Górgias de Platão


Dos dois males, cometer injustiça ou ser vítima de injustiça, cometer injustiça é maior que ser vítima de injustiça.” – Sócrates (509d)

Quem nos garantirá que não é morte a vida, e estar morto, viver.” – Sócrates cita Eurípides, o corpo como túmulo (492e)

Personagens Sócrates – filósofo Górgias – mestre sofista

Cálicles – político experiente, adepto de Górgia Polo – jovem vulgar, discípulo de Górgia Querofonte – amigo e seguidor de Sócrates

Numa primeira camada, mais superficial, Platão, através de Sócrates, demonstra as insuficiências da retórica praticada pelos sofistas (eurística),para ao longo do diálogo elevar a discussão às questões da justiça, da política e da educação.

Retórica A retórica de Górgias era voltada para a formação de estadistas instrumentando-os com a arte da persuasão nos tribunais e nas demais aglomerações. Despida de conceitos morais, esta retórica não se importa em convencer as massas através da mera aparência de verdade, sendo pois melhor determinada como erística – instrumento de domínio e poder sobre os demais.

Sócrates debocha da retórica gorgiana, entendendo-a ser apenas dirigida a obter aplauso das massas e a despertar nelas emoções de prazer – o talento da lisonja.

Assim estaria descartada a possibilidade desta retórica ser uma arte (techné), pois carece das notas distintivas desta, ou seja, ser (a) uma saber baseado no conhecimento da verdadeira natureza de seu objeto, (b) capaz de dar conta das suas atividades sempre que têm consciência das razões segundo as quais procede, e (c) ter por missão servir a parte melhor do objeto de que se ocupa.

Artes específicas são requeridas para zelar pelo corpo e a alma do homem: dos cuidados do corpo saudável encarrega-se a ginástica, e se doente a medicina; ao passo que a legislação vela pela alma sã, enquanto a alma enferma reclama os cuidados da justiça – sendo legislação e justiça ramos da política ou arte do Estado.

Em contraposição a estas artes estariam as classes da lisonja: ginástica – perfumaria, medicina – culinária, legislação – sofística, e justiça – retórica, pois não visam a consecução do melhor do homem, mas aspiram somente a lhe agradar.

Justiça

Os adeptos de Górgias rebatem Sócrates afirmando que legislação e justiça foram concebidas pelas massas, i.e. os mais fracos, visando proteção contra aqueles que lhes são superiores e, por isso, deveriam ter o poder – a virilidade de defender a si mesmo é apresentada como uma justificativa ética da tendência ao poder. Os retóricos alegam que a educação é apenas adestramento orientado no sentido de extraviar e iludir sistematicamente as naturezas fortes e a manter de pé o poder dos mais fracos. Assim, a lei e a educação amolecem o homem, constituindo-se em sua ruína – o mais forte tem direito ao poder. É colocando em debate dois critérios de justiça: o justo em sentido convencional (leis) e o justo segundo a natureza (desejo/poder).

A teoria do direito do mais forte aferra-se à opinião de que o mais forte é o mais sábio politicamente e ao mesmo tempo o mais viril, e baseia-se na equiparação do bom com o que é agradável e dá prazer – chocando-se com a questão fundamental da política socrática de que se o homem que nasceu para dominar não deverá dominar-se a si próprio antes de mais nada. Poder (filosofia baseada na violência – liberdade de fazer o que lhe apetece) e paideia (aperfeiçoamento geral do homem conforme o destino de sua própria natureza – temperança em controlar as vontades ilegítimas) são apresentadas como duas concepções antagônicas da felicidade humana, que é o mesmo que dizer da natureza humana.

O fundamento de toda reflexão sobre a conduta acertada do homem é o reconhecimento de que o agradável nem sempre coincide com o bom e o salutar – o agradável deve ser pura e simplesmente feito por causa do bem, nunca inversamente.

Sócrates demonstra que feliz é o homem livre, liberto de suas paixões e capaz de ser como o Homem realmente é (encarnar sua areté, o domínio da racionalidade, o conhecimento do Bem – todo ser é bom quando nele vinga e se realiza a ordem correspondente à sua essência). Logo, as sensações de prazer podem ser classificadas entre boas e más – conceito de opção da vontade e do objetivo final (telos), o Bem. A missão decisiva da vida humana é a escolha acertada entre o bom e o mau – desejos legítimos e sublimação dos ilegítimos. Logo, é melhor sofre uma injustiça que cometer uma injustiça.

Aqueles que vivem em cupidez são “mortos” sepultados na paixão e desvario de seu corpo; eles serão julgados pelos “vivos”, ou seja, pelos filósofos que deixaram sua alma ser penetrada pela experiência da morte e, assim, alcançaram a liberdade da paixão somática. (A vida e morte se Sócrates foram os acontecimentos decisivos na descoberta e liberação da alma.)

O mito do julgamento dos mortos (almas já sem o invólucro protetor da beleza, riqueza e poder) tem a função de síntese deste conceito. No post-mortem, as almas sãs, i.e. puras de toda injustiça, ficarão em liberdade nas Ilhas dos Bem-aventurados, sendo as demais enviadas ao Hades, com as almas curáveis submetidas a grandes sofrimentos e dolorosas terapêuticas para a redenção (sabedoria esquiliana pelo sofrimento) – a vida além-morte como continuação da paideia terrena.

Política

Comparada à culinária, a retórica, tirana absoluta da política de seu tempo, é relegada a um papel nada honroso, pois Sócrates encara a ordem hierárquica das coisas de modo diferente do olhar puramente sensível da multidão. Surge assim uma arte do Estado totalmente diferente do que o mundo qualifica como tal – legislação e justiça (o Estado) voltadas para o cuidado da alma.

O estadista seria como um médico a cuidar do cosmo (ordem) da alma de seus concidadãos. Sua atenção deve dirigir-se constantemente a que a justiça entre na alma dos cidadãos e dela saia a injustiça, que nela reinem a prudência e a moderação e desapareça o destempero, que todas as virtudes sejam estimuladas e todos os vícios desenraizados. Um estadista é bom quando em seu governo os cidadãos se tornam melhores, e ruim quando se tornam piores em relação a ordem existencial. O estadista busca aquele bem correspondente a areté, ou seja, toda a classe de virtude ou excelência. O bom estadista é aquele que contribui para a eudaimonia dos indivíduos e da sociedade.

Mesmo os estadistas atenienses famosos (Péricles, Címon, Milcíades e Temístocles) não alcançaram o nível demandado por Sócrates, sendo meros servidores do Estado, e não educadores do povo. Converteram-se no instrumento das fraquezas da natureza humana. Não eram médicos e ginastas, mas antes confeiteiros que à força da gordura incharam o corpo do povo, embotando-lhes os músculos outrora rijos – “épocas boas” que incitam uma visão hedonista da felicidade provocando as “épocas más”, incluindo a tirania (ver Ponerologia de Andrew Lobaczewski).

Quando um tirano desprovido de paideia domina o Estado, ele teme os espiritualmente superiores e despreza os inferiores, podendo apenas ter por amigos seus semelhantes que estejam dispostos a se deixarem dominar. Se os apetites não forem contidos, o homem levará a vida de um dévio, incapaz de philia (amizade – comunidade existencial – a ordem (kosmos) que tudo permeia) com Deus e outros homens.

Uma sociedade conduzida sob semelhante tirania será corrompida e desfigurada, principalmente sua juventude. Os cidadãos da cittàcorrotta engendram uma tensão de tal intensidade que o vínculo comum de humanidade é praticamente rompido. Quando a ordem pública não mais representa as forças civilizacionais entra-se num estado de desintegração – impossibilidade de acordo político, guerra civil. Na logique du couer, o julgamento dos mortos é a resposta para o fracasso a comunicação em vida.

Pathos designa uma experiência passiva, não uma ação; é o que acontece ao homem, o que ele sofre (paixão), o que recai sobre ele por obra do destino e que o toca em seu núcleo existencial. Em sua exposição ao pathos todos os homens são iguais, podendo diferir amplamente na maneira como o enfrentam e em como incorporam as experiências em sua vida (toque esquiliano em como o pathema experimentado por todos resulta em mathema diferente para cada homem). A comunidade de pathos é a base da comunicação. A vitimização hodierna, a perda do sentido trágico da vida, rompe a possibilidade de unidade humana – somente a recuperação da consciência da condition humana evitaria a guerra civil.

Educação

O embate socrático contra a erística e a sofistica é a luta pela alma da geração mais jovem. Quem formará os futuros líderes da sociedade: o orador que ensina os truques do sucesso político ou o filósofo que cria a substância na alma e na sociedade?

O diálogo termina com a exortação contra a apaideusia (ignorância acerca dos bens supremos da vida) através da concepção da paideia socrática: trata-se da luta ao longo de toda vida da alma para libertar-se da ignorância acerca dos bens supremos, ignorância que dela se apodera e lhe barra o caminho para a verdadeira salvação – ética de fundo metafísico.

A valoração do saber como caminho para a areté e o postulado de uma techné que sirva de base para a conduta correta. O problema fundamental de toda educação é o problema da norma suprema a que ela tem que se ajustar e do conhecimento deste objetivo – a perda do sentido de transcendência inibi a educação. No sentido ético, a paideia é o supremo bem e a suma felicidade humana.

Platão elabora a paideia socrática como techné política, realçando o antagonismo existente entre aquela pedagogia e a realidade política de seu tempo – a techné política platônica é ao mesmo tempo edificação do Estado e cuidado da alma.

Para os gregos antigos, a lei do Estado era simultaneamente fonte de todas as normas da vida humana, e a virtude do homem se identificava com a virtude do cidadão – diferentemente da concepção moderna de política realista e individualidade idealista. Foi no tempo de Sócrates que apareceram as primeiras rupturas da harmonia entre as virtudes humana e cívica. Salienta-se a tensão entre o coletivo e indivíduo, onde a alma descobre nas entranhas da própria consciência moral a única pauta do valor e da felicidade humana.


 

Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Górgias, sobre a retórica, é diálogo legítimo (gênero refutatório), provavelmente do período mediano, fase de ascensão ou primeira florescência filosófica.

  • Retórica é a arte de se comunicar de forma assertiva e persuasiva. É saber expressar as ideias de maneira clara e organizada, para que o ouvinte compreenda a voz que recebe do interlocutor. Além disso, o estudo da retórica permite a ordenação e método ao pensar, ou seja, nossos pensamentos se tornam mais claros.

  • Quem fala (rétor – rhetor), para quem fala e do que fala? Estas três perguntas definem e delineiam o horizonte do discurso retórico e seu emprego num diálogo ou numa comunicação pública.

  • Diálogo dialético opõe tese e antítese, buscando a maior proximidade da certeza. No confronto com seus oponentes, Sócrates demonstra que a dialética socrática é uma forma de paideia superior a retórica, pois esta padece de um vício fundamental: o de nenhum saber objetivo, nenhuma filosofia ou firme concepção de vida surgir por trás das suas palavras, além disto, não a anima nenhum ethos (caráter moral), mas os seus móveis são a cobiça, a vontade de sucesso e a falta de escrúpulos.

  • Techné = ars, arte. Virtude intelectual que leva alguém a produzir algo, uma produção externa por si. Concebida em função de sua prática, distinguindo-se da mera teoria.

  • As imagens geniais com que Platão traça os grandes sofistas, retóricos e homens de poder revela que ele sentia vibrar na sua própria alma todas as forças deles, com suas vantagens sedutoras e grandes perigos; mas que estavam nele refreadas por Sócrates e fundidas na sua obra numa unidade superior.

  • Sócrates faz uso de um mito para comparar as almas dos temperantes e incontinentes, sendo a destes últimos como um crivo por nunca lograr satisfazer-se. (493e)

  • Platão critica a poesia coral e ditirâmbica contemporânea, pois não tenderiam para o Bem, mas simplesmente para o aplauso da massa, sem preocupar-se em torná-la melhor ou pior – tal qual a retórica gorgiana.

  • A arte tem uma potência educadora, deve atrair-nos ao que é belo, bom e verdadeiro, ou fastar-nos da fealdade, maldade e falsidade.

  • Numa sociedade decadente, o intelectual ridículo é o inimigo do espírito, e também suficientemente poderoso para assassinar fisicamente os representantes deste espírito. Fato constantemente observado onde as ideologias coletivistas revolucionárias (socialismo, comunismo, fascismo, nazismo, etc) alcançam o poder.

  • A discussão é de fato impossível com o intelectual desonesto. E a sociedade limitada à retórica é fadada ao engano.

  • Pleonexia: desejar mais que o outro, desejar a despeito dos direitos do outro (relacionado à justiça).

  • O povo de Atenas perdeu sua alma, e a revolução de Platão é um chamado radical à regeneração espiritual.

  • Na análise de um mito não devemos procurar a “verdade” no plano da “bela fábula”, mas traduzir os símbolos nas experiências da alma que eles articulam.