Trópico de Câncer de Henry Miller



Personagens Principais Henry Miller – escritor, quase sempre desempregado, vive de favores em Paris, narrador Fillmore – jovem do serviço burocrático com dinheiro disponível Carl - escritor, amigo do narrador, trabalha no mesmo jornal que Miller Van Noren – escritor, acredita-se filósofo, trabalha no mesmo jornal de Miller Collins – marinheiro, conhecido de Fillmore, pedófilo Mona – esposa de Miller que segue no EUA (June Miller) Boronski – aparentemente o sugar daddy de Mona (Roland Freedman) Personagens Secundárias Bóris – escritor russo, anfitrião do narrador em Vila Borghese Nanantate – hindu que dava guarita para o narrador em Paris em troca de serviços domésticos Irene – senhora rica que se corresponde com Henry e Carl Peckover – trabalha no jornal e num consultório de dentista (dentadura postiça) Tânia – uma das amantes do narrador, esposa de Sylvester (dramaturgo) Macha – princesa russa Ginette – moça engravidada por Fillmore

InterpretaçãoI start tomorrow on the Paris book: First person, uncensored, formless—fuck everything!” – Henry Miller em carta para um amigo americano (Emil Schnellock) em agosto de 1931

...isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza...” – o narrador descrevendo Trópico de Câncer


Impossível falar de Trópico de Câncer sem falar de Henry Miller – ele não apenas é o narrador de suas próprias experiências (obviamente romanceadas) como se considera, segundo Otto Maria Carpeaux, o centro do mundo.


Miller começa a escrever Trópico de Câncer aos 40 anos de idade (já tinha uma filha de12 anos a quem não via há 7 anos). Há dez anos tentava ser publicado e dedicava-se exclusivamente a literatura há sete anos – abandonando pela mulher que amava (sua segunda esposa Juliet Edith Smerth ou June Mansfield) vivia de esmolas e favores. Podemos entender a definição prévia do livro escrita ao amigo como o desabafo de quem não tem mais nada a perder e vai dar uma última cartada.


Transfere todo sua desilusão e desespero para o mundo, é o mundo e não ele que tem um problema. Tem grande consideração por sua própria obra, acreditando estar inovando e transcendendo na arte da escrita – mais pela temática do que pelo estilo. Coloca-se como um ser neutro, no inviável papel de quem observa o mundo como se não fizesse parte dele. O artista (como ele) é um ser especial: “ ...sou inumano ...porque meu mundo transbordou ...as fronteiras humanas, ...ser humano parece uma coisa pobre, triste, miserável, limitada pelos sentidos, restringida pelas moralidades e pelos códigos”. Daí talvez advenha, junto com a revolta por sua condição de penúria, o fato de não demonstrar consideração por ninguém, incluindo aqueles que o ajudam: “Não, felizes baratas, vocês não me estão incomodando. Vocês estão me alimentando.” – “todos labregos de aparência imbecil.” Segundo seu biografo (Robert Ferguson em Henry Miller: A Life), Henry Miller exigia que aqueles ao seu redor reconhecessem sua superioridade, com pouquíssimas exceções a esta demanda (como o escritor inglês Lawrence Durrell).


Tudo soa falsamente exagerado, objetivando escandalizar, como afirmar que todas as universitárias na década de 20 ficavam “grávidas uma vez ou outra”, a profusão de sexo inter-racial, a pedofilia de Collins, o interesse de Carl pela mãe da adolescente (15 anos) que namorou, compartir as amantes entre os amigos, entre outras tantas. Também abusa de figuras de linguagem forçadas que pouco ou nada despertam da experiência do leitor – “A manteiga... tem o gosto do dedão do pé de um morto” – feitas mais para chocar que descrever uma cena ou sentimento e envolver o leitor.


O desprezo pelos EUA e as atividades econômicas (considera o trabalho no jornal indigno, mas entende como apropriado pousar para fotos pornográficas – “ ...tão digno como o de ganhar o pão cotidiano.”), e o pacifismo de folhetim alinham-se com o discurso socialista de sua juventude militante. Vê o papel do artista em linha com a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt: “...a tarefa ...imposta a si próprio pelo artista é derrubar os valores existentes”., “Estou aqui para criar uma febre e um fermento.”, “Estamos puxando todo o mundo para baixo conosco. Não sabemos por quê. É o nosso destino. O resto é pura merda...”.


Ao final do romance o narrador não admite que Fillmore tenha a atitude correta de assumir a consequência pelos seus atos e ajuda-o a fugir. E, pela primeira vez, demonstra sentir-se em paz e confiante quando tem no bolso os 2.875 francos roubados de Ginette.


Henry Miller faz questão de não enxergar o geral, exacerbando a individualidade. Sofreria, no conceito de Constantin Noica, de acatolia: a recusa de participação no Geral (ignorância consciente do Geral) É a doença predominante no mundo moderno (anglo-saxão). O que interessa é ganhar dinheiro, fazer coisas (no caso de Miller a perversão sexual – bode de Quimera). O resto é filosofia e poesia. Mundo de prosperidade econômica, mas sem essência, sem relação com o cosmos. Não buscam mais o sentido das coisas e consomem sensações imediatas e materiais (“Eu sou.” diz o narrador no livro – “ o mundo ao meu redor está se dissolvendo” – “Encontrei Deus mas ele é insuficiente. Só espiritualmente é que estou morto. Fisicamente estou vivo. Moralmente estou livre.” (“Deus está morto, então tudo é permitido.” – Ivan Karamázov)). Exemplo de acatolia na literatura: Don Juan de Molière.


Apesar de ser do Brooklyn, Miller parece ter vivido intensamente a licenciosidade sexual que emanava de Greenwich Village na década de 20 (teve um bar ilegal no bairro em 1927). Ter como ídolo um negro socialista está em sintonia com a Harlem Renaissance atiçada pelos intelectuais brancos ávidos de usar a irresponsabilidade sexual do negro como desculpa para liberar seus próprios desejos – combater a moral por trás da white man’s law. A obra de Miller funcionou, tal qual a psicanálise, como um alívio para a culpa de uma sociedade cada vez mais permissiva – influenciando os autores da geração Beatnik e o movimento hippie (a proibição da publicação de seus livros deve ter ajudado a propagar sua fama). Sua lista de gurus é recheada de fraudes como Madame Blavatsky (Teosofia), L. Ron Hubbard (Cientologia) e Lobsang Rampa (Paranormal – suposto monge tibetano que na realidade era um encanador inglês). Ao final de sua vida Henry Miller dizia-se gnóstico dado que planeta Terra seria um “erro cósmico”.


Os liberais viam no foco sexual de Miller uma busca espiritual por meios menos ortodoxos, seguindo a máxima de William Blake da rota do excesso com destino ao palácio da sabedoria (citação mencionada pelo próprio Miller). Mas se para Dante a descida aos infernos era reconhecer as possibilidades inferiores que habitam em nós e ensinar o caminho de volta para casa – só percebemos o polo luminoso desde a perspectiva do polo abissal – para Miller a descida representou o encontro com o reconhecimento artístico e filão comercial que ele tanto buscava, e do inferno nunca mais saiu. Mas o herói da sociedade liberal viu sua fama desmoronar com o crescimento da escola feminista de crítica literária (ele seria misógino), o efeito moral do advento da AIDS sobre a promiscuidade e a pornografia hard-core de suas últimas obras (e.g. o póstumo Opus Pistorum). O profeta da liberação sexual seria apenas um pornógrafo que, com seus truques, levou os liberais a vê-lo como um filósofo do sexo. A revolução devora suas próprias crias.


Henry Miller simboliza o estado de frontal ataque a moral judaico-cristã, principalmente nas questões sexuais. Trópico de Câncer ajuda a entender a mente daqueles que abandonaram a busca do polo luminoso para chafurdar no abismo de trevas.



Notas

  • Henry Miller (1891-1980) nasceu em Nova York, USA.

  • Juventude (20 e poucos anos) ligada ao Partido Socialista da América, tendo como ídolo o negro socialista Hubert Harrison.

  • Durante seus quatro últimos anos de vida trocou mais de 1.500 cartas de conteúdo pornográfico com a Brenda Venus, então uma universitária de 20 anos de idade pela qual se dizia apaixonado: “‘Without the slightest blush you lightly touch your cunt with your right hand. Then . . . with two fingers of each hand you open the crack between your legs and you show me the small lips that tremble like a little bird. The juice flows liberally; your thighs gleam. Without saying a word you put your hand in my trousers and catch my flute (or the bollard if you prefer).”

  • Viveu em Paris nos anos 1930-39 quando escreveu seus primeiros livros publicados em vida: Trópico de Câncer (1934), Black Spring (1936) e Trópico de Capricórnio (1939) – os dois últimos narrando sua vida nos EUA antes de Paris.

  • Entre 1949 e 1959 escreve a trilogia The Rosy Crucifixion (Sexus, Plexus e Nexus) também de cunho autobiográfico e ainda mais obsceno. Após ler Sexus seu amigo Lawrence Durrell diz em carta a Miller que ele estava “pintando com seus próprios excrementos”.

  • Outras obras relevantes: The Air-Conditioned Nightmare (1945) e Big Sur and the Oranges of Hieronymus Bosch (1957) – ambas também baseadas em suas experiências pessoais.

  • Henry Miller considera Dostoiévski sua grande inspiração, mas ao dizer que o possesso Nikolai Stavróguin de Os Demônios era o próprio Dostoiévski demonstra uma compreensão bizarra deste autor. Curiosamente, diante da suposta absurdidade da vida, Nikolai comporta-se primeiro como Dom Juan e depois como Mensor (Camus), parecendo-se mais com o próprio Henry Miller.

  • Para Otto Maria Carpeaux, Henry Miller era um escritor nato que traz um novo frescor em sua escrita, e aborda pela primeira vez o sexo como tema. George Orwell o elogiou por abordar temas considerados por Orwell como ligados aos “homens da rua”. Olavo de Carvalho inclui Henry Miller entre as leituras literárias que o influenciou intelectualmente até a década de 90.

  • William Blake: “The road of excess leads to the palace of wisdom...You never know what is enough until you know what is more than enough.”

  • A filosofia de Henry Miller pode ser resumida em uma frase de The World of Sex: “Perhaps a cunt, smelly though it may be, is one of the prime symbols for the connection between all things.”

  • Henry Miller considerava-se uma história de seu tempo (“I regard myself as a history of our time”) – uma história do Kali Yuga.

  • A abordagem sexual de Miller vai ao encontro das teses de Wilhelm Reich (publicou A Revolução Sexual em 1936).

  • Miller foi recebido como um ídolo em Big Sur, precedeu sua chegada as histórias de sacrifício pessoal em nome da liberdade, e como racionalizava a mendicância para evitar a escravidão inerente na participação de uma sociedade podre – seria o único autor com coragem de escrever aquilo que sentia.