses permanecem sitiando Siracusa.


Mas a chegada de Gilipos em Siracusa alarma Nícias e os atenienses preparavam-se para a retirada quando um eclipse da lua é interpretado pelos soldados como mau preságio e estes convencem aos generais em aguardarem os três vezes nove dias prescrito pelos videntes.


Satisfeitos com a possibilidade de destruir as forças atenienses, os peloponésios atacam por terra e mar, destroçando a frota ateniense (Eurímedon é morto). Antes da última batalha naval há exortações de ambos lados: Nícias lembra seus comandados que a derrota representaria o fim de Atenas (VII-61 a 64), e Gilipos recorda que os atenienses vieram para escravizar os sicilianos e pede a sua completa destruição para nunca mais voltarem (VI-66 a 68).


O combate naval começa primeiro e a frota ateniense é dizimada – o exército junta-se aos sobreviventes da marinha para uma retirada por terra. Tucídides é implacável na descrição da moral e melancolia dos derrotados: “Aquela era com efeito, a maior reviravolta jamais ocorrida com uma expedição helênica, pois ela, que viera escravizar outros povos, voltava com o temor de ter os seus componentes reduzidos à escravidão, e me vez de preces e hinos, ao som dos quais havia partido na vinda, estava agora regressando sob imprecações inteiramente diferentes; finalmente, seus homens iam como soldados de infantaria em vez de marinheiros, e dependendo de hoplitas em vez de comandar uma frota. (VII-75 e 76)”


Os peloponésios bloqueiam a fuga ateniense. As forças de Demóstenes e Nícia são separadas, e ambas acabam sendo obrigadas a renderem-se, não sem antes serem massacradas: “Os siracusanos permaneciam na outra margem do rio, mais íngreme e lançavam dardos sem parar sobre os atenienses, muitos dos quais bebiam avidamente a água do rio, amontoados em confusão no leito abaulado do mesmo. Alguns peloponésios desciam para a beira do rio, junto à água, e degolavam os soldados, especialmente os que estavam dentro do rio. A água logo se tornou turva, mas mesmo assim era bebida, embora lodosa e tinta de sangue, e muito deles lutavam para consegui-la.” – depois da rendição os siracusanos assassinaram os dois generais atenienses. O prisioneiros atenienses e seus aliados (estimados em não menos de sete mil homens) foram confinados em uma pequena área, onde passaram as piores privações (muitos morreram) – depois de setenta dias todos foram vendidos como escravos, com exceção dos atenienses e seus aliados siciliotas e italiotas.


“Este evento foi o maior de todos desta guerra e, segundo me parece, de todos os eventos helênicos de que há registro – o mais brilhante para os vencedores e o mais funesto para os vencidos. Estes, derrotados totalmente em todos os sentidos e tendo experimentado as maiores desgraças de um modo geral, sofrendo tudo em matéria de desastre, como diz o provérbio; forças terrestres, naus, nada escapou à destruição, e poucos de muitos que eram voltaram a seus lares. Estes foram os acontecimentos na Sicília.”


Livro VIII – inacabado (413-411 a.C.) Os cidadãos em Atenas mal podem acreditar nos relatos do sucedido na Sicília. Consternado, voltaram-se contra os oradores que defenderam a expedição, como se eles próprios não tivessem votado a favor da mesma, e também encolerizaram-se com os intérpretes dos oráculos que disseram ser possível conquistar a Sicília. Começaram a temer uma invasão dos sicilianos, pois viam-se sem hoplitas, cavalarianos, naus, tripulação ou fundos no tesouro suficientes para enfrentarem o desafio. Mesmo assim, estavam determinados em defender a cidade, ou seja, “fizeram o que o povo costuma fazer: premidos pelo pânico, estavam afinal dispostos a agir disciplinadamente. E tal como pensaram, assim fizeram, e o verão terminou.”


A notícia do desastre na Sicília espalhava-se pela Grécia. As pólis neutras, mesmo que não convidadas, sentiam que deveriam marchar espontaneamente contra Atenas, pois todos acreditavam que Atenas, se vitoriosa na Sicília, se voltariam também contra eles – assim, os abutres ajuntavam-se para atacar a fera ferida.


Esparta estava jubilante, poucos anos antes temia por sua própria sorte, mas agora fazia planos para dominar toda a Grécia. Ágis, rei lacedemônio, começa a unir uma grande força para a campanha. As preparações de Atenas são parcialmente prejudicadas pela revolta de parte de seus aliados: Eubéia, Lebos, Quios e Eritras. Até Tissafernes, rei persa, negocia com os espartanos (um acordo será firmado, mas conselheiros espartanos desaprovarão o tratado).


No começo do verão (412 a.C.), Quios, temerosa pela reação de Atenas a sua insídia, advoga por um ataque imediato. Os planos de batalha são traçados, mas o ataque é adiado em função dos Jogos Ístmicos (em Corinto). Nem mesmo a guerra poderia suspender os jogos, a trégua era estabelecida e ambos lados participavam dos jogos.

Durante os jogos os atenienses inteiram-se do iminente ataque e conseguem bloquear a frota espartana no porto de Pireon, em Corinto – Alcamenes, comandante espartano, é morto. Os atenienses também derrotam uma frota peloponésia que regressava da Sicília. Atenas parece retomar o controle da situação.


Alcibíades e Calcideus lideram uma expedição contra Atenas na expectativa de finalmente arruinar a cidade. Os peloponésios desembarcam em Mitelos, os atenienses conseguem uma série de vitórias mas são forçados a recuar diante da chegada da frota siracusa, e seus inimigos atacam e conquistam Íasos.


Durante o inverno seguinte os peloponésios solidificam sua posição em Íasos, enquanto Atenas sitia Miletos. Batalhas se sucedem em Quios e Lesbos. As forças peloponésias não conseguem o intento de destruir Atenas e, com a escassez de recursos financeiros de ambos lados, a guerra parece chegar a um impasse. Os peloponésios navegam até Rodes e esta, temerosa da destruição, passa para o lado dos espartanos.


Esparta começa a suspeitar de Alcibíades e incumbem o almirante lacedemônio Astíocos de matá-lo. Mas Alcibíades descobre o ardil e foge para o acampamento persa, buscando a proteção de Tissafernes – Alcibíades torna-se conselheiro dos persas e imediatamente começa a operar contra Esparta. Alcibíades convence os persas a manobrar o desgaste da guerra entre Esparta e Atenas até um impasse se imponha, quando então os persas entraria na arena e dominaria a situação – Alcibíades visava tornar-se governante fantoche em Atenas.


De fato, quando os atenienses em Samos inteiram-se da influência de Alcibíades sobre os persas, seus capitães fomentam a ideia de subverter a democracia – o cenário para a destruição da democracia em Atenas está armado. Os atenienses chegaram a ser convencidos de ir adiante com o plano, mas houve falta de acordo com os persas, e o povo sentiu-se uma vez mais enganado por Alcibíades.


Uma série de vitórias espartanas colocaram Atenas novamente contra a parede, e a conspiração oligarca ganhou novo ímpeto. Aqueles que baniram Alcibíades foram assassinados, outros democratas tiveram o mesmo destino, e o conselho foi aterrorizado – os demais calaram-se por medo e desconhecimento do real número de conspiradores. Qualquer um que levanta-se oposição era morto, ninguém procurava pelos assassinos ou buscava justiça, e o povo permanecia inerte, cuidado cada um de sua segurança pessoal (VIII-66). Tucídides indica, uma vez mais, que as democracias não morrem por fatores externos, mas suicidam-se mediante a perda da virtude entre seus cidadãos.


As forças de Pisandro, aliado de Alcibíades, chegam em Atenas e, sem encontrar resistência destoem o governo local, instalando o regime/comando dos Quatrocentos escolhidos por eles – a proposta é aprovada sem nenhum voto contrário. Em seguida os inimigos da nova oligarquia são assassinados.


Os Quatrocentos, enquanto tentavam negociar uma trégua com Esparta, enviaram delegados a Samos para assegurar ao exército ateniense da solidez do novo governo. Porém, alguns generais, membros do partido popular, recusaram-se a reconhecê-los – planejando retornar a Atenas e depor a oligarquia, mas novas batalhas puseram este plano de lado. Os generais decidem então convidar Alcibíades para juntar-se a eles, convencidos que precisariam do apoio persa para recuperar Atenas.


Os Quatrocentos tentam um acordo com Tissafernes, o que fatalmente colocaria Atenas nas mãos dos persas. Mas Alcibíades, desejoso em acumular mais poder, defende a queda dos Quatrocentos e a instauração de um novo governo. Pouco depois os Quatrocentos são retirados do poder, sendo substituídos pelos cinco mil cidadãos mais ricos (plutocracia), formando um governo de meio-termo entre a oligarquia e a democracia.


A próxima grande batalha ocorre no Helésoponto com vitória ateniense. Ao tomar conhecimento do fato, Tessafernes envia sua frota e tropas ao Helésponto. Tucídides escreve sua última frase: “No fim do inverno subsequente a este verão terá alcançado o vigésimo primeiro ano…” – ainda faltavam seis anos para o enceramento da guerra.

O restante da guerra nos chegou através de relatos posteriores de Xenofonte (430-355 a.C.), Diodoro Sículo (90-30 a.C.) e Plutarco (46-120 d.C.).


A guerra continua com Alcibíades a frente das forças atenienses. Em 410 a.C. a democracia é restaurada em Atenas, graças a revolta fomentada por Esparta entre os aliados atenienses. Neste mesmo ano Alcibíades quase destrói a frota espartana na batalha de Cízico – Atenas novamente ganhava controle da situação. A paz é oferecida a Atenas, mas os radicais liderados por Cleofonte se opõem – a guerra continua.


Em 404 a.C. a frota ateniense é quase dizimada pelo comandante espartano Lisandro, quebrando o espírito ateniense. Atenas e Corinto querem arrasar a cidade de Atenas, mas Lisandro os impede lembrando os feitos de Atenas contra a invasão persa. Mas os termos definidos por Esparta foram severos: derrubaram as muralhas da cidade, tomaram todas as possessões ultramar, e a frota ateniense foi reduzida a doze embarcações.


De 404 a 371 a.C. Esparta reinou na Grécia, mas sua ambição levou Tebas, Corinto e Atenas (em rápida recuperação) a formarem uma nova aliança liderada por Tebas. Em 371 a.C. Tebas, liderara por Pelópidas e Epaminondas, derrota Esparta na batalha de Leuctra, e assume a liderança da Grécia.


Agora, com Tebas como grande potência, era a vez de Esparta e Atenas unirem-se contra ela. Tebas é derrotada em na batalha de Mantinea em 362 a.C., onde morre Epaminondas. Nos quatro ano seguintes a Grécia colapsa, enquanto a semigrega Macedônia cresce sob o comando do rei Felipe. Em 338 a.C. Felipe derrota a coalizão grega e organiza a Liga Helênica, incluindo a maioria das pólis gregas (menos Esparta).


Felipe morre quando preparava-se para avançar contra os persas. Os estados gregos tentam revoltarem-se mas são contidos por Alexandre, filho de Felipe, fundador da civilização helênica e a maior personagem do mundo antigo.


Notas

  • Tucídides nasceu provavelmente entre 460 e 455 a.C., no distrito de Halimunte em Atenas. Morreu por volta de 400 a.C. sem ter completado sua única obra, a História da Guerra do Peloponeso.

  • Aristocrata, comandou as tropas atenienses na Trácia em 424 a.C., onde a derrota impôs-lhe degredo de vinte anos.

  • A guerra do Peloponeso durou vinte e sete anos (431 a 404 a.C.), envolvendo praticamente todo o mundo helênico e outras áreas mais remotas com as quais a Hélade mantinha relações – a narrativa de Tucídides encerra-se no vigésimo primeiro ano da conflagração (411/410 a.C.).

  • Entre 461 a.C. e 446 a.C. Atenas e Esparta lutam aquela que ficou conhecida como Primeira Guerra Peloponésia. Péricles, radical democrata,é eleito na assembleia ateniense e conclui acordos anti-Esparta com Argos e Tessália. Em 461 a.C. democratas assumem o controle político em Mégara e fazem aliança com Atenas – Esparta declara guerra por Mégara ser rota estratégica de saída do Peloponeso. Contratempos no Egito forçam Péricles a buscar o armistício com Esparta em 451 a.C.. Quando exilados restauram a oligarquia na Boécia e Mégara e retornam à aliança espartana, Péricles e o rei espartano Plistóanex preferem celebrar a paz – Atenas reconhecia a perda da Boécia e Mégara, e Esparta reconhecia a integridade de Atenas e seu império egeu.

  • Xenofonte e Diodoro Sículo são as principais fontes históricas para os seis anos remanescentes da guerra, porém longe do brilho narrativo de Tucídides.

  • Foi a primeira grande conflito entre estados ocidentais com governos constitucionais eletos por cidadãos livres.

  • O autor dá ênfase na essência dos fatos e os sentimentos de seus personagens, penetrando no seu íntimo e expondo as verdadeiras razões de sua conduta com franqueza às vezes chocante.

  • O rei espartano na deflagração da guerra, Arquídamos, era amigo e admirador de Péricles. E dá várias amostras de moderação e sabedoria ao longo dos combates.

  • Atenienses e espartanos eram gregos vivendo em cidades-estado (pólis), adoravam os mesmos deuses, ligados às mesmas tradições, e guerreavam com hoplitas. Mas também há diferenças entre a iônica Atenas e a dória Esparta. Além da diferente origem tribal, Atenas era um democrático poder naval, ao passo que Esparta constituía-se uma oligarquia de poder terrestre; e enquanto Atenas estava mais aberta a correr riscos, Esparta era em tudo conservadora.

  • A principal forma de batalha era de infantaria com hoplitas: guerreiros (cidadãos) trajando armadura (peito e costas), caneleira e capacete, tendo lança, espada e adaga como armas, e escudo (hoplon – feito de madeira e reforçado de bronze) para proteção. O escudo era preso ao ombro, com o antebraço passando por uma faixa no meio do escudo e a mão segurando outra faixa na extremidade oposta ao ombro – com isso escudo era maior que qualquer outro naquele período. O sucesso da falange demandava grande disciplina dos soldados. Durante a Guerra do Peloponeso, Atenas e Esparta incorporaram cavalaria e infantaria ligeira (sem armadura), e contrataram soldados profissionais.




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