A Cantora Careca de Eugène Ionesco


Personagens Principais Sr. e Sra. Smith – casal classe-média do interior da Inglaterra Sr. e Sra. Martin – casal amigo dos Smith Personagens Secundárias Mary – empregada dos Smith Capitão – capitão dos bombeiros

Interpretação Diferentemente de O Rinoceronte, vivamente aclamada pelo público, a curta peça A Cantora Careca de Ionesco teve reconhecimento restrito a boêmia artística. Afinal, a peça praticamente não tem enredo e é incompreensível.

Ionesco explica que a ideia da peça nasceu quando ele, tentando aprender inglês, observou que as frases do livro didático eram como pequeno axiomas trocados entre um casal (os Smith), evoluindo posteriormente a platitudes mais complexas na conversação com outro casal (os Martin) que se somava ao primeiro. Copiando as frases em seu caderno de exercícios começou a jogar com as mesmas, desarticulando as conversas e descompondo as personagens. Surgia diante dele uma paródia do próprio teatro, ou o anti-teatro.

As frases feitas, os clichês dos livros didáticos de um segundo idioma representavam o automatismo da linguagem, do comportamento humano, o falar para nada dizer, a mecânica do quotidiano e a ausência de vida interior. Ao quebrar aquela estrutura, Ionesco acredita ter apresentando em A Cantora Careca a tragédia da linguagem, um círculo vicioso de incomunicação.

A quase falta de conteúdo e adereços seria a maneira do autor mostrar a monstruosidade (do nosso tempo) sem apresentar os monstros, revelando abruptamente as evidências dissimuladas. Como se em meio à peça, ainda pasmado com a falta de sentido, num flash nos vem a revelação sobre do que se trata e seu paralelo com a vida real.

Hoje a tragédia da linguagem é mais grave que há sete décadas, quando A Cantora Careca foi encenada pela primeira vez. O relativismo, os altos índices de analfabetismo funcional, a reação pavloviana às meras palavras e a incapacidade de uma discussão pública racional parecem saídas de uma peça de Ionesco.

Degradação da linguagem não é apenas a perda de acurácia gramatical e pobreza de vocabulário. Mas sim a perda do domínio da capacidade de verbalizar os próprios sentimentos e experiências. O homem é o único ser com capacidade de expressar-se racionalmente, a perda desta capacidade é uma redução de sua própria humanidade.



Notas

  • Eugène Ionesco (1909-1994) nasceu em Slatina, Romênia. Mas é considerado um autor francês, pois escrevia neste idioma.

  • Ionesco era ortodoxo praticante rigoroso, porém participou da Patafísica. Seu pai era um autoritário que acreditava ter o Poder sempre razão.

  • Era inimigo de Bertold Brecht por usar o teatro para proselitismo de ideologias políticas. Também não simpatizava com Sartre.

  • Preferia ler as peças a vê-las encenadas.

  • O Rinoceronte, encenada pela primeira vez em 1960, é sua obra mais conhecida. Mas A Cantora Careca (encenada em 1950 e publicada em 1954) é a peça fundadora do Teatro do Absurdo.

  • Não há nenhuma cantora na peça, muito menos careca. Ionesco pensou nomear a peça A Hora Inglesa ou Loucuras do Big-Ben, mas o diretor da primeira encenação (Nicolas Bataille) recomendou não faze-lo para evitar que a rotulassem de uma sátira aos ingleses. Durante os ensaios um autor equivoca-se e pronuncia “cantatrice chauve” no lugar de “institutrice blonde”, e assim nasceu o nome da peça.

  • Teatro do Absurdo é o mais importante movimento da dramaturgia do século XX, onde se apresentava o inesperado e buscava-se surpreender o espectador. Com todo movimento artístico moderno banalizou-se e perdeu-se.

  • Ionesco e Samuel Beckett foram os expoentes do Teatro do Absurdo.