Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo



InterpretaçãoAfortunado e feliz é aquele que (...) trabalha sem culpa perante os imortais, consultando as aves e evitando transgredir as normas.” – Hesíodo


Se na Teogonia Hesíodo falava da origem do universo e nascimento dos deuses, aqui ele é ainda mais didático, apresentado um verdadeiro almanaque prático para a vida cotidiana centrada na justiça e no trabalho. E vai além, apresentando um guia sobre a vida ao comentar sobre como os homens deveriam relacionar-se com os deuses.


Numa disputa familiar por herança, Hesíodo adverte seu irmão Perses sobre as duras demandas da vida e a necessidade do trabalho que, segundo a vontade de Zeus, assegura a vida do homem. Apresenta-nos duas Érides (plural de Éris – correspondente ao latim Discórdia) que pode ser traduzido como Lutas: uma má (Discórdia) e outra tão positiva quanto necessária (corresponderia a Labuta) que Zeus a coloca “nas raízes da terra” – na origem do mundo – como o instinto que dirige o homem ao trabalho. Esta Éris positiva (Labuta) provoca a ambição entre os homens em detrimento da inveja – trabalhar para ter mais que o vizinho ao invés de desejar-lhe o mal (ensinamento que serve para o povo brasileiro caracterizado pela inveja – precisamos alquimicamente transformar esta inveja em ambição).


Trabalho necessário para enfrentar o devir desafiador conforme se apresenta nos mitos de Prometeu e Pandora e das Cinco Idades. Caracteriza a Idade do Ferro (a atual idade da Terra fim do presente Manvantara) como de ataque à família (“desonram os progenitores”), à religião (“não conhecem o temor dos deuses”) e à justiça (“ninguém será fiel a um juramento”).


Em seguida descreve a fábula do Falcão e Rouxinol onde os mais fortes humilham os mais fracos, simbolizando o reino da iniquidade quando os governantes e magistrados são corruptos. Mas alertando que no final a justiça triunfaria, pois “é sofrendo que o insensato apende” – o homem aprende com o seu sofrimento (como mais tarde Ésquilo repetirá em Agamêmnon e Dostoiévski em sua obra). Lembrando ainda que toda a cidade (nação) sofrerá quando seus líderes forem injustos, e que a injustiça inibe a justiça: “Agora nem eu próprio desejaria ser justo entre os homens (...), visto que é mal ser homem justo, se recebe melhor justiça o homem mais injusto.” (a impunidade destrói a moral do povo, envenena a sociedade).


A justiça representa a essência humana. Diferentemente dos animais, que recorrem à violência, os homens resolvem suas disputas de acordo com a justiça. E o trabalho é o meio justo de conseguir riqueza, afugentando a miséria e a fome – penoso, mas edificante, caminho até a excelência humana.


Hesíodo encerra com uma série de recomendações relativas à agricultura e à navegação (comércio) – as duas principais economias da época. Terra e mar, i.e. a natureza, é cenário de luta para o homem. É da natureza que o homem arranca sua subsistência – em linha com o domínio da natureza expressa no Gênesis.


A Dike (Justiça) de Zeus determina que só podemos chegar a areté através do trabalho árduo sob impulso da boa Éris – essa areté hesiódica do camponês (ao ser contrastada com a areté homérica do guerreiro aristocrático) é detalhada com uma série de regras que vão do casamento à superstição (o modo de vida do camponês pacífico e trabalhador é a ordem em conformidade com Dike).



Notas

  • Hesíodo (cerca de 700 a.C.) foi um dos primeiros poetas gregos. Seus principais trabalhos que chegaram até nós são Teogonia e O Trabalho e os Dias. O Escudo de Héracles comumente atribuído a Hesíodo é de autoria incerta.

  • Assim como as obras de Homero, os poemas de Hesíodo parecem terem sido originariamente compostos oralmente e transcritos no século VII a.C.. Ambos utilizam as mesmas métricas, dialeto e vocabulário.

  • Hesíodo considera o mundo heroico da epopeia um passado ideal, ao qual contrapõe o presenta da idade do ferro, sendo o primeiro poeta grego com a pretensão de falar publicamente à comunidade, oferecendo ao trabalhador, como espelho do mais alto ideal, sua vida monótona e sacrificada.

  • As três fábulas narradas extraem dos mitos as imagens simbólicas do ônus da existência, da fonte de angústias, da melancolia do paraíso perdido, da esperança de dias melhores e do desejo obstinado de sobreviver.

  • Prometeu e Pandora: a rebeldia contra a ordem divina é a causa da desgraça humana (revolta metafísica). A fábula toca no sonho de livrar-se do fardo da existência – mas a ordem da vida determinada por Zeus é carregar nosso fardo em competição e cooperação com os outros homens (“Tolos, que não sabem quão maior que o todo é a metade!”)

  • Cinco Idades: Hesíodo afasta-se aqui dos mitos orientais dos quatro metais e aparentemente traça uma correspondência antropogênica a sua Teogonia – os homens teriam uma origem semelhante aos deuses (as três primeiras raças fabulosas, não muito humanas, serviriam como paralelo da Teogonia, após as quais entra em cena uma raça melhor – heroica – que também se deteriorará – atual Idade do Ferro). A humanidade tem duas idades, o passado heroico (Ilíada e Odisseia pertencem ao passado) e o presente de ferro. O apocalipse torna-se realidade histórica quando a tensão apocalíptica da alma é premiada e a desolação da aniquilação paira sobre a sociedade (os homens descaídos arrastam consigo a sociedade).

  • Falcão e Rouxinol: os príncipes sabem o que não devem fazer, mas acabam entregando-se à húbris, e não há muito que os súditos possam fazer contra isto – mas Dike vence Híbris quando chega ao fim da raça (dos tempos).

  • No sistema cosmológico babilônico, Sol, Lua e Instar (Vênus) formavam uma trindade divina (e estavam associados ao ouro, prata e bronze – o ouro valia 13 1/3 vezes a prata, ou seja, a relação das trajetórias solar e lunar 360:27), enquanto os outros quatro planetas – Júpiter, Mercúrio, Marte e Saturno – formavam a tétrade simbólica dos quatro cantos do mundo.