Esaú e Jacó de Machado de Assis
- 28 de jul.
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Atualizado: 29 de jul.

“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”– Conselheiro Aires, ceticismo machadiano sobre as narrativas coletivas e utopias políticas
Personagens Principais Pedro – monarquista, formal, orgulhoso Paulo – irmão gêmeo de Pedro, republicano, impulsivo, combativo Flora – jovem amada pelos dois irmãos, indecisa entre ambos Conselheiro Aires – diplomata aposentado
Personagens Secundárias Natividade – mãe dos gêmeos, supersticiosa Santos – pai dos gêmeos, rico banqueiro, pragmático Dona Cláudia – mãe de Flora, socialmente ambiciosa Batista – pai de Flora, político oportunista Plácido – amigo e auxiliar ligado à família
Interpretação O romance porta camadas de sentido, muitas vezes irônicas e até esotéricas, a ironia machadiana não é mero ornamento, mas um modo de dizer algo profundo sem o declarar diretamente. O conflito político responde apenas a uma primeira leitura exotérica, com Pedro defendendo a monarquista e Paulo pugnando pelo regime republicano. Porém, a questão mais profunda é a natureza do conflito humano e a fragilidade da ordem política – os regimes mudam, os slogans mudam, mas a alma humana permanece a mesma.
A mudança do Império para a República aparece quase como um experimento irônico: muda-se o nome do regime, sem mudança substancial na vida moral e psicológica dos personagens. Pedro e Paulo apresentam diferença sem diferença quando contrastamos aparência e essência. Os gêmeos parecem opostos absolutos, mas, no fundo, são extraordinariamente semelhantes: mesma estrutura de ambição, mesma vaidade, mesmo desejo de prevalecer. A diferença ideológica encobre uma identidade antropológica. A política, quando desligada da questão da virtude, torna-se apenas competição entre facções equivalentes. O verdadeiro tema, então, não é monarquia versus república, mas o problema da alma não ordenada – a raiz das crises políticas não está nas instituições, mas na desordem da alma humana.
Flora pode representar a tentativa de escolher entre dois polos aparentemente opostos que, em essência, não oferecem alternativa real. Em certo sentido, Flora vê algo que os outros não veem: a semelhança profunda dos irmãos, a esterilidade do conflito. Sua incapacidade de escolher talvez não seja mera fraqueza, mas um sinal de que a escolha proposta é falsa – assemelha-se assim ao interlocutor platônico que percebe a insuficiência das opiniões dominantes, mas não alcança ainda o conhecimento superior. Ela ama a complementaridade dos dois irmãos, mas não consegue escolher. Sua morte reforça o tema do impasse: nem o amor, nem a política, nem a razão resolvem a dualidade humana. Flora é a alma curiosa de perfeição que oscila eternamente.
Flora intui uma unidade entre os opostos, mas não consegue realizá-la no plano concreto, pois a verdadeira ordem não pode ser construída pela simples conciliação horizontal de opostos, ela exige uma abertura à transcendência. Neste sentido sua morte também indicaria o fracasso de uma tentativa de síntese puramente psicológica ou social – a ausência de um princípio superior que unifique a realidade.
O conselheiro Aires apresenta uma consciência lúcida, mas incompleta. Ele percebe a desordem e não se deixa capturar pelas ideologias, porém não oferece uma reordenação da existência, permanecendo num plano estético e irônico, não plenamente filosófico ou espiritual – Aires reconhece a desordem, mas não a transcende. Ou talvez o autor tenha concebido o conselheiro Aires como o observador que sabe mais do que diz, narra com reserva, permitindo ao leitor descobrir a verdade – assim Machado de Assis não explica a tese do romance, mas a encena.
Machado de Assis indica que as disputas políticas visíveis são frequentemente máscaras de problemas mais fundamentais da natureza humana, pois nenhuma ordem política pode resolver a desordem da alma. Em sua camada filosófica Esaú e Jacó é um romance sobre a superficialidade das divisões ideológicas, a permanência das paixões humanas, a ironia entre aparência política e verdade moral, a tensão entre ordem exterior e desordem interior. Em suma, o autor está mostrando, com ironia quase socrática, que a política é muitas vezes o palco onde a alma humana representa seus próprios conflitos.
Um erro fundamental do pensamento humano é absolutizar aspectos parciais da realidade: Pedro (monarquia) e Paulo (república) não representam princípios verdadeiros em si, são recortes abstratos da realidade elevados indevidamente a absolutos. Ambos captam algo real, mas deformam esse real ao isolá-lo e absolutizá-lo. O conflito entre eles, portanto, não é verdadeiro conflito ontológico, mas um choque entre meias-verdades.
O real é sempre concreto, complexo e integrado. No romance nenhuma das posições dos gêmeos alcança essa concretude; suas ideias permanecem no plano abstrato, ideológico. Isso explicaria a esterilidade do conflito, e a incapacidade de produzir algo novo ou verdadeiro. A política, aqui, aparece como discurso desligado da realidade concreta da vida.
O romance é uma crítica implícita a traços típicos da modernidade: ideologização da política,fragmentação do conhecimento, e perda da visão unitária do real. A troca de Império por República exemplifica isso: mudança de formas abstratas, sem acesso à substância concreta da ordem social.
Os gêmeos Pedro e Paulo representam dois impulsos eternos da alma humana: o espírito de conservação e o espírito de inquietação. As grandes divisões políticas são, em grande medida, projeções de diferenças psicológicas inatas, não puras ideias. Em Esaú e Jacó vemos a repetição inevitável da tensão entre ambos, a dificuldade de alcançar unidade interior. A rivalidade dos gêmeos desde o ventre materno não é apenas um expediente romanesco, mas um símbolo desta tensão inscrita na própria existência humana – a política apenas fornece a linguagem exterior desse conflito.
A natureza humana é ambígua, dual e imperfeita. As oposições (ordem e mudança, tradição e progresso) são reais, mas irreconciliáveis em sua forma extrema. A sabedoria está no reconhecimento dessa tensão, não na vitória de um lado – ambos são necessários, mas sua oposição radical gera esterilidade. E o radicalismo surge quando aquela inquietação ontológica é instrumentalizada em volúpia revolucionário, quando o asseio por progresso implica destruir toda a herança cultural (e.g. marxismo).
Em Esaú e Jacó falta às personagens acesso a uma verdade superior que unifique os opostos – não há possibilidade de melhoras quando a política abandona a busca do Bom, do Belo e do Verdadeiro.
Pedro e Paulo podem ser vistos como expressões de tensões internas da sociedade brasileira, não como ruptura radical. A elite política muda de discurso, mas mantém hábitos e estruturas, há uma continuidade cultural que neutraliza os conflitos ideológicos. A passagem do Império à República é tratada como mudança superficial, um desmonte machadiano da crença no progresso automático, com as personagens revelando a constância das paixões humanas através das épocas – a história muda de forma, mas não de essência.
A Proclamação da República não resolve nada essencial: os gêmeos continuam rivais, a elite se adapta, o povo assiste passivo. Machado critica o bacharelismo, o enriquecimento especulativo (Santos) e o oportunismo (Batista). A obra defende implicitamente uma visão realista da sociedade, lembrando que as instituições importam menos que o caráter, que mudanças bruscas geram continuidade disfarçada, e que o ceticismo é antídoto contra fanatismos.
No perene embate do estamento burocrático contra o povo brasileiro, nossa política apresenta apenas rupturas aparentes e uma perversa continuidade – a política brasileira é um teatro de aparências. Somente uma improvável recuperação da ordem interna na alma coletiva do brasileiro acenderia uma luz no fim do túnel.
Notas
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa junto com Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Padre Antônio Vieira.
Extremamente culto, é autor de finíssima ironia e sarcasmo.
Filho de pai mulato pintor de parede e mãe portuguesa lavadeira. A família era agregada a uma família de posses. Seus escritos nunca fazem menção a sua condição social. Ao contrário, abordou assuntos universais e imortalizou-se.
A obra de Machado de Assis nos dá pistas para entender ontologicamente o brasileiro. Este estudo ainda está por ser feito.
Seus principais romances, já produtos da sua maturidade, são: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908).
Entre as obras que reúnem seus contos destacam-se: Contos Fluminenses (1870), Histórias da Meia-Noite (1873), Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899) e Relíquias de Casa Velha (1906).
A narrativa de Esaú e Jacó se desenvolve aproximadamente entre as décadas de 1870 e 1890, acompanhando o fim do Império e os primeiros anos da República no Brasil, englobando a Abolição, a Proclamação da República e o Encilhamento.
No livro de Gênesis, Esaú e Jacó são gêmeos de Isaac e Rebeca. Esaú (o primogênito) é rude, caçador, homem do campo, favorito do pai. Representa a força bruta, a tradição da primogenitura e a ordem natural. Jacó é mais astuto, caseiro, favorito da mãe. Rouba a primogenitura de Esaú (vendendo um prato de lentilhas) e, com ajuda de Rebeca, engana o pai cego para receber a bênção destinada ao primogênito. Depois foge, luta com um anjo e se torna Israel, pai das doze tribos – simboliza a possibilidade de redenção e crescimento espiritual. Paulo, no Novo Testamento (Romanos 9), usa a história para falar da soberania de Deus na eleição.
Machado de Assis não estabelece explicitamente uma equivalência entre Paulo–Aquiles, e Pedro–Odisseu. Alegoricamente Paulo compartilharia com Aquiles a impulsividade, combatividade, paixão pelas disputas e menor disposição à conciliação – sua adesão à República também possui algo de entusiasmo juvenil e militante; já Pedro aproximaria-se de Odisseu na tendência de ser mais reservado, menos explosivo, mais disciplinado, e mais ligado à ordem estabelecida (o Império). Enquanto Paulo reage, Pedro frequentemente calcula.
Machado reúne três pares célebres de irmãos ou rivais da tradição ocidental:Esaú × Jacó (rivalidade providencial);Aquiles × Odisseu (dois modelos de heroísmo);Pedro × Paulo (rivalidade moderna).A diferença decisiva é que, enquanto os pares bíblico e homérico estão inseridos numa narrativa de grande significado, Pedro e Paulo vivem num mundo em que o conflito já não conduz nem à salvação nem à glória. O resultado é uma espécie de epopeia em tom menor, na qual os grandes arquétipos da tradição aparecem esvaziados pela ironia machadiana. A cultura clássica no autor não é uma ornamentação erudita, ela aqui apresenta um contraponto que desnuda, por contraste, a condição moderna.
O Encilhamento foi uma crise causada pelo excesso de emissão de dinheiro e pela especulação financeira, decorrente de uma tentativa de acelerar o desenvolvimento econômico do Brasil logo após a Proclamação da República. A expansão fiduciária do crédito cria uma ilusão temporária de prosperidade. Como não aumenta a quantidade de bens de capital nem a poupança real, induz investimentos incompatíveis com as condições econômicas efetivas. Quando essa discrepância se torna evidente, a crise é inevitável.


