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Fábulas de Esopo

É porque vocês não estudaram, são ignorantes e não têm curiosidade; vocês não leram nem o próprio Esopo que disse que a calhandra nasceu antes de todas as outras aves e antes da própria Terra. – Aristófanes (As Aves, 471): conhecer as fábulas de Esopo era sinal de erudição


A fábula (mythos) é uma história ficcional que apresenta a imagem de uma verdade. Aelius Théon em Progymnasmata (cerca do I d.C.)


As fábulas são histórias curtas, em prosa ou verso, protagonizadas por animais, plantas ou objetos inanimados que agem como humanos. São escritas com o objetivo de ensinar alguma coisa e sempre trazem uma moral nas entrelinhas. O gênero surgiu provavelmente na Grécia, sendo a primeira coletânea de fábulas atribuídas a Esopo.


Esopo também é o maior mestre lendário da tradição de linguagem indireta com fins sarcásticos, pois era escravo e apenas indiretamente poderia dizer a verdade aos seus escravocratas – fala-se desde então em linguagem esópica (termo cunhado por Mikhail Saltykov (1826-1889) para descrever ao idioma dos escritores dissidentes políticos).


Na modernidade, no século XVII, as fábulas renasceram na França pela pena de Jean de La Fontaine (1621-1695), que buscou modernizar as de Esopo e de outros para criticar reis, cardeais e ministros, transformados agora em leões, galos e raposas.


Além do que os adultos encontraram nelas, as fábulas permaneceram para as crianças como uma introdução ao conhecimento do mundo.


Seguem algumas das mais famosas fábulas atribuídas a Esopo:


A gralha e o cântaro Uma gralha sedenta pousou sobre um cântaro e tentou entorná-lo à força, mas não conseguiu tombá-lo, porque ele estava apoiado com muita firmeza. A gralha, porém, acabou conseguindo o que queria por meio de um artifício: jogou seixos dentro do cântaro que fez a água que estava no fundo via à tona e transbordar. E foi assim que a gralha aplacou a sede. Moral: a necessidade é a mãe da invenção, e, também, a inteligência burla a força.


A tartaruga e a lebre Uma tartaruga e uma lebre discutiam sobre qual era a mais rápida. E, então, marcaram um dia e um lugar e se separaram. Ora, a lebre, confiando em sua rapidez natural, não se apressou em correr, deitou-se no caminho e dormiu. Mas a tartaruga, consciente de sua lentidão, não parou de correr e, assim, ultrapassou a lebre que dormia e chegou ao fim, obtendo a vitória. Moral: o trabalho vence os dons naturais quando estes são negligenciados, e, também, devagar e sempre se alcança o objetivo.


A raposa e o ouriço Ao cruzar um rio, uma raposa fica com o rabo preso em um arbusto e não consegue se mover. Enquanto está presa e um tanto consternada, um enxame de mosquitos pousa sobre a pobre raposa e come uma refeição saudável, incapaz de ser varrido pela cauda enredada do vulpino. “Você está mal”, diz um ouriço que passa, vendo a situação difícil da raposa. Tentando ajudar, o ouriço sugere que ele afaste os mosquitos que sugam seu sangue. Mas a sábia raposa percebe que livrá-lo desses insetos, que já estão satisfeitos, só faria com que mais mosquitos chegassem com um apetite renovado, e recusa a ajuda ofertada. Moral: melhor suportar um mal menor do que arriscar um mal maior para removê-lo.


As rãs que pediam um rei Cansadas da anarquia em que viviam, as rãs enviaram legados a Zeus rogando que ele lhes desse um rei. O deus, diante da simplicidade dos legados, lançou um pedaço de madeira ao lago. As rãs a princípio se assustaram e se atiraram nas profundezas do lago. Mas depois, como a madeira não se movesse, elas, emergindo, sentiram tal desprezo pelo rei, que lhe deram as costas e permaneceram assim, acocoradas. Aborrecidas por ter aquele rei, pediram uma segunda vez a Zeus que lhes trocasse de chefe, pois o primeiro era por demais lerdo. Zeus, irritado com isso, enviou-lhes uma hidra, que as pegou e as devorou. Moral: melhor ser governado por lerdos mas não maus do que por agitadores malvados, e, também, quando procurar mudar sua condição, tenha certeza de que poderá melhorá-la.


A gansa dos ovos de ouro Uma pessoa tinha uma gansa que punha ovos de ouro. Crendo que ela tinha dentro do ventre um monte de ouro, matou-a e viu que ela era igual às outras gansas. Na esperança de encontrar toda a riqueza de uma só vez, ficou privado até de um ganho menor. Moral: ganância em demasia pode por tudo a perder.


A raposa e o cacho de uva Uma raposa faminta, ao ver cachos de uva suspensos em uma parreira, quis pegá-los mas não conseguiu. Então, afastou-se dela, dizendo: “Estão verdes”. Moral: alguns, não conseguindo realizar seus intentos por incapacidade, acusam as circunstâncias.


A cigarra e as formigas No inverno, as formigas estavam fazendo secar o grão molhado, quando uma cigarra, faminta, lhes pediu algo para comer. As formigas lhe disseram: “Por que, no verão, não reservaste também o teu alimento?”. A cigarra respondeu: “Não tinha tempo, pois cantava melodiosamente”. E as formigas, rindo, disseram: “Pois bem, se cantavas no verão, dança agora no inverno”. Moral: é em tempo de fartura que devemos melhor nos preparamos para o futuro, e, também, nunca de um passo sem ponderar sobre o futuro.


O cão e seu reflexo Um cão, segurando um pedaço de carne, atravessava um rio. Tendo visto a sombra da carne na água, julgou que outro cão tinha um pedaço de carne muito maior. Por isso, largando sua própria carne, lançou-se para pegar a outra. Aconteceu, porém, que ficou privado de ambas: uma que ficou fora de seu alcance porque nem existia, e a outra que foi levada pelo rio. Moral: quem tudo quer, tudo perde, ou, também. mais vale um pássaro na mão que dois voando.


O guizo e o gato Uma família de ratos vive com medo por causa de um gato. Um dia eles se reúnem para discutir possíveis ideias para solucionar o problema. Depois de muita discussão, um jovem ratinho se levanta para sugerir uma ideia. Ele sugere que coloquem um guizo no pescoço do gato, para que possam ouvi-lo quando ele se aproximar. Todos os outros ratos concordam, exceto um velho e sábio rato que pergunta “quem vai colocar o guizo no gato?” Moral: ideias impraticáveis de nada servem.


O caranguejo e sua mãe A mão do caranguejo estava lhe dizendo para não caminhar de lado nem esfregar as costas na rocha úmida. Então ele replicou: “Mãe, você, que está tentando me ensinar, trate de caminhar direito, que eu vou vendo e imitando”. Moral: o exemplo é mais poderoso que o preceito, e, também, olhe para si antes de criticar os outros.


O mosquito e o touro Um mosquito, depois de permanecer por muito tempo pousado no chifre de um touro, quando estava para partir, perguntou ao touro se já desejava que ele fosse embora. O touro, tomando a palavra, disse: “Nem quando vieste eu senti, nem tampouco quando fores eu sentirei”. Moral: aquele que não tem valor nem ajuda nem atrapalha, e, também, cuidado para não dar a si mesmo valor indevido.


A corça à beira do riacho Uma corça está bebendo em um rio, admirando seus lindos chifres. Ela então percebe como suas pernas parecem pequenas e fracas. Só então, do nada, um caçador se aproxima e atira uma flecha. A corça foge para a floresta e percebe que foi graças às pernas que sobreviveu. Enquanto ele olha para as pernas, seus chifres ficam presos nas árvores. O caçador alcança a corça e a mata. Moral: é na hora da necessidade que conhecemos nossos verdadeiros amigos.


O leão, o burro e a raposa Um leão, um burro e uma raposa, tendo estabelecido uma sociedade entre si, saíram para caçar. Depois de terem apanhado muita caça, o leão ordenou ao burro que a dividisse entre eles. O burro fez três partes iguais e disse ao leão que escolhesse a sua, e este, indignado, caiu sobre o burro e o devorou. Em seguida, ordenou à raposa que fizesse a divisão. A raposa colocou tudo em um só monte, reservando para si mesma apenas alguns restos, e pediu que o leão escolhesse. Como perguntasse o leão quem a ensinara a dividir assim, a raposa respondeu: “O burro”. Moral: aprendemos observando a desgraça alheia.


O vento e o sol O vento e o sol discutiam sobre sua força. Decidiram que a vitória seria atribuída àquele que despojasse um viajante de suas vestes. Começou o vento soprando com violência, e, como o homem apertasse contra o corpo suas roupas, o vento atacou com mais força. Mas o homem, mais incomodado ainda pelo frio, segurou com mais força suas vestes, até que o vento, desanimado, o deixou para o sol. O sol brilhou moderadamente. Como o homem tirasse suas roupas supérfluas, o astro intensificou mais o calor, até que, não podendo mais resistir, o homem tirou toda a roupa e foi tomar banho no rio vizinho. Moral: a persuasão é mais eficaz que a violência.


O leão e o rato agradecido Um leão estava dormindo e um rato passeava sobre seu corpo. Acordando e tendo apanhado o rato, ia comê-lo. Como o rato suplicasse que o largasse, dizendo que, se fosse salvo, lhe pagaria o favor, o leão sorriu e deixou-o ir. Não muito depois, o leão foi salvo, graças ao reconhecimento do rato. Com efeito, preso por caçadores e amarrado a uma árvore com uma corda, logo que o ouviu gemendo, o rato se aproximou, roeu a corda e o libertou, dizendo: “Recentemente riste, não acreditando em uma retribuição da minha parte, mas agora vês que também entre os ratos existe reconhecimento”. Moral: as situações mudam e os mais fortes podem precisar dos mais fracos, e, também, os atos de bondade frutificam.


O lobo e a garça Um lobo, tendo engolido um osso, ia para todo lado procurando quem o curasse. Encontrou uma garça e combinou um preço para que ela lhe tirasse o osso. E ela, abaixando sua cabeça até a goela dele, retirou o osso e pediu o pagamento combinado. O lobo, tomando a palavra, disse: “Ó amiga! Não estás satisfeita por teres tirado a cabeça viva da boca de um lobo? E ainda pedes pagamento?”. Moral: o máximo que se pode esperar dos maus como reconhecimento é que, da parte deles, à ingratidão não se some a injustiça.

O menino que gritava lobo Um menino que cuidava das ovelhas subia continuamente até a barragem e gritava: 'Socorro, tem um lobo!' Todos os agricultores vinham correndo apenas para descobrir que o que o menino dizia não era verdade. Então, um dia, realmente havia um lobo, mas quando o menino gritou, eles não acreditaram nele e ninguém veio em seu auxílio. Todo o rebanho foi comido pelo lobo. Moral: isso mostra como os mentirosos são recompensados: mesmo que digam a verdade, ninguém acredita neles.



 


Notas



  • Esopo nasceu provavelmente na Frígia (atual Turquia) entre o no final do século VII a.C. e o início do século VI a.C.

  • Pouco de sabe sobre sua vida havendo referência dispersam nos textos de Heródoto, Platão, Aristófanes, Aristóteles e outros.

  • O mais antigo registro a uma fábula aparece em Os Trabalhos e os Dias (VII a.C.) de Hesíodo: fábula da águia e o rouxinol. Demonstrando que o gênero fábula seria muito anterior a Esopo.

  • É comum que a narrativa da fábula inclua sua moral ao princípio (promítio) ou ao final (epimítio).

  • Os principais sucessores de Esopo foram os fabulistas romanos Fedro (século I d.C.) e Bábrio (século II d,C.) que também traduziram Esopo para o latim, enriquecendo estilisticamente as narrativas.

  • A primeira edição impressa das Fábulas é de 1484, não distante da impressão da Bíblia de Gutemberg de 1455. Esta edição contava com 97 fábulas atribuídas a Esopo. A autoria das fábulas antigas é difícil de definir, mas o conhecido Perry Index confere a Esopo a autoria de 584 fábulas.

  • George Orwell recorreu a linguagem esópica em sua famosa novela Animal Farm (1945).

  • Mérito do professor Leo Strauss (Universidade de Chicago) a descoberta do uso da linguagem esópica em muitos autores da Antiguidade e da Idade Média.

  • Nos tempos atuais, de crescente censura totalitária, não surpreenderia um ressurgimento do uso da linguagem esópica.

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