Quando nós, os mortos, despertamos de Henrik Ibsen



Personagens Principais Arnold Rubeck – escultor Maja Rubeck – esposa de Arnold Irene – musa de Arnold (o nome significa “paz após a guerra”) Ulfheim – caçador e proprietário de terras, selvagem e primitivo Personagens Secundárias Diaconisa – acompanhante de Irene

Interpretação Vida significa luta com os fantasmas do próprio cérebro e corações. Poesia significa julgar-se a si mesmo.” – verso de Ibsen (tradução de Otto Maria Carpeaux)


A decepção de Arnold com a arte e a vida lembra o Virgílio de Hermann Broch em A Morte de Virgílio. Como na versão fictícia do poeta romano, Arnold demonstra decepção com a sua arte. A beleza em si própria, sem comunhão com a existência humana, com o sentido da vida, não tem valor e está associada à morte e não a vida (linha platônica para quem o artista é um imitador de uma imitação – um falsificador do falso).


Maja e Irene são opostas. A primeira associasse a atual produção artística de Arnold, esvaziada de sentido e que tanto frustra o escultor – ela simboliza a prostituição da sua arte. Já o espectro de Irene remete a sua obra-prima, arte pela qual ele ignorou os anseios de sua musa – representa o sacrifício do artista pela arte.


São como dois polos opostos e irreconciliáveis para o artista: a vida trivial e a sua arte. Arnold abandonará seu ideal artístico (Irene) pela vida mundana (Maja), na qual encontrou apenas desilusão, assim como nunca encontrara prazer na vida artística com Irene.


Sacrificar a vida pela arte parece não produzir nenhum resultado (as massas consomem a obra sem compreendê-la e incapaz de apreciá-la verdadeiramente) e sacrificar a arte pelos prazeres mundanos é a morte do artista. Nada parece fazer sentido ou ter algum propósito.


Mas mesmo assim Arnold resignadamente faz uma opção pela arte. O artista não é livre para negligenciar o seu talento, como se este fosse um chamado ao qual ele precisa responder. Mesmo que toda criação pressuponha a morte (o sacrifício de algo, no caso da própria individualidade do artista). Arnold entende que deve perseguir sua arte mesmo que apenas ele lhe dê o que crê ser seu devido valor – o artista que busca significado no seu esforço através do reconhecimento de outros é seria um mero escravo de sua arte. A felicidade de Maja e Ulfheim (representando as massas) é o reconhecimento de que Arnold (o artista) não guardar rancor pela indiferença destes com sua arte.


Em seu último drama Ibsen parece ainda buscar respostas sobre a natureza da liberdade humana, sobre se o homem age por escolha ou necessidade. Parece também colocar o ideal artístico (sobe a montanha em direção à luz) acima da humanidade (desce a montanha). Afastando-se assim do Virgílio de Broch, que encontrava no Amor (no sentido de dedicação a alguma outra coisa, compromisso de adesão – conotação cristã) a salvação.



Notas

  • Henrik Ibsen (1828-1906) é considerado por Otto Maria Carpeaux como o maior dramaturgo do século XIX.

  • Norueguês, Ibsen faz parte de um pequeno grupo de grandes literatos escandinavos, incluindo August Strindberg e Knut Hamsun.

  • Entre as peças de Ibsen destacam-se: Um Inimigo do Povo (1882), O Pato Selvagem (1884), Peer Gynt (1867) e Casa de Bonecas (1879).

  • Ibsen saiu de moda com a banalização dos temas antes considerados polêmicos como feminismo (Casa de Bonecas), doenças venéreas (Espectros) ou revolução (Um Inimigo do Povo). Porém Ibsen considerava-se poeta e não crítico social. Sob a superfície narrativa Ibsen abordaria questões metafísicas.

  • Quando nós, os mortos, despertamos foi encenada em 1889, sendo sua última peça. O autor classificou-a como o encerramento de um ciclo de produção artística.