Critão de Platão


"Não devemos de forma alguma preocupar-nos com o que diz a maioria, mas apenas com a opinião dos que têm conhecimento do justo e do injusto, e com a própria Verdade.” – Sócrates (48a), sobre a opinião pública


Personagens Sócrates – filósofo Critão – discípulo de Sócrates



Este curto diálogo é um pendant da Apologia de Sócrates, pois complementa o entendimento de porque a morte de Sócrates funda a filosofia, reforçando o fato do seu exício voluntário ser a consequência lógica da forma que viveu e da moral que pregou.

Sócrates fleumaticamente descarta a possibilidade de fuga refutando os argumentos do discípulo. Inicialmente explica que não se deve ceder a tirania da opinião pública, pois apenas interessa a opinião dos que tem conhecimento do que é justo e injusto. E ser injusto (fazer a coisa errada) não é bom ou belo, mas desonroso para o agente do ato espúrio – assim como consumir um mau alimento prejudica o corpo, praticar uma injustiça desarranja a alma, nosso mais precioso bem. Nunca devemos retribuir uma transgressão com outra, pois devemos agir sempre de acordo com a justiça.

A justiça é fundada sobre um conjunto de leis e regras da pólis, logo a fuga seria uma infração destas leis. Para Sócrates a legislação da pólis expressaria algo de sagrado, sendo sua absurda condenação responsabilidade de indivíduos que não souberam administrar as leis. Fugir seria como romper um contrato com o qual ele sempre viveu, destruindo o trabalho de toda uma vida dedicada à arete, à justiça, à pólis e às leis. É imperativo justificar seus ensinamentos com seus atos. Fugir seria confirmar as acusações de seus juízes.

Fugitivo, Sócrates viveria em comunidades caóticas e com gente desonerada (que Platão define nas Leis como o pior castigo para um homem honrado), desacreditando tudo que sempre falou e ensinou.

Acima de tudo, Sócrates deseja poder encarar ereto os juízes no Hades, pois as normas mundanas não podem estar dissociadas das leis eternas. Antes da chegada de Critão ele sonhara com uma linda mulher vestida de branco prometendo que ele chegaria às férteis terras de Ftia (terra natal de Aquiles que assim a descreve na Ilíada) em três dias. Sócrates está voltando para casa, sua morada eterna.



O horizonte de consciência de Sócrates é incomparavelmente mais amplo que o de Critão e daquela sociedade ateniense que o julgou. Ele enxerga as inescapáveis tensões ontológicas (espírito/matéria & indivíduo/coletivo), tem consciência das ambiguidades morais, sabe que viemos de uma linhagem espiritual-biológica e que outros a seguirão depois de nós, entende que faz parte do cosmo e que a vida não termina com a morte.

A escolha entre o certo e o errado, e a opção pela verdade, são obra do acaso ou da personalidade de cada um, mas sim resultado do nosso horizonte de consciência. Uma vida consciente demanda maior responsabilidade com nossos atos, é uma vida mais problemática, mas essencialmente a vida humana (animais não tem consciência).




Notas

  • Platão (427-348 a.C.) nasceu em Atenas ou na próxima Egina.

  • Filho de Ariston, descendente do rei Codro, Perictíone e de um irmão de Sólon do lado materno. Ainda na juventude, recebe o apelido de Platão (“largo”) por razões incertas, mas provavelmente ligadas ao seu tipo físico. Seu nome era Arístocles.

  • Aos 19 anos torna-se discípulo de Sócrates. Sua obra escrita nos chegou aparentemente completa (26 diálogos são considerados legítimos).

  • Segundo o matemático e filósofo Alfred North Whitehead (1861-1947), “A mais segura caracterização da tradição filosófica europeia é que esta se constitui de uma série de notas de rodapé a Platão.”

  • Os subtítulo dos diálogos, e.g. Fedro, sobre o Belo, foram dados por Trasilo no século I, na Biblioteca de Alexandria que então comandava.

  • Critão, do dever é diálogo legítimo, provavelmente escrito na juventude de Platão, fase socrática do autor.

  • A morte de Sócrates fora adiada em função do mau tempo que retrasava o retorno do barco cerimonioso que fora a Delos na tradicional comemoração da vitória de Teseu sobre o Minotauro – ninguém podia ser executado durante esta cerimonia que só concluía com o retorno da embarcação.

  • O cenário apresenta Critão, que havia subornado o guarda, na cela de Sócrates tentando convencê-lo em aceitar um plano de fuga elaborado por alguns de seus amigos.

  • Sócrates desluz a opinião que a maioria valorizada por Critão, explicando que apenas o voto dos melhores é que importa, coincidindo com a tese bramânica da condução do povo pela elite intelectual-guerreira da sociedade. Todo movimento social parte de cima para baixo, o povo nada conduz sendo sempre conduzido.

  • A única possível solução para o Brasil seria formação de uma elite intelectual (juntando a elite de pessoas que realmente querem aprender e a elite dos que querem verdadeiramente ensinar) que posteriormente contaminasse positivamente a sociedade. O conceito de educação universal não educa ninguém, servindo apenas para distribuir as pessoas economicamente.

  • Todo conceito de liberdade de pensamento e de consciência deriva do sacrifício de Sócrates.

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