O Jardim das Aflições de Olavo de Carvalho



Cedo ou tarde, o mal parecerá um bem àquele que os deuses resolveram desagradar.” – Sófocles (coro na Antígona)

Em maio de 1990 o autor assiste a conferência de José Américo Motta Pessanha intitulada As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro no ciclo de Ética organizado pela prefeitura de São Paulo, observando o absoluto desapego na busca da verdade. O tema foi tratado sem respeitar o status questione (e.g. Platão, Aristóteles, estoicismo e a ética tomista nem eram citados), sem nenhum rigor intelectual, apresentando uma ética reduzida a grosseiras expressões de ressentimento. Todo o ciclo não passava de um embuste para pregar a pecha de antiético nos adversários do PT enquanto revestindo este de elevada moral.


As mazelas do pensamento de Epicuro são expostas por Carvalho com ênfase na tendência de induzir seus seguidores a perderem a capacidade de diferenciar o efetivo do possível, ou a perderem o senso da realidade fundada nesta distinção. O discípulo é afastado do compromisso interior com a verdade e a coerência, passo este indispensável para o conhecimento objetivo.


O Tetrafármacon epicurista teria sido um dos primeiros métodos de suspensão do juízo reflexivo responsável por discernir entre o efetivo e o possível, verdadeiro ou falso, verossímil ou inverossímil, provável ou improvável. Seus herdeiros são inúmeros métodos de manipulação social que hoje são indiscriminadamente aplicados sobre a população, seja em seitas, na política, ou negócios. Com doses maciças de estimulo contraditório a vítima rompe o entendimento entre conduta e crença, alcançando tal estado de angústia do qual o refúgio é o abandono do senso profundo de realidade. São exemplos de estímulo contraditório: (a) promoção do sex lib e repressão ao assédio sexual, (b) moralismo político e imoralismo erótico, (c) liberação das drogas e proibição de cigarros, (d) destruição das religiões tradicionais e defesa das culturas pré-modernas, (e) democracia direta e controle estatal de armas, (f) liberdade irrestrita ao cidadão e maior intervenção do Estado na vida privada, e (g) antirracismo e defesa de “identidades culturais” sustentadas na separação das raças. Os maiores ataques a inteligência humana são o aborto e a teoria de gêneros – quem acredita que um óvulo fecundado não é o primeiro estágio de um ser humano, ou que as pessoas não nascem com sexo, já está tão afastada da realidade, tão suficientemente estupidificada, que pode acreditar em qualquer coisa (é manipulado sem o saber). A incapacidade de um povo de perceber os perigos que o ameaçam é um dos sinais mais fortes da depressão autodestrutiva que prenuncia as grandes derrotas sociais.


A inversão epicurista da relação lógica entre prática e teoria repete-se em Karl Marx (“Não se trata de entender o mundo, mas de transformá-lo.”), que abordou a filosofia de Epicuro em sua tese de docência. A teoria deixa de ser o fundamento lógico da prática e esta a exemplificação daquela no campo dos fatos, sendo a prática transformada em agente eficiente da condição psicológica artificial que tornará crível a teoria. Isto explica como os seguidores das ideias de origem marxista justificam em nome de uma utopia humanitária as piores atrocidades do regime comunista – todos os intentos fracassados na prática não abalam a teoria. Quando na IGG os trabalhadores defenderam suas nações e não a sua classe econômica, contrariando totalmente a previsão marxista, Lukács e Gramsci alegaram que a teoria seguia certa, sendo o problema a ética judaico-cristã, a filosofia grega e o direito romano que haviam alienado o operariado, ou seja, era preciso mudar os fatos (doutrinar o operariado) para enquadrarem-se na teoria. Trata-se de envolver o indivíduo numa práxis hipnótica, que o afastará para sempre da tentação da objetividade, não deixando margem para recuos teoréticos e aprisionando todas suas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica.


Mas para entender algo é preciso colocar sua cabeça no mundo e não o contrário. Pensadores esquemáticos como marxistas, freudianos, sexistas e outros, tentam fazer o inverso: colocar o mundo nas suas cabeças – forçam a interpretação de todos os acontecimentos dentro dos seus esquemas e crenças pessoais – e.g. o ressentido social racionaliza seu rancor e inveja transformando-o em luta por um “mundo melhor”.


Conforme o homem voltava-se contra o Criador, entronizaram-se novos deuses através do culto a Natureza (deuses do espaço – e.g. ciência extrapolando seu limitado campo de conhecimento para legislar o mundo) e a História (deuses do tempo – e.g. determinismo histórico de Hegel, Comte e Marx), bloqueando o acesso a concepções espirituais no sentido estrito – não se busca mais o infinito, mas o cosmo (Natureza), e a História é erigida como algo superior ao homem concreto.


O Estado (comunista, nazifascista ou liberal) é investido de autoridade espiritual, restaurando o culto de César, e banindo deste mundo a liberdade interior que é o reino de Cristo. O mais democrático dos Estados dialoga dialeticamente com o reivindicacionismo (cada direito gera um dever), conseguindo imiscuir em todos os setores da vida humana, alcançando suprema autoridade, reinando sobre almas e consciências com o novo Decálogo dos direitos humano e do politicamente correto – sem o equilíbrio do espírito as forças naturais (Beemoth) e humanas (Leviatã) se destroem mutuamente, sendo necessário fundar uma nova religião, a religião do Estado (Hegel) na era positivista (Comte).


É o contragolpe do Estado que havia sido dessacralizado pelo Cristianismo quando este consagrou como portador do Verbo divino a alma do indivíduo humano – “Dar a César o que é de César”, mas agora sem submetê-lo ao julgamento de questões de consciência.


A história política do Ocidente resume-se na luta pelo direito de sucessão do Império Romano – unificar todos os diferentes povos sob uma mesma legislação e um mesmo governo, todos convivendo na harmonia de suas diferenças e contribuindo para a grandeza e riqueza do Império (e.g. Império Carolíngio (800-924), Sacro Império Romano (962-1806), impérios coloniais, Rússia-Comunismo, Projeto Eurasiano, Nova Ordem - ONU).


Mas como restaurar o Império sem a religião estatal romana? O embate entre as castas clerical e aristocrática se desenrolou ao longo dos séculos, com a gradativa vitória deste – Felipe IV, o Belo (1268-1314), Henrique VIII (1494-1547), Revolução Francesa (1789), Napoleão Bonaparte (1769-1851) – resultando na implementação mundial do Estado sem religião oficial: cessa a validade de todas as leis religiosas, o Estado é único árbitro das disputas (vox populi, vox Dei na boca dos jacobinos), extinção da religião como princípio organizador da conduta humana (a lei define a moral).


O absorver-se nos Pequenos Mistérios e consequente afastamento do deslumbramento dos Grandes Mistérios (passagem literária de Dom Quixote para Wilhelm Meister) faz da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida, barrando ao homem o acesso ao infinito e aprisionando-o na dimensão terrestre. Este corte no meio do Homem Universal (ponto de interseção entre o Céu e a Terra – ativo e dominador perante a experiência terrestre e passivo e obediente entre as injunções do Espírito) é a mais dolorosa e trágica experiência espiritual já vivida pelo homem sobre a Terra.


Tal ruptura explica como o homem transforma o progresso numa aceleração do desespero apesar de todas as melhoras conquistadas pela técnica material. A ideologia prometeica que, na esteira do discurso da Revolução Francesa, oferecia levianamente a todos os homens o desfrute imediato da vida terrena tão logo a sociedade se livrasse das peias da religião, toma logo a forma de um apelo lisonjeiro à juventude (morgen zu uns gehört – refrão do hino da Juventude Nazista) para que, rompendo com toda forma de obediência tradicional, se empenhe na conquista audaciosa dos bens deste mundo. A substituição da Providência por esta suposta nova Ordem Cósmica transfere a anterior condução do homem à vida eterna na presente satisfação de seus apetites neste mundo, criando um novo senso de pecado: o rompimento com o “equilíbrio cósmico” (e.g. de erros graves ao não alimentar-se bem, fumar, não plantar uma árvore, não optar por locomover-se de bicicleta) será punido com o fracasso material – o homem sente mais vergonha de ficar doente ou desempregado que por praticar adultério ou roubar.


Imbuído de um imaginário direito místico, o homem (agora encarnado em Julien Sorel de O Vermelho e o Negro e Luciano de Rubempré de Ilusões Perdidas) frustrado com as vicissitudes da vida entende-se vítima de um mecanismo orquestrado por outrem (e.g. o governo, o capitalismo, o sistema, o machismo, o patriarcalismo, etc – perdeu-se o sentido trágico da vida, tudo é drama), alimentando o reivindicacionismo supracitado. A dialética do poder no Estado moderno é diabolicamente simples: incentivados a fazer uso de seus direitos, os cidadãos reivindicam mais e mais direitos; os novos direitos, ao serem reconhecidos, transformam-se em leis; as novas leis, para serem aplicadas, requerem a expansão da burocracia fiscal, policial e judiciária; e assim o Estado se torna mais poderoso e opressivo quanto mais se multiplicam as liberdades e os direitos humanos. Esta expansão dos direitos dos pequenos se faz sempre à custa das hierarquias intermediárias e da formidável concentração de poder nas mãos de poucos encastelados no estamento burocrático ou indecentemente relacionados com este.


Todo tipo de conflito é criado – entre gerações (Estatuto da Criança e do Idoso), entre sexos (delegacia da mulher, feminismo, o ilusório feminicídio), entre classes sociais (imposto progressivo, criminalização do lucro), racial (direitos especiais a determinadas raças), entre entes físicos e jurídicos (Estatuto do Consumidor) – enquanto a instituição familiar é atacada, resultado numa sociedade atomizada, impotente diante da soberania do Estado – divide ut regnes.


A casta bramânica restringiu-se a uma intelligentsia demoníaca, que abandona as aspirações transcendentes e satisfaz-se com os valores dos sudras, perfeitamente representada por Motta Pessanha e outros palestrantes naquele fatídico ciclo de debates sobre a Ética.


Notas

  • Olavo de Carvalho (1947-) nasceu em Campinas, Brasil.

  • Filósofo, analista político e polemista, tem extensa obra em livros e aulas.

  • O Jardim das Aflições foi parcialmente escrito em 1990, e publicado em 1995.

  • Collor caiu no final de 1992 com acusações de corrupção (antiético), enquanto o criminoso PT criava uma áurea de partido ético.

  • Motta Pessanha foi igualmente desonesto na organização da coleção Os Pensadores.

  • A "filósofa" uspiana, Marilena Chauí (Secretária Municipal de Cultura organizou o evento acima – a prefeita era Luiza Erundina (PT)), após plagiar Mario Ferreira dos Santos na obra Convite à Filosofia, Julian Marias (os três níveis da verdade - Convite à Filosofia) e o filósofo francês Claude Lefort (não necessariamente nessa cronologia), foi homenageada pelo poeta, Bruno Tolentino. A Xeroxona A bela Espinozona é mesmo um ás! Filha da Maria Antônia, e sumidade de que a USP garante a idoneidade, se bem me lembra há pouco tempo atrás era ainda uma vulva tão voraz que deglutia os mestres à vontade, chegou a fazer seu mais da metade de um livro do Leffort - o que aliás assustou o Merquior... Essa araruta, que a fim de ter seu dia de mingau, chupa o trabalho alheio pelo pau, pode até ser o que ninguém disputa - a Vênus que dá tudo pela luta - mas xerox em xereca é genial!

  • Filósofo = busca a explicação do real segundo a sua própria exigência de veracidade e segundo o nível alcançado por seus antecessores / Philosophe = busca explicações na estrita medida do mínimo que o mundo exige daqueles a quem segue (uspianos são philosophes).

  • John Stuart Mill: crítica é a mais baixa faculdade da inteligência.

  • Juan Alfredo César Müller: neurose é uma mentira esquecida na qual o paciente ainda acredita.

  • Tetrafármacon – inculcar no praticante quatro convicções básicas: (a) não temer a morte, (b) o bem é facilmente alcançável, (c) não temer as divindades, e (d) o mal é facilmente suportável. A busca no refúgio das memórias a medicina para as dissabores da realidade.

  • Notre Dame de Paris e Santa Maria dei Fiori (Brunelleschi) – a catedral gótica retira-se do mundo, a renascentista reina sobre ele. Aquela, para ser apreciada, tem que ser vista de dentro, na luz irreal que os vitrais projetam, entre os arcos que se elevam ao céu, sobre os fieis recolhidos em oração; esta, tem que ser vista de fora e de longe, imperando sobre a paisagem do mundo.

  • A ideologia do politicamente correto é tanto instrumento revolucionário como muleta para o homem afetar falsas virtudes como panaceia para seus vícios.

  • A palavra “profeta” vem do grego profhero, que significa “fazer”, “produzir”, “determinar” – e não vaticinar.

  • Não devemos interpretar os mitos, mas sim utilizá-los como instrumentos para interpretar a vida.

  • Literariamente, a necessidade de reintegrar a atividade criadora humana no supremo sentido espiritual da existência é afirmada em plenitude – e com plena admissão de suas consequências morais e filosóficas – por Fiódor Dostoiévski. Tema dominante de sua ficção desde a descida de Raskólnikov (Crime e Castigo) das alturas de um orgulho prometeico até o arrependimento (diante de Sonia) que lhe abre as portas do céu. Das Ewige Weiblich sieht uns hinan. – O Eterno Feminino leva-nos ao alto. (verso final de Fausto)

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