Eneida de Virgílio


Aeneas and his family fleeing Troy – Agostino Carracci (1557–1602)

Personagens Principais Eneias – herói troiano, lidera a fuga de Tróia e funda na Itália a cidade de Lavínio Juno – Hera para os gregos, persegue os Troianos por diferentes motivos Vênus – Afrodite para os gregos, mãe de Eneias Júpiter – Zeus para os gregos Dido – rainha de Cartago, enamora-se de Eneias Latino – rei dos Latinos Turno – prometido de Lavínia Personagens Secundárias Anquises – Pai de Eneias Ascânio (Iúlo) – filho de Eneias Sibila de Cumas – guia Eneias no reino de Hades Amata – esposa de Latino Lavínia – filha de Latino e Amata Evandro – rei dos arcádios Palas – filho de Evandro Camila – guerreira virgem consagrada a Diana, luta ao lado de Turno Juturna – imortal enviada por Juno no auxílio de Turno Interpretação Ao criar um fundamento mitológico para Roma e cantar suas glórias, Virgílio dá exemplo de liderança, de como o dever (pietas) deve impor-se sobre as paixões na relação do indivíduo com a sociedade. Diferindo assim do foco no combate interno do homem contra suas tendências perversas característico dos mitos gregos – exalta-se o senso de dever para com os outros e não a busca do preenchimento do sentido da vida à imagem do espírito absoluto. Afasta-se da didática ontológica de Homero dando ênfase ao dever cívico.


A narrativa de Eneias em Cartagena espelha a Odisseia onde Odisseu narra suas aventuras. O mar é o símbolo da vida, e navegar, “viajar” através da vida. Os heróis erram no mar da vida simbolizando o combate aos seus conflitos interiores, seus esforços de sublimar os desejos ilegítimos em direção ao espírito. Mas na Eneida os episódios durante a viagem servem mais para reforçar o destino de Eneias e dos troianos em fundar Roma.


Eneias está destinado a ser agente da fundação de Roma. Este ato se sobrepõe a sua vida, ao seu destino pessoal. Os romanos devem colocar Roma acima de seus interesses. Como na Ilíada, o destino dos humanos não está inteiramente em suas mãos. Ora é definido por Zeus, ora por Destino como entidade. A participação dos deuses e do destino nos acontecimentos reforça o aspecto trágico da vida humana. Porém se na Ilíada isso remete ao temor aos deuses como “conhecer a si mesmo” e Aquiles aprende que não devemos buscar “nada em excesso”, na Eneida reforça-se uma vez mais o dever inalienável do líder.


A descrição do escudo de Eneias faz paralelo ao de Aquiles na Ilíada. Mas enquanto o de Aquiles representa a própria vida humana, o de Eneias apresenta cenas da história de Roma, tendo no centro a batalha de Áccio onde Augusto derrotou definitivamente Marco Antônio e Cleópatra.


Neste sentido Homero aponta aos valores transcendentes (brâmanes) ao passo que Virgílio sublima o real e os atos modificadores (fundação de Roma), identificando-se com os valores da casta guerreira (xátrias). Ambos alinham-se as principais especificidades de seus respectivos povos.


Mas é preciso lembrar que Virgílio era um iniciado (fazendo um arco da tradição italiana de Pitágoras a Dante Alighieri) e sua obra tem um significado metafísico-esotérico que, segundo René Guénon, se esconde e se revela simultaneamente em fases sucessivas pela qual passa a consciência de um iniciado para alcançar a imortalidade.



Outros aspectos da obra:


Eneias parece isolado ao longo do épico. Mesmo a relação com sua mãe apresenta a barreira da sua mortalidade não compartilhada com ela. Ele sofre sozinho suas perdas e não as deixa transparecer quando lidera seu povo.


Na fuga do saque de Tróia Eneias carrega seu pai nas costas, leva seu filho pela mão e sua esposa (Creusa) fica para trás e morre. Iconograficamente Eneias carrega o passado que pode levar e guia o futuro enquanto Tróia morre.


A relação conflituosa entre Eneias e Dido constrói uma base histórica para o futuro conflito entre Roma e Cartago (Guerras Púnicas). Também demonstra o inabalável compromisso de Eneias com seu destino apesar dos sentimentos por Dido.


Os jogos em homenagem a Anquises remetem aos jogos promovidos por Aquiles em homenagem a Pátroclo na Ilíada. Virgílio também promove jogos que Augustus estava resgatando da tradição. Na verdade os jogos eram de origem etrusca, povo que antecedeu os romanos na Itália.


Ao deixar a Sicília Eneias deixa os velhos e as mulheres para trás. Ou seja, ele leva o futuro formado por jovens livres para casarem com o povo na Itália, constituindo o futuro povo romano.


Como Odisseu, Eneias também desce ao Hades onde seu pai, Anquises, apresenta o futuro de Roma através das almas que reencarnarão como romanos. É um reforço das obrigações do filho e uma apologia dos feitos romanos.


Uma possível interpretação para a saída do Hades através da porta dos falsos sonhos pode ser a não participação de Eneias no sucesso apresentado por Anquises, pois no restante do épico ele passará por muitos sofrimentos.


Os primeiros seis livros da Eneida aludem as andanças da Odisseia, ao passo que os restantes seis livros concentram-se na guerra, i.e. lembram a Ilíadas. Leitores e críticos atuais preferem a primeira parte, mas os antigos preferiam a segunda.


Enviada por Juno, Alecto provoca a ira de Turno. Mas os conflitos começam com um pequeno incidente, a morte do cerdo de Silvia (também guiada pela mão de Alecto). Um pequeno detalhe mundano detona a guerra que se avizinhava. Toque mágico de Virgílio.

O companheirismo do jovem Euríalo e, o não tão jovem, Niso, bem como a relação entre Palas e Eneias demonstra a importância do exemplo e dedicação que os mais velhos devem dar aos mais jovens.


As personagens Camila, a guerreira virgem que não pode casar, e Juturna, estuprada por Zeus também não pode casar, são figuras invertidas que expressam a impropriedade do casamento que Turno busca com Lavínia. No cinto de Palas, retirado de seu cadáver por Turno, figura cenas das filhas de Dánao que recusam o casamento envenenando seus noivos.


Como interpretar o final do épico? Eneias estava certo em matar Turno? Ele age em nome das promessas a Palas e Evandro? Ou ele cede as paixões?



Notas

  • Poeta romano (70 a.C. – 19 a.C.) nasceu em Mantua (Itália) e escreveu Eneida aproximadamente em 30 a.C. a qual deixou inacabada. Nota-se hexâmetros incompletos e inconsistências na trama, mas a história parece estar completa.

  • Eneida prove Roma com um mito fundador combinando mitologia grega (guerra de Tróia) com a história romana. Eneias seria um ancestral de Rômulo.

  • Na Ilíada, Poseidon salva Eneias de Aquiles dizendo que aquele escapará do destino de Tróia e fundará uma nova cidade.

  • Pietas é melhor traduzido como dever com os outros (família, amigos, deuses, hospedes, etc) e não piedade.

  • Palantino, onde vive Evandro, é o futuro local de Roma.

  • Em várias aparições os deuses são reconhecidos apenas quando se retiram de cena. Isto pode denotar que a intervenção divina só pode ser reconhecida pelos humanos em retrospectiva.

  • Queda de Troia ocorre em 1184 a.C..

  • Roma foi fundada (conforme a lenda de Romulo) em 753 a.C., tornando-se república em 509 a.C.. Sua expansão toma expressão durante as guerras púnicas (264-146 a.C.) contra Cartagena que é derrotada junto com a Grécia – Roma domina o Mediterrâneo.

  • A República tem problemas internos nos dois últimos séculos antes da Era Cristã. Júlio César é assassinado em 44 a.C., deflagrando grave conflito interno pelo poder. Em 31 a.C. Otávio/Augusto alcança o poder que deterá até sua morte em 14 d.C..

  • Hera (Juno) é implacável com os troianos em função (a) do julgamento de Páris, (b) a cidade foi fundado por um filho ilegítimo de Zeus – Dardano, (c) Zeus raptou o príncipe Ganímedes para substituir Hebe no servir do néctar aos deuses, e (d) ela ama Cartagena (grande inimiga de Roma).