Como Ler Livros de Mortimer Adler



A leitura deve ter como objetivo a aquisição de cultura no sentido que Cícero empregava: como o cultivo da alma. Adquirir cultura é ampliar o horizonte de consciência, é adquirir os melhores exemplos e segui-los, é amadurecimento para enfrentar o devir. E a palavra escrita é o principal meio de auferir cultura.


Hugo de São Vítor (1096-1141) em Didascálicon, da Arte de Ler, estabelece as três regras mais necessárias para leitura: saber o que se deve ler, em que ordem se deve ler, como se deve ler.


Devemos dar ênfase à leitura denominada por A. D. Sertillanges (1863-1948) como de fundo (leitura de formação). Leitura que contribui na formação do leitor, visando seu crescimento e amadurecimento. Os grandes clássicos (obras que sintetizam pela primeira vez uma determinada situação humana), as obras grandes pensadores, e os livros dos bons historiadores apresentam este potencial.


Devemos inicialmente buscar junto aos sábios indicações sobre o que ler. Adler anexou ao seu livro uma lista de autores e títulos recomendados. A História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux também trás valiosas indicações de leitura. Depois, construir seu próprio roteiro de leitura fará parte do projeto de aquisição de conhecimento.


A ordem de leitura deve respeitar a idade do leitor, pois crianças e adolescentes terão dificuldade com determinadas obras. Mas sempre devemos buscar ler livros que aparentam estar um pouco acima de nossa presente capacidade.


Adler define quatro formas de ler um livro:

  • Elementar: leitura simples e corriqueira,constitui-se me compreender o enunciado verbal de um texto.

  • Inspecional: leitura “transversal” e superficial em busca de informação rápida. Útil em pesquisas, requer destreza do leitor.

  • Analítica: processo de apossar-se do conteúdo do texto, incorporando-o ao conhecimento do leitor. É a verdadeira leitura.

  • Comparativa: o leitor procede a leitura de muitos textos e livros simultaneamente, correlacionando-os entre si e com o tema em questão. (leitura sintópica). Aplica-se particularmente à literatura expositiva (ver abaixo)l.


Adler divide os gêneros literários em dois grandes grupos: Imaginativos (Ficção) e Expositivos (Não Ficção). A literatura imaginativa é dividida em Verso, Teatro e Prosa. E as obras expositivas podem ser Práticas (voltado a um conhecimento específico e prático) ou Teóricas (por sua vez divididas em História – incluindo Biografia, Ciência, e Filosofia – incluindo Tradição).


A literatura imaginativa é uma forma mediata de comunicação, imitação da vida que permite a identificação com as personagens. Ela é mais comovente que a Filosofia, pois é percebida e concretizada intensamente no individuo, apelando também à imaginação e sentimentos, e não somente ao intelecto. E mais filosófica e importante que a História porque é universal e não singular, representando o que poderia ser e não apenas o que foi – permite a dedução da natureza íntima de algo tal qual percebido pelo artista.


Pergunta que devemos nos fazer depois de ler uma obra imaginativa:

Que modo de ver a vida , que discernimento é obtido a partir da história?

ue problema o autor apresentou e resolveu?

O que ficou sem solução?

A história deu vida a personagens ficcionais ou históricos?

Como são os personagens, como descrevê-los?

Suas ações e diálogos são apropriados?

Quem são as pessoas mais interessantes e por quê?

Quais pessoas e incidentes o autor parece aprovar/desaprovar, por quê?

Qual parece ser a sua filosofia de vida?

Qual a ideia dominante da história?

Ela deixou uma impressão isolada?

Ela caracteriza outras épocas, civilizações ou lugares?

O estilo é característico?

Quais influências literárias o autor recebeu?

O que o autor tentava fazer com esta obra?

Ele conseguiu o seu intento? Valeu a pena tentar?


Os subgêneros da Prosa compreendem: (a) Romance: narrativa longa e complexa onde planos heterogêneos se entrelaçam em torno de várias personagens (foco na interação), (b) Novela: narrativa média unificada por uma só trama (foco numa única sequência), (c) Conto: narrativa curta, tensa e surpreendente (foco no desfecho), e (d) Crônica: “conto sem enredo”, segundo Viktor Chklovsky (1893-1984) (foco no momento). Para Júlio Cortazar (1914-1984): romance é “filme”; conto “fotografia”. O romance “ganha por pontos”, o conto por “nocaute”.


Conselhos e recomendações a cerca da leitura dos diferentes gêneros literários:


Literatura Imaginativa Poesia deve ser lida sem interrupções e em voz alta. Peças de teatro devem ser lidas como se as estivéssemos dirigindo. Romances devem ser lidos como se estivéssemos projetando um filme em nossa mente. Ficção deve ser lida preferencialmente de um só fôlego. Deixe-se envolver na história, deixando, se for o caso, a crítica para depois.


Literatura Expositiva Nos livros práticos o objetivo, biografia do autor e meios que ele indica são fundamentais. Para compreender determinado período histórico é preciso ler mais de um livro sobre ele. Ler história para entender todas as épocas e não apenas a que você está estudando. O bom historiador combina o talento de um contador de história e de um cientista. Ler biografias e autobiografias como história. Uma autobiografia ou biografia é a história de uma pessoa real. Para ler ciência é indispensável definir o problema que o autor tentou resolver. Ciência não é cronotópica (específica de uma lugar ou tempo). A ciência é basicamente indutiva, logo é preciso acompanhar a “experiência” do autor. A ciência e a matemática têm linguagem própria que é preciso conhecer. Ciência Social é perigosa, pois interpretações equivocadas mudam o mundo. A filosofia tem dois grandes grupos: teórica ou especulativa e prática ou normativa. Até 1930, filosofia era escritas para o leitor em geral, depois disso para outros filósofos. Nem todas as perguntas que os filósofos se fazem são filosóficas. Em filosofia mais importante é descobrir o problema que o autor quer resolver. A filosofia também utiliza terminologia específica. Filosofia lê-se pensando sobre os mesmos problemas que o autor quer resolver. É fundamental ler outros livros sobre o mesmo tema filosófico. Procure os princípios reguladores do autor filosófico e verifique se ele é fiel a eles. Deixe para questionar o autor apenas após a leitura completa do livro.



Notas

  • Mortimer Adler (1902-2001) nasceu em New York, USA.

  • Filósofo, editor e educador, Adler advogou pela educação de adultos e pelo estudo dos grandes clássicos do Ocidente.

  • Editou os 54 volumes da coleção Great Books of the Western World, e concebeu o índice das grande ideias nos dois volumes do Syntopicon.

  • Escreveu, entre outros, Aristóteles Para Todos (1978), Six Great Ideas (1981) e The Paideia Proposal (1982).

  • Como Ler Livros foi publicado em 1940, e revisado e ampliado em 1972.

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