Cândido de Voltaire



Personagens Principais Cândido – filho ilegítimo da irmã do Barão, apaixonado por Cunégonde Pangloss – professor da corte do Barão (caricatura de Leibniz) Cunégonde – filha do Barão de Thunder-ten-Tronckh Personagens Secundárias Martinho – filósofo holandês, maniqueísta Velha – empregada de Cunégonde Cacambo – valete de Cândido na América Barão de Thunder-ten-Tronckh – segunda geração do baronato, irmão de Cunégonde

Interpretação Voltaire era deísta e newtoniano. Em Cândido, uma paródia dos romances de aventura, Voltaire explora a questão, então em voga, do mal no homem. Crente na capacidade humana de alcançar a perfeição, Voltaire ataca o maniqueísmo da personagem Martinho e, principalmente, a teodiceia de Leibniz representada pelo patético professor Pangloss.


O utópico ideal humano de Voltaire nasce com a ilusão cartesiana de que somente nossas dúvidas são reais, e deságua no mecanicismo newtoniano onde o mundo pode ser totalmente explicado por formulas matemáticas. É a rebelião gnóstica da criatura que acredita dominar todos os processo e tudo conhecer, pronta para dispensar seu Criador – “temos que cultivar nosso jardim” (diz ao final Cândido).


Carregado desta prepotência epistemológica, o homem revolta-se contra as agruras e maldades do mundo, e deseja decifrar o homem como fez com o movimento dos planetas, para então redesenhá-lo a perfeição. Tal pensamento absurdo permeou a desastrosa Revolução Francesa, que depois de dez anos de terror e total destruição do país, apelou a um ditador (Napoleão) para saquear a Europa, expandido a destruição para todo o continente. E depois influenciou o pensamento marxista e bolchevista, levando milhões à morte e aterrorizando o mundo até hoje.


Com Leibniz já falecido há décadas e incapaz de defender-se, Voltaire constrói em Pangloss um “homem de palha”, atribuindo a Leibniz um pensamento tosco para facilitar seu ataque – Voltaire foge da discussão séria via a bazófia.


Diante de cada desastre ocorrido com Cândido, Pangloss repete o bordão de que este é “o melhor dos mundos possíveis” – repercutindo o que era caracterizado como o irracional otimismo de Leibniz. Nada mais longe da realidade.


Primeiro Leibniz estabelece o princípio dos discerníveis pelo qual duas coisas não-abstratas nunca são idênticas, mesma uma máquina produz peças similares em momentos distintos ou moldes diferentes. Se duas coisas fossem idênticas elas seriam a mesma coisa, uma única coisa. Portanto, a imperfeição do mundo é uma condição para sua existência – se fosse perfeito seria o próprio Deus, i.e. não existiria (Ensaio da Teodiceia). A imperfeição deste mundo é uma espécie de preço que pagamos para que possamos existir.


Leibniz não nega a existência do mal. Afirma que este é o “melhor mundo possível” como a única estrutura viável – o que fazemos neste mundo é por nossa conta e risco (livre arbítrio).


Notas

  • François-Marie Arouet, Voltaire (1694-1778) nasceu em Paris, França.

  • Expoente do Iluminismo francês, Voltaire foi beletrista (escritor, poeta e dramaturgo). Crítico mordaz da monarquia e da religião, ele foi principalmente um satírico agitador político e cultural.

  • Participou na confecção de Encyclopédie (1971-80) – conjunto de verbetes que não visavam a descrição dos fatos e realidade, mas sim reescrever a história e atacar a tradição em linha com o pensamento gnóstico dos Filósofos (grupo formado por Diderot, Voltaire, Rousseau, Lederc e outros).

  • Cândido foi escrito em 1759.

  • Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) nasceu em Leipzig, Alemanha. Filósofo e matemático, publicou Ensaio da Teodiceia em 1710.