A Pele de Onagro de Honoré de Balzac



Personagens Principais Raphaël de Valentim – estudante de direito, pobre e ambicioso Rastignac – aventureiro, jogador, amigo de Raphaël Foedora – condessa viúva, desejada por Raphaël

Personagens Secundárias Pauline de Valentim – filha da senhoria de Raphaël, depois sua esposa Emile – amigo de Raphaël, escuta e ri de sua história Madame Gaudin – mão de Pauline

Interpretação É difícil ter simpatia pelos heróis de Balzac. Luciano de Ilusões Perdidas, Eugène de Pai Goriot e Raphaël de A Pele de Onagro são ambiciosos, incapazes de entender a realidade da vida e, por isso, ressentidos sociais. Incapazes de entender que a reabsorção das circunstâncias é o destino concreto do ser humano (“Yo soy yo y mi circunstancia.” – Ortega y Gasset).


Querem ser e ter o que não são ou têm sem fazer o necessário esforço. Suas ambições são sempre mundanas: desejam fama, luxo e posição social. O amor de Raphaël por Fedora reflete estes desejos. No epílogo, o narrador deixa claro que Fedora representa a Sociedade, e é isso que o herói quer conquistar, quer conquistar a Terra toda. Porém ele não admite que seus desejos não se transformem em realidade e prefere morrer, numa demonstração de absoluto vazio espiritual.


Ao deparar-se com os poderes do talismã busca alucinadamente realizar aqueles desejos, apesar dos avisos do dono da loja, parando apenas quando se torna evidente a situação mortal na qual se encontra. Não há vida nos desejos ilegítimos (confronto com os desejos legítimos – a vida viável), ou, “não há salvação sem a legitimidade do desejo”.


No final, Raphaël valoriza o amor sincero de Pauline e a vida simples levada pelo químico ou pelos montanheses, mas é tarde demais. Ele poderia ter tido tudo isso, mas preferiu seguir seus desejos ilegítimos.


As personagens balzaquianas parecem escravos dos outros, suas vidas são definidas por como aqueles desejam que estes os vejam. E demonstram ressentimento quando a realidade não coincide com a imagem que projetam de si mesmos. Raphaël é um exemplo de ressentido social amargurado com a não realização dos seus desejos ilegítimos.


O narrador explicita no epílogo que Pauline, a Felicidade, é apenas uma quimera. Não no sentido cristão de que a felicidade não é deste mundo, e sim como crítica a sociedade: seria impossível a felicidade neste meio (quando se vê sem esperança Raphaël vai buscar algum conforto na natureza e longe das pessoas). Mas que caminho nos aponta o narrador? Se a felicidade é uma quimera, se todos somente visam seus próprios interesses (o narrador não acredita na piedade ou na ternura), e se a sociedade é uma farsa, o que devemos buscar na vida terrena?


Balzac sempre é apresentando como o grande interprete da sociedade de seu tempo. Porém parece focar somente seu lado negativo.



Notas

  • Honoré de Balzac (1799-1850) nasceu em Tours, França.

  • A Comédia Humana de Balzac é composta de 93 obras (romances, novelas, contos e ensaios) concentradas em Estudos de Costumes (as outras classificações são Estudos de Filosofia e Analíticos). Os Estudos de Costumes dividem-se entre Cenas da Vida Privada, Provinciana, Parisiense, Política, Militar e Campestre.

  • Suas principais obras são: Ilusões Perdidas (1843), Pai Goriot (1834), Eugénie Grandet (1833), Pele de Onagro (1831), Prima Bette (1846) e História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau (1837).

  • Balzac não é um escritor profundo, mas conta melhor que ninguém como funcionava a mentalidade da nova classe burguesa, não aristocrática, e com forte interesse nos aspectos econômicos – é o rei da narrativa psicológica deste francês.

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