Circo sem pão


Segundo Mario Andrada, diretor executivo da Rio 2016, “com o fim da Olimpíada, termina a fase de complexo de vira-lata do Brasil”. Estaria respondendo a supostos descrentes da capacidade do país levar a contento a competição. Já havia escutado afirmações similares durante a Copa do Mundo há dois anos. E pergunto-me por que alguém acreditaria que tais eventos não seriam levados a termo no Brasil? Afinal, o próprio Brasil já havia realizado uma Copa há mais de meio século. E países igualmente considerados em desenvolvimento como África do Sul, México (duas vezes!), Argentina, Chile e Uruguai já havia levado o mesmo evento a contento. O México também realizou uma Olimpíada nos idos de 1968, URSS em 1980, Coreia em 1988 e a China, país então com PIB per capita inferior ao brasileiro, não teve nenhum problema com a mesma competição em 2008. Dizer que ninguém acreditava que o Brasil seria capaz de realizar a Copa do Mundo e a Olimpíada é criar uma falácia do espantalho para esconder os reais problemas provocados em sediar estes eventos.


Quando o Brasil comprometeu-se em sediar uma série de megaeventos esportivos¹ logo se levantaram dúvidas sobre o benefício que isto traria ao país. Seria esta uma prioridade num país com tantas carências como as de infraestrutura, saneamento básico e hospitalar? A óbvia resposta negativa a esta pergunta era ainda mais acentuada pelo histórico de prejuízo financeiro que estes eventos trouxeram aos seus realizadores. Além disto, temia-se que os investimentos, majoritariamente de origem pública, seriam presa fácil do nosso corrupto estamento burocrático. O tempo demonstrou que estes receios foram subestimados.

O Pan-Americano já fora um péssimo negócio, com os estádios abandonados após o evento. Praticamente nada das obras realizadas para o Pan foram aproveitadas para a Rio-2016, e não se espera destino diferente para o parque olímpico. Apenas de manutenção estima-se que os estádios olímpicos demandem R$59 milhões por mês, uma exorbitância para quem mal consegue pagar o funcionalismo público e suprir os hospitais com o mínimo necessário. A Copa do Mundo evidenciou-se por novos estádios em demasia. A FIFA recomendou apenas oito, o governo queria dezesseis e acabaram fechando em doze estádios, dos quais ao menos nove deles são hoje deficitários.

O turismo também pouco ou nada se beneficiou das competições. Durante a Copa registrou-se queda na entrada de recursos advindos do turismo já que o dinheiro deixado por torcedores estrangeiros não compensou o que deixou de entrar com a perda de viajantes em negócios naquele período; e os míseros 157 mil turistas adicionais que a Embratur diz terem vindo para a Olimpíada pouco impactaram nossa balança de pagamento, até porque a maioria era de brasileiros. Dois anos após o encerramento da Copa do Mundo não se observou nenhum impulso no turismo. Não é difícil concluir que a mesma falta de retorno turístico continuará ocorrendo no Rio de Janeiro que foi sede única ou principal de todos os eventos do megalômano calendário esportivo da última década.

E não há nada que argumentar a favor de obras de mobilidade urbana que conseguiram sair do papel e passar da promessa, pois sua necessidade e realização são independentes de tais eventos. Ou será que é preciso haver uma Copa do Mundo ou Olimpíada para melhorar nossa ineficiente infraestrutura de transportes? Ao contrário, estes eventos consomem e desviam recursos daquilo que é realmente necessário neste mesmo quesito.

Finalmente, a Lava-Jato provou que o afã em realizar aquele megalomaníaco calendário de eventos visava principalmente o desvio do erário para enriquecimento de corrutos e corruptores e o financiamento do projeto de poder do partido de plantão. Depois de mais de R$71 bilhões² desperdiçados em investimentos de pouco ou nenhum retorno nestes megaeventos temos uma nação com déficits fiscais anuais ainda mais bilionários, dívida pública galopante, a maior recessão econômica da nossa história e quase 12 milhões de desempregados. É claro que a realização destes eventos não são os responsáveis pelo caos econômico no qual nos encontramos, mas sem dúvida contribuíram para tal, sendo aquele calendário de eventos produto emblemático da mentalidade que nos empurrou para este desastre.


Defensores em sediar Copa do Mundo ou Olimpíada argumentam sobre o potencial ganho político a ser conquistado. A correspondente grande exposição midiática é uma oportunidade de posicionar melhor a nação aos olhos do mundo, ganhando maior respeito e atraindo investimentos. Mas não foi isso o que aconteceu com o Brasil. Já na Copa do Mundo as manifestações de rua iniciadas um ano antes explicitaram ao mundo uma nação carente de serviços básicos que preferia investir no supérfluo. Nossa conhecida violência e a exploração de turismo sexual também foram evidenciadas. O paradoxo do discurso de sustentabilidade na cerimonia de abertura da Olimpíada na borda da poluída Baía da Guanabara também não passou despercebido mundialmente, bem como a recorrente corrupção, com os escândalos da Lava-Jato ganhando cobertura internacional às portas do início dos Jogos. A visibilidade em hospedar estes grandes eventos apenas reforçou a má imagem do Brasil ao expor nossa cruel realidade em um de seus piores momentos.


Tão pouco esportivamente há razão para ufanismos. Há sete anos, quando o Brasil ganhou a disputa para sediar os Jogos Olímpicos, teve início um programa governamental bilionário para melhorar o desempenho de nossos atletas. Vários mecanismos de financiamento foram implantados: Bolsa Atleta, Bolsa Pódio, Lei Piva, incentivos fiscais, convênios e patrocínios estatais. Milhares de atletas forma beneficiados. Os mais conhecidos receberam salários mensais de até R$15 mil por mês, quando não R$25 mil como no caso do croata Josip Vrlic e o sérvio Slobodan Soro naturalizados brasileiros para reforçar nosso time de polo aquático. Não deixa de serem contrastantes os salários recebidos pelos atletas olímpicos, pagos com o erário, diante do exército de desempregados entre os pagadores de impostos.

Também não faltaram investimentos em técnicos, equipamentos e instalações. Foram mais de R$5 bilhões de dinheiro público gastos com esportes visando as Olimpíadas, sendo R$3,2 bilhões apenas no último ciclo olímpico. Com todo este investimento, o objetivo do Comitê Olímpico Brasileiro era terminar entre os 10 primeiros colocados no quadro total de medalhas, sendo para tal necessário alcançar entre 27 e 30 medalhas depois das 17 medalhas conquistadas pelos atletas brasileiros em 2012 (a Itália fora a décima colocada em Londres com um total de 28 medalhas). O objetivo não foi alcançado. O total de 19 medalhas conquistadas no Rio, apenas duas a mais que em Londres, faz lembrar a fábula de Esopo sobre a montanha que pariu um rato. Apenas nos últimos quatro anos foram gastos R$168 milhões em treinamento e incentivos aos atletas para cada uma destas parcas medalhas.

O governo da Grã-Bretanha também incorre no erro de investir nos atletas olímpicos, mas ao menos consegue parir algo mais que um rato: depois de apenas 15 medalhas em 1996 (mesmo número que o Brasil conquistou naquela oportunidade) cresceram gradativamente até alcançar 65 medalhas em Londres e terminar na segunda colocação na Rio-2016. Mas melhor exemplo é mesmo o proporcionado pelos atletas americanos que, imbatíveis nos Jogos, não recebem um só centavo de dinheiro público, sendo financiados por eles mesmos, suas famílias, crowdfunding, investimentos privados e doações ao Team US Fund.


Quanto ao desempenho esportivo brasileiro na Copa do Mundo de 2014 basta lembrar um placar: Alemanha 7 x 1 Brasil. O futebol brasileiro continua na sua longa crise técnica, com clubes mergulhados em dívidas com o Tesouro. Dívidas estas que um governo leniente e populista empurra para o contribuinte enquanto dirigentes corruptos e um punhado de empresários e jogadores enriquecem desproporcionalmente.


E ao término das Olimpíadas não temos nada para mostrar senão um simbólico rato e uma conta bilionária paga com o dinheiro dos trabalhadores para financiar o sonho olímpico de um grupelho de atletas. . Apesar de todos os investimentos não há legado esportivo para tentar justificar o injustificável.


Por todos os ângulos que se analise o recheado calendário de eventos esportivos nos últimos anos não é possível encontrar um único aspecto positivo, seja econômico, político ou esportivo. Porém o fato que mais chamou negativamente atenção foi escutar gritos histéricos e o espocar de rojões já na madrugada de domingo quando o Brasil alcançava uma vitória quase que obrigatória³ contra a Alemanha na final do futebol olímpico. Qual a razão daquele arrombo ufanista aos gritos de “o campeão voltou”? Esta pergunta somava-se a surpresa com os autoelogios tecidos por brasileiros nas transmissões e jornais. O mesmo aconteceu durante a Copa do Mundo, decantada como “a Copa das Copas” entre infinitos autolouvores apenas levemente arrefecidos com o vexame no Mineirão. Que feito tão espetacular esta gente via para indiretamente declamar tantas odes a si mesmo e festejar por tão pouco?


O romano Juvenal descreveu em uma de suas sátiras a decadência de seus conterrâneos no início do segundo século da era cristã. O sátiro lamentava o povo que esquecera as virtudes e méritos que construíram Roma e preocupava-se apenas com “pão e circo”. Um povo que alegremente abria mão de sua consciência e liberdade em troca da satisfação de suas necessidades básicas e emoções efêmeras. A descrição caberia perfeitamente ao nosso povo não fossem dois detalhes: o Brasil nunca alcançou um apogeu e decaí de níveis civilizatórios muito baixos, e ao invés de trigo nossos governantes distribuem bolsas assistencialistas (do pobre ao empresário). Talvez seja este o sentido da fala do dirigente citado acima que decretou o fim do “complexo de vira-lata”: finalmente nos transformamos no que antes seria apenas um complexo.



Notas:

  • Nota¹: Jogos Pan-Americanos em 2007, Jogos Parapan-Americanos 2007, Jogos Mundiais Militares 2011, Copa das Confederações em 2013, Copa do Mundo 2014, Copa América 2015 (transferida para o Chile), Jogos Olímpicos 2016 e Jogos Paraolímpicos 2016.

  • Nota²: Pan-Americanos (R$4,0 bilhões), Jogos Militares (R$1,2 bilhões), Copa do Mundo (R$27,0 bilhões) e Olimpíadas (R$38,8 bilhões). Não inclui isenções fiscais que só nas Olimpíadas estavam previstas em R$3,8 bilhões.

  • Nota³: Diferentemente do Brasil, que enviou o que tinha de melhor para os Jogos, a Alemanha pouco se preocupou com o futebol nas Olimpíadas. Enquanto o Brasil chamava Neymar , Renato Augusto e sua melhor opção para o gol entre os jogadores acima de 23 anos, a Alemanha não convocou Thomas Müller, Özil ou Neuer, nem ninguém da seleção principal, dando estas vagas para os inexpressivos irmãos Lars, que ultimamente nem titulares são em seus times na Bundesliga, e o desconhecido atacante Peterson. E os alemães também abriram mão dos seis jovens com idade olímpica que disputaram a Eurocopa: Draxler, Can, Sané, Kimmirch, Weigl e Tah. Mesmo assim o Brasil sofreu e só conseguiu ganhar nos pênaltis.