Vampiros e heróis


Vampiros estão na moda. Nas livrarias, no cinema e na TV multiplicam-se suas histórias. É raro não ter um livro protagonizado por vampiros na lista dos dez mais vendidos nas livrarias. Já houve rede de cinema vendendo ingressos para um filme de vampiros com mais de um mês de antecedência. Nos canais de televisão o sangue não corre menos: várias séries como Vampire Diaries, True Blood e Blood Ties também estrelaram caninos proeminentes.

Não posso dizer que isso seja uma novidade. Desde que as folclóricas histórias sobre o vampiro moderno surgiram no século XVIII no leste europeu, este personagem tem povoando o imaginário popular. No início ele incitava medo nos mais inocentes e ignorantes, mas com o tempo sua imagem foi se modificando.

A exploração comercial das histórias folclóricas foi transformando-o num misto de mau, grotesco, engraçado e até bom samaritano. Mas não deixa de chamar atenção como as novas histórias de vampiros cada vez mais enaltecem esta entidade folclórica. Do mal aterrorizante a ser eliminado, o vampiro mudou de papel. Na maioria dos casos ele é agora um ser atormentado com sua natureza e voltado para o bem. O monstro cedeu lugar ao herói.

Herói? É isso mesmo, um herói bem apropriado aos nossos tempos. Se olharmos superficialmente, não há como negar que os atuais jovens bem que gostariam de ter superpoderes, não envelhecer jamais, viver na balada e dormir o dia todo.

Brincadeira à parte creio que a adequação do vampiro ao momento atual apresenta razões mais profundas. Simbolicamente o vampiro evoca o apetite de viver, que renasce tão logo é saciado em se satisfazer em vão. E ainda é o ser que enquanto não se ver responsável por seus próprios fracassos, responsabiliza e acusa o outro. Não é o espelho da nossa sociedade? Esvaziado de transcendência, o homem entregou-se aos seus vícios, acredita ter todos os direitos sem nada dever, e, como uma criança mimada, demanda que os outros (na figura do Estado) zelem por ele.

O homem cedeu lugar ao monstro