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A Mente Esquerdista de Lyle H. Rossiter Jr.

há 49 minutos
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“Mankind is at its best when it is most free [and] to act freely is to assume risk and accept responsibility; only young children or adults with childish ideas expect to act otherwise.” – Lyle H. Rossiter Jr.


O autor tenta explicar o esquerdismo não apenas como uma posição política ou econômica, mas como o resultado de determinados padrões psicológicos e de desenvolvimento humano. Sua tese central é que existe uma relação entre dificuldades no desenvolvimento da personalidade – especialmente dificuldades na aquisição de autonomia, responsabilidade, confiança, iniciativa e competência – e a tendência a defender formas de organização social baseadas em dependência, tutela estatal, igualitarismo e direitos afirmativos. Trata-se, portanto, de uma interpretação psicológica da política, e não simplesmente de uma crítica econômica ou ideológica da esquerda.


Rossiter parte de uma concepção do homem como simultaneamente individual e social: o indivíduo necessita dos outros para sobreviver e desenvolver-se, mas precisa também adquirir autonomia e capacidade de agir por conta própria. A vida social saudável dependeria, assim, do equilíbrio entre dependência legítima e competência individual. A criança inicialmente depende dos pais, mas o desenvolvimento normal consiste em superar progressivamente essa dependência, adquirindo capacidade de escolha, autocontrole, responsabilidade e participação voluntária na vida comunitária. Para Rossiter, a família e a cultura têm papel decisivo nesse processo, pois transmitem regras, limites, hábitos e padrões morais que permitem ao indivíduo tornar-se autônomo sem deixar de ser social.


Desse ponto de vista, Rossiter contrapõe competência e dependência, responsabilidade e vitimização, cooperação voluntária e coerção, e individualidade e coletivismo. Ele sustenta que uma sociedade saudável não elimina a dependência, mas a mantém dentro de limites adequados: crianças dependem dos adultos, pessoas doentes podem necessitar de assistência e membros de uma comunidade podem cooperar entre si. O problema surgiria quando a dependência deixa de ser uma condição transitória ou excepcional e passa a constituir um ideal político permanente. É nesse ponto que o autor começa a estabelecer a ligação entre determinadas dificuldades psicológicas e aquilo que chama de “agenda esquerdista”.


Em seguida Rossiter percorre diferentes fases da vida – infância, período juvenil, adolescência e idade adulta – procurando mostrar como se formam confiança, autonomia, iniciativa, identidade, moralidade e capacidade de assumir responsabilidades. A criança precisa inicialmente desenvolver confiança nos outros e no mundo; posteriormente, precisa conquistar autonomia, aprender regras, exercer iniciativa e experimentar a realização pessoal. Na adolescência, a questão central passa a ser a formação da identidade e a conquista da liberdade responsável. Na idade adulta, essas conquistas deveriam culminar em relações familiares, profissionais e sociais caracterizadas pela responsabilidade e pela cooperação.


A importância dessa sequência está na ideia de que a liberdade não é simplesmente ausência de restrições. Para Rossiter, uma pessoa só consegue utilizar efetivamente a liberdade quando possui capacidades internas suficientes para governar a própria conduta. Regras, portanto, não são necessariamente inimigas da liberdade: elas podem constituir as condições que tornam possível a vida livre. A criança aprende a controlar seus impulsos justamente por meio de regras; posteriormente, o adulto competente é capaz de internalizar essas regras e agir autonomamente.


Rossiter aplica essa perspectiva à família. A família seria, em sua interpretação, a principal instituição responsável pela transmissão das estruturas psicológicas necessárias à autonomia. A autoridade dos pais, os limites, a disciplina, a diferenciação entre papéis e a progressiva transferência de responsabilidade para os filhos seriam elementos fundamentais desse processo. Quando essas estruturas falham, podem surgir indivíduos excessivamente dependentes, incapazes de assumir responsabilidade por suas escolhas ou inclinados a interpretar dificuldades pessoais como resultado da ação de terceiros.


É nesse ponto que a análise psicológica começa a se transformar explicitamente em crítica política. Rossiter sustenta que certos indivíduos podem procurar no Estado aquilo que não conseguiram desenvolver suficientemente em sua própria personalidade: proteção, reconhecimento, segurança, provisão material e validação. A política passa então a funcionar como extensão de necessidades psicológicas. Em vez de enfrentar limitações pessoais, o indivíduo poderia procurar uma estrutura externa que assuma responsabilidades em seu lugar.


O autor define a aplicação direta dessa teoria ao que chama de “mente esquerdista”. Ele distingue uma forma “benigna” de esquerdismo de uma forma “radical”. A primeira estaria associada à defesa de direitos afirmativos e à ampliação da responsabilidade do Estado pela proteção e pelo bem-estar dos indivíduos. A segunda levaria essa lógica muito mais longe, questionando estruturas tradicionais de autoridade, família, propriedade, responsabilidade individual e normas sociais.


Um dos conceitos fundamentais nessa etapa é o de direitos afirmativos. Rossiter distingue direitos que protegem o indivíduo contra interferências coercitivas — como liberdade de expressão ou de associação — de direitos que exigem que outras pessoas ou o Estado forneçam determinados bens, serviços ou condições. Na sua interpretação, a expansão dos direitos afirmativos pode transformar necessidades ou desejos em reivindicações políticas juridicamente garantidas. O Estado passa, então, a assumir novas obrigações para satisfazer essas reivindicações.


Para Rossiter, esse processo possui uma consequência psicológica e política importante: quanto mais responsabilidades são transferidas do indivíduo, da família e das comunidades voluntárias para o Estado, maior pode tornar-se a dependência das estruturas políticas. A pessoa deixa de ser concebida primordialmente como agente responsável por sua própria vida e passa a ser vista como beneficiária de direitos, proteção e assistência. O autor considera que isso pode produzir um círculo vicioso: dependência gera demanda por proteção; proteção institucionalizada aumenta a dependência; a dependência produz novas demandas por direitos e assistência.


Na versão radical de sua tese, Rossiter procura relacionar essa dinâmica a deficiências ocorridas nas primeiras etapas do desenvolvimento. Problemas de confiança, autonomia, iniciativa, identidade ou capacidade de estabelecer limites poderiam, segundo ele, reaparecer posteriormente sob formas políticas. A pessoa que não desenvolveu suficientemente a capacidade de lidar com frustração, responsabilidade ou autoridade poderia encontrar no radicalismo uma maneira de reorganizar o mundo externo de modo a eliminar ou reduzir essas fontes de tensão.


Assim, a transformação política proposta pelo esquerdismo radical seria interpretada por Rossiter como uma espécie de tentativa de reorganização das relações humanas: estruturas tradicionais consideradas limitadoras deveriam ser modificadas ou abolidas, enquanto novas estruturas institucionais deveriam assegurar igualdade, proteção e reconhecimento. O problema, para o autor, é que essa solução externa não necessariamente resolve as deficiências internas que deram origem à insatisfação. Ao contrário, poderia institucionalizá-las.


Um aspecto particularmente importante do argumento é a crítica à vitimização. Rossiter entende que a maturidade psicológica envolve reconhecer que, embora as circunstâncias externas tenham importância, o indivíduo continua tendo algum grau de responsabilidade sobre sua resposta a elas. A interpretação política que atribui sistematicamente a terceiros — família, sociedade, instituições, grupos privilegiados ou estruturas econômicas — a responsabilidade pelos problemas individuais poderia, segundo ele, enfraquecer a capacidade de autodeterminação.


O ideal a ser buscado é o de uma “sociedade competente”: uma sociedade formada por indivíduos capazes de cuidar de si mesmos, respeitar regras, assumir responsabilidades, constituir famílias estáveis, cooperar voluntariamente e participar da vida coletiva sem exigir tutela permanente. O Estado teria funções importantes, mas não deveria substituir as capacidades individuais e as instituições sociais intermediárias.


Em síntese, o raciocínio de Rossiter pode ser representado por duas cadeias opostas.


A primeira, considerada saudável pelo autor, seria: desenvolvimento psicológico → confiança → autonomia → iniciativa → competência → responsabilidade → cooperação voluntária → liberdade ordenada.


A segunda descreve aquilo que ele considera a dinâmica patológica do esquerdismo:

falhas no desenvolvimento → dependência → dificuldade de assumir responsabilidade → vitimização → reivindicação de proteção → direitos afirmativos → expansão da tutela estatal → maior dependência.


Rossiter procura explicar por que determinadas ideias políticas seriam psicologicamente atraentes para algumas pessoas. Sua interpretação transforma parte da disputa política em uma questão mais ampla sobre maturidade, autonomia, responsabilidade e desenvolvimento da personalidade.


O livro apresenta uma interpretação própria que combina psiquiatria, psicologia do desenvolvimento, teoria social e crítica política. A passagem de conceitos clínicos ou psicológicos para explicações abrangentes sobre movimentos políticos é teórica e não científica. Logo, o valor do livro está em oferecer um modelo interpretativo específico do esquerdismo, no qual psicologia individual, estrutura familiar, desenvolvimento moral e organização política são colocados dentro de uma mesma cadeia explicativa.


Em última análise, A Mente Esquerdista pode ser entendido como uma defesa da ideia de que uma sociedade livre depende de pessoas capazes de serem livres. Para Rossiter, liberdade política não se sustenta apenas pela existência de instituições jurídicas: exige indivíduos que tenham aprendido a controlar seus impulsos, aceitar limites, assumir consequências, tolerar frustrações, agir autonomamente e cooperar sem coerção. Sua crítica à esquerda decorre da convicção de que determinadas formas de igualitarismo, tutela estatal e direitos afirmativos podem substituir essas capacidades por mecanismos externos de proteção e, consequentemente, favorecer a dependência que uma sociedade livre deveria procurar superar.





Notas


  • Lyle H. Rossiter Jr. (1937-2019) nasceu em Glen Ellys (IL), EUA.

  • Psiquiatra, especializado em psiquiatria forense, que ganhou notoriedade sobretudo no fim da vida por aplicar sua experiência clínica ao estudo das ideias políticas e da natureza humana.

  • Rossiter sustentava que as instituições políticas não poderiam ser compreendidas adequadamente sem uma concepção realista da natureza humana. A partir dessa perspectiva, passou a criticar aquilo que chamava de “liberalismo moderno”, entendendo-o não simplesmente como uma doutrina política, mas como expressão de determinados padrões psicológicos e déficits no desenvolvimento da personalidade.

  • The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness foi publicado em 2006.

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